Como produzir mais alimentos, fibras e energia renovável sem renunciar à floresta em pé? E mais: como fazer com que a preservação deixe de ser apenas um custo e passe a gerar receita para quem a prática? É desse duplo desafio, que atravessa hoje toda a cadeia do agronegócio brasileiro, que parte “A Cédula de Produto Rural - ESG: o modelo GES e a Monetização da Preservação Ambiental no Agronegócio Brasileiro”, obra de André Ricardo Passos de Souza que acaba de chegar ao catálogo da Editora Dialética. O livro propõe um modelo de negócios próprio, e defende que boas práticas ambientais, sociais e de governança no campo podem ser identificadas, certificadas e levadas a mercado por meio de títulos verdes.
Preservar a mata nativa também pode ser um ativo financeiro
A pergunta que move o livro não é abstrata. Ela nasce de um cenário concreto: a regulamentação da CPR-Verde, a consolidação do pagamento por serviços ambientais e o avanço do mercado de carbono, somados a uma demanda internacional cada vez mais exigente por produtos gerados dentro das melhores práticas ESG. Nesse ambiente, o produtor rural, a cooperativa e a empresa do setor precisam saber não apenas o que fazer, mas como transformar o que já fazem em valor reconhecido pelo mercado.
O autor enfrenta essa questão com o rigor de quem desenvolveu o estudo como trabalho de pesquisa na Florida Christian University. A obra congrega teoria sobre modelos de negócio, ESG, agronegócio, cooperativas e títulos verdes, e a costura desses campos é justamente o que lhe dá densidade: em vez de tratar a sustentabilidade como discurso, o livro a examina como algo que pode ser medido, auditado e precificado.
A introdução delimita o problema com clareza, apresenta as hipóteses e os objetivos e lança a aposta central: a de que é possível certificar e monetizar práticas ESG por meio de títulos verdes, abrindo ao agronegócio brasileiro novas fontes de receita, de investimento e de competitividade.
Uma pesquisa construída a partir de quem conhece o mercado por dentro
Depois de uma fundamentação teórica que discute o ESG, sua aplicação específica ao agronegócio e os instrumentos financeiros capazes de remunerar práticas sustentáveis, o livro dedica um capítulo inteiro à metodologia. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e aplicada, ancorada em estudo de caso e em triangulação de dados. O material empírico vem de entrevistas com especialistas, de um focus group e de uma entrevista com uma gestora do agronegócio. Essa escolha metodológica confere ao texto um sabor particular.
O G que sustenta o E e o S
É no quarto capítulo, dedicado à sistematização dos resultados, que surge a contribuição mais original da obra. Ao analisar as entrevistas, André Ricardo Passos De Souza propõe reordenar a própria sigla. Em vez de ESG, o modelo GES, porque a governança, segundo a pesquisa, não é apenas um dos três pilares: é a base sobre a qual os outros dois se apoiam quando o objetivo é a monetização.
"O “G” de Governança, em verdade é fator basal, ou seja, de sustentação dos demais fatores “E” e “S” do ESG para a monetização dessas práticas no agronegócio brasileiro."
A lógica é convincente. É a governança que assegura conformidade, rastreabilidade, transparência, segurança jurídica e credibilidade. Sem ela, uma prática ambiental ou social, por mais virtuosa que seja, dificilmente se converte em um título confiável aos olhos do investidor. Uma das participantes do focus group resume bem esse papel ao afirmar, conforme registra o livro, que "A governança é um elemento uma coisa que traz qualidade para o título, sabe? Então eu não sei se um dia vai ter títulos realmente lastreados em critérios de governança". A governança, portanto, não lastreia diretamente a emissão, mas é o que qualifica tudo o que vem depois.
O ambiental já tem preço; o social ainda procura sua régua
Um dos méritos do livro é não esconder as assimetrias que a pesquisa revelou. O fator ambiental, mostra o autor, já conta com métricas e condições de monetização mais desenvolvidas, sobretudo pela preservação de matas nativas e pelos créditos de carbono. Uma das entrevistadas explica, nas páginas da obra, que "A precificação do título hoje é guiada pelo valor do ativo ambiental. Então o preço da tonelada de carbono no mercado voluntário".
Com o fator social, a história é outra. A obra reconhece sua relevância para a sustentabilidade do agronegócio, mas aponta que ainda faltam critérios, métricas e padrões mercadológicos objetivos para precificá-lo. A conclusão do focus group, reproduzida no livro, é direta:
"O social, não. Ele não, ele não tem esse valor, esse preço ainda."
Longe de enfraquecer a proposta, esse diagnóstico honesto é um dos pontos mais úteis da leitura. Ele indica onde o mercado já está maduro e onde ainda há trabalho a ser feito, oferecendo a pesquisadores, certificadoras e gestores uma agenda clara para os próximos anos.
CPR-Verde: uma ferramenta poderosa, desde que bem amarrada
No centro da engrenagem proposta está a CPR-Verde, título que, segundo a obra, pode materializar e monetizar ativos agroambientais. O livro, no entanto, não a apresenta como solução mágica. A emissão só se sustenta, argumenta o autor, quando há conformidade legal, certificação independente, monitoramento contínuo e destinação comprovada dos recursos. São exatamente essas exigências que reconectam o instrumento ao modelo GES: é a governança que torna possível cumprir cada uma delas.
As considerações finais retomam o percurso e afirmam o ineditismo do estudo, discutem suas implicações e registram a confirmação das hipóteses sobre a certificação e a monetização do ESG no agronegócio.
Do estudante ao CEO, um mapa para os próximos anos do agro
Por reunir teoria, dados de pesquisa e uma proposta de modelo de negócios, o livro dialoga com um público amplo. Entre os leitores que mais têm a ganhar com ele estão:
• Produtores rurais e cooperativas, que encontram critérios para entender como suas práticas de preservação podem se converter em receita;
• Empresas e gestores do agronegócio, inclusive conselheiros e executivos, interessados em respaldar decisões de sustentabilidade com fundamento técnico;
• Agentes do mercado de capitais, investidores e certificadoras, que lidam diretamente com a emissão, a avaliação e a credibilidade dos títulos verdes;
• Pesquisadores, educadores e estudantes, que ganham uma pesquisa qualitativa bem documentada e um modelo teórico a ser testado e aprofundado;
• Profissionais de sustentabilidade e agentes públicos, envolvidos na construção de políticas e padrões para o setor.
Como sintetiza a própria apresentação da obra, qualquer pessoa interessada em ESG ou envolvida com agronegócio, do estudante ao empreendedor e ao CEO, encontra ali referências para orientar a gestão sustentável no campo em um cenário de demanda internacional crescente por produtos alinhados às melhores práticas.
Com este lançamento, André Ricardo Passos De Souza (que compartilha parte de sua trajetória no Instagram, em @aricardopassos) oferece ao debate brasileiro uma contribuição que vai além do diagnóstico: um modelo que coloca a governança no alicerce e mostra, com base em pesquisa, como a preservação ambiental pode deixar de ser apenas um compromisso para se tornar também um ativo. Para quem acompanha os rumos do agronegócio e das finanças sustentáveis, é uma leitura que chega no momento certo.