Grupo da OCB atualiza conhecimentos no Brasil Central

Agronegócio

Grupo da OCB atualiza conhecimentos no Brasil Central

A visita integrou a programação do módulo especial de atualização agronômica de técnicos de cooperativas agropecuárias.
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Coordenadores técnicos de 11 cooperativas agrícolas das regiões Sul e Sudeste estiveram no Distrito Federal nos dias 9 e 10 de agosto em visita à Embrapa Cerrados (Planaltina, DF), onde conheceram os trabalhos de pesquisa sobre trigo tropical e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. A visita integrou a programação do módulo especial de atualização agronômica de técnicos de cooperativas agropecuárias, promovido no âmbito do convênio entre a Embrapa, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) para capacitação na cadeia produtiva de cereais de inverno.

Iniciada em 2015, a parceria visa implantar ações conjuntas para a formação em inovações tecnológicas de multiplicadores vinculados às cooperativas do ramo agropecuário. Pela Embrapa, a parceria é coordenada pelo Departamento de Transferência de Tecnologia (DTT) e pela Embrapa Trigo (Passo Fundo, RS), unidades responsáveis pelo conteúdo técnico, que conta com o envolvimento de universidades, institutos de pesquisa, extensão rural e produtores.

No ano passado, os participantes – 22 engenheiros agrônomos representantes dos departamentos técnicos das principais cooperativas de grãos do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais – estiveram reunidos mensalmente na Embrapa Trigo para atividades teóricas e práticas em 140 horas de capacitações em cereais de inverno. Foram sete módulos temáticos de três dias, com exposições práticas e teóricas que promovem a interação entre os participantes e aproximam técnicos e pesquisadores.

"A troca de experiência entre os participantes foi um resultado a mais do curso, com a discussão de ideias, problemas e soluções para realidades, muitas vezes, bem distintas. O grupo continua interagindo e ainda demanda respostas e informações da Embrapa. Por isso a iniciativa de promover este reencontro, atendendo a pedido do próprio grupo com relação à produção de trigo e sistemas integrados no Cerrado", conta o analista da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski.

Juntas, as entidades representadas na capacitação concentram 126 mil associados, 13 milhões de hectares cultivados no País, 10% da estrutura de armazenagem nacional e faturamento de R$ 27,7 bilhões em 2015. Na abertura da visita técnica à Embrapa Cerrados, o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Unidade, Sebastião Pedro, ressaltou a importância da participação das cooperativas não apenas na produção agrícola nacional e na capacidade de armazenagem, como também no papel de transferidoras de tecnologias. Ele também destacou a parceria da Unidade com o centro de pesquisa de Passo Fundo. "A Embrapa Trigo é uma grande parceira, nossas ações são complementares e frutíferas", disse.

Fernando do Amaral, chefe do DTT, lembrou que a sociedade está exigindo cada vez mais que os alimentos sejam produzidos com sustentabilidade e destacou o papel das cooperativas nessa missão, contando com a Embrapa, na ponta da cadeia, na oferta de tecnologias. "Esta capacitação, que foge do formato de sala de aula, é um momento de interação que estimula a pesquisa a buscar soluções", afirmou.

Trigo

O pesquisador Júlio Albrecht, da Embrapa Cerrados, apresentou as pesquisas da Embrapa sobre trigo no Bioma Cerrado. O Brasil produziu 5,5 milhões de toneladas na safra 2015/16, cerca de metade do que consome anualmente, sendo o restante importado principalmente da Argentina.

Em função das condições edafoclimáticas, marcadas por períodos de chuva e de seca bem definidos, o Cerrado tem grande potencial para o trigo irrigado e sequeiro. Em longo prazo, os pesquisadores estimam que a região possa produzir 4,5 milhões de toneladas anuais. "Acreditamos que o Cerrado será a terceira região produtora brasileira. Como a produção se dá durante a entressafra das outras regiões, temos o primeiro trigo colhido, e em período de seca. Isso é uma vantagem fantástica", disse Albrecht. Outra virtude é a maior proximidade dos maiores centros consumidores, localizados no Sudeste.

O pesquisador também apontou a qualidade do trigo tropical, que conta com elevado padrão de genética e é indicado para a indústria de panificação. "Temos aqui um dos melhores trigos do mundo. Alguns produtores já alcançaram produtividades superiores a 7 toneladas/ha no sistema irrigado e a 4 toneladas/ha no sequeiro", disse. Ele acrescentou que o trigo tem ainda importante papel nos sistemas agrícolas da região, atuando como supressor de doenças do solo, de nematoides e de plantas daninhas que comprometem outras culturas, como a do feijão irrigado.

Albrecht falou sobre as cultivares lançadas pela Embrapa para o Cerrado – BRS 264 (trigo irrigado e sequeiro), BRS 254 e BRS 394 (irrigado), BRS 404 e BR 18 (sequeiro) – e o ganho tecnológico proporcionado ao setor produtivo da região. "A partir da seleção de materiais com grande capacidade de adaptação, conseguimos obter altas produtividades, elevada força de glúten e estabilidade", afirmou.

O chefe-geral da Embrapa Trigo, Sérgio Dotto, comentou sobre a atuação das equipes de melhoramento genético de trigo sequeiro e irrigado da Embrapa, respectivamente em Uberaba (MG) e Planaltina. "O trabalho com trigo irrigado que iniciamos em 1982 no Cerrado continua sendo estimulado e hoje dá frutos, pois é uma alternativa rentável", disse, citando as cultivares lançadas pela Embrapa, que têm sido as mais cultivadas no Brasil Central, a exemplo da BRS 264. "Empresas estão instalando moinhos porque estão vendo o potencial do trigo no Cerrado", completou.

ILPF

Ao falar sobre os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o pesquisador Lourival Vilela, da Embrapa Cerrados, destacou o conceito de intensificação sustentável, que consiste em aumentar a produção nas áreas agrícolas existentes de modo a proporcionar menor pressão ao meio ambiente sem eliminar a capacidade de continuar produzindo alimentos no futuro. Ele mostrou o caso da Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), uma propriedade de pecuária de baixa produtividade que adotou o sistema ILPF em 2006 e hoje diversifica a produção em carne, grãos e madeira, com crescentes produtividades.

"Somos pressionados pela sociedade a reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o desmatamento, a manter a biodiversidade e a fazer uso eficiente de solo e água. Por outro lado, essa mesma sociedade nos demanda cada vez mais alimentos, madeira e bioenergia, além de mudanças no padrão de consumo", observou Vilela. Ao integrar atividades agrícolas, pecuárias e florestais numa mesma área, buscando efeitos sinérgicos, a ILPF surge como estratégia de produção que pode contribuir para o aumento da eficiência dos sistemas, intensificando o uso da terra ao longo do ano.

O pesquisador citou os benefícios potenciais da ILPF tanto para agricultores como para pecuaristas. Além de promover a intensificação e a utilização racional dos fatores de produção, o sistema promove a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, a redução de pragas e doenças, a mitigação de GEE, o aumento da produção de grãos e forragem, o fornecimento de cobertura de solo para o plantio direto, além de reduzir os riscos econômicos devido à diversificação de atividades na propriedade.

Vilela apresentou diversos estudos realizados na Embrapa Cerrados e em fazendas apontando o balanço de carbono mais positivo dos sistemas de integração quando comparados a cultivos e pastagens solteiros, bem como a evolução da produtividade em lavouras de grãos consorciadas com forragem e do desempenho animal em pastagens formadas e recuperadas nesses sistemas. Outros estudos mostram como os sistemas de integração contribuem para a conservação da água e do solo.

Além de apresentar diferentes modalidades de ILP e ILPF, o pesquisador destacou o uso dos sistemas de integração para recuperar pastos degradados. Ele calcula, a partir de dados do IBGE, que 70,6% das áreas de pastagens brasileiras e 82,6% dos pastos do Cerrado apresentam taxa de lotação de no máximo 1,25 cabeça/ha ou 0,88 UA (unidade animal, equivalente a 450 kg de peso vivo). Segundo Vilela, se os programas de recuperação de pastagens proporcionassem uma taxa de lotação média de 1,25 cabeça/ha para toda a área com pastagens no País, poderiam ser liberados mais de 36 milhões de hectares para outras atividades, evitando desmatamentos. "Temos um potencial muito grande para expandir a produção sem abrir novas áreas", disse.

Na vitrine de ILPF da Unidade, a pesquisadora Karina Pulrolnik apresentou a experiência do centro de pesquisa com o sistema, destacando a implantação e o manejo do componente arbóreo. Na área de 21 hectares, foram plantadas duas espécies de eucalipto em diferentes números de linhas e espaçamentos entre renques de árvores, com cinco tratamentos diferentes. Diversos estudos são realizados, como as interações entre água, luz e nutrientes nos entre renques, o rendimento dos grãos na fase silviagrícola e o desempenho animal na fase silvipastoril, bem como o potencial de neutralização de emissões de GEE.

Setor produtivo

Os participantes da capacitação também visitaram a OCB e propriedades rurais da região. Na sede da entidade, foram recebidos pelo presidente Márcio Lopes de Freitas, que ressaltou a importância da parceria com a Embrapa para a sustentabilidade da agricultura brasileira. O gerente técnico Paulo César do Nascimento Junior apresentou o contexto em que foi iniciada a parceria e destacou os resultados do trabalho de aproximação e troca com diversas instituições de pesquisa que participaram dos módulos na capacitação.

Os técnicos das cooperativas puderam interagir com o setor produtivo da região do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF). Acompanhados pelos pesquisadores Júlio Albrecht e Jorge Chagas (Embrapa Trigo), eles visitaram a Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal COOPA-DF e a Fazenda Pamplona, em Cristalina (GO), onde conversaram respectivamente com o responsável técnico da cooperativa, Cláudio Malinski, e com Marcelo Peeglow, engenheiro agrônomo da SLC Agrícola, empresa proprietária da fazenda.

A segunda edição da capacitação em cereais de inverno já está em andamento, com o quarto módulo marcado para 17 a 19 de agosto, com o tema "Implantação e manejo de cultivos anuais produtores de grãos". Participam 32 profissionais de 20 cooperativas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

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