Indústrias do RS compram carne do Norte do país

Agronegócio

Indústrias do RS compram carne do Norte do país

Por falta de bovinos, o churrasco gaúcho mudou de gosto: as indústrias locais estão comprando carne do Norte, onde se produz zebuínos
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Por falta de bovinos, o churrasco gaúcho mudou de gosto: as indústrias locais estão comprando carne do Norte, onde se produz zebuínos - no Rio Grande do Sul são raças européias. Desde abril, o equivalente a 15% do abate foi originado em outras regiões. A expectativa dos frigoríficos é de que a situação perdure até o meio do ano que vem. Alguns analistas, no entanto, acreditam que o problema seja estrutural e, portanto, o estado que já foi auto-suficiente ficará dependente dos outros.

Além de se adaptar a um sabor diferente, o gaúcho também está pagando mais caro pela carne. Em média, o produto mais consumido - costela - valorizou-se 25% no varejo este ano. O preço do boi gordo no Rio Grande do Sul é o mais alto do País há 11 meses: atualmente está cotado entre R$ 66 e R$ 67,50 a arroba - enquanto a média nacional R$ 57,82 a arroba.

"Mas já esteve mais caro", diz Fabiano Tito Rosa, analista da Scot Consultoria. Em julho, chegou a R$ 70 a arroba. A diminuição no preço e a queda na ociosidade das indústrias é apontada por Zilmar Moussalle, diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Carnes do RS (Sicadergs) como uma demonstração de que a "crise está acabando". No meio do ano, 70% da capacidade industrial não era utilizada - agora são 40%. Com isso, quase 30% da mão-de-obra do setor foi dispensada.

A compra de carne de outros estados é feita, basicamente, para abastecer o mercado interno. Mas por uma questão sanitária - só podem ser adquirida de lugares em que o status seja igual - o Rio Grande do Sul só consegue trazer carne de Rondônia, Sul do Pará e Acre. A expectativa da indústria é que a partir de novembro o governo reveja os status dos estados que tiveram a classificação suspensa devido à febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná, em 2005.

O produto chega ao Rio Grande do Sul com pouco tempo de validade - por isso a necessidade da abertura de outros fornecedores. Mas, apesar do frete, é mais barato que o gaúcho. Um quilo de carcaça bovina de Rondônia custa R$ 3,80, enquanto o equivalente do Rio Grande do Sul sai por R$ 4,80. "Os clientes reclamaram, mas com a diferença de preço tiveram de se adaptar à carne do Norte, que é mais barata", afirma Mousalle.

Enquanto o churrasco gaúcho muda de sabor, o mercado externo recebe o pouco da carne que o estado dispõe. "Para as exportações temos de mandar carne de boi local, pois ele precisa ser rastreado", diz o diretor-executivo do Sicadergs.

A maior parte do rebanho brasileiro é de gado nelore. No entanto, no Sul, por questões climáticas, o rebanho é de raças européias, conferindo qualidades próprias à carne. "A diferença de sabor é grande", diz o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP). Segundo ele, o produto é mais macio - devido ao chamado marmoreio (gordura entre as fibras), mas, porém, é mais difícil de ser digerido.

Zem acredita que a falta de gado no Rio Grande do Sul vai persistir. "O estado está se tornando deficitário e outras atividades ocupam as pastagens", afirma. Segundo ele, durante muito tempo o Rio Grande do Sul ficou desconectado do restante do País - devido à ocorrência, primeiro, de febre aftosa, em 2000 e 2001 - e, além disso, a pecuária local não se modernizou.

O preço mais alto do boi, no entanto, não confere ao gaúcho uma rentabilidade maior em relação a outros estados. Assim como o boi gordo se valorizou, o bezerro também. Deste modo, com um animal para abate pode-se adquirir 2,17 bovinos para engorda. Em São Paulo, a relação de troca é de 2,18 e em Rondônia, 2,44.


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