Agronegócio

Investidores invadem o Brasil em busca de álcool

O etanol deixou de ser um produto tupiniquim para virar a vedete dos combustíveis
Por: -Ligia Guimarães
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Junte a alta nos preços do petróleo no mercado internacional, a adoção de políticas públicas por países desenvolvidos para incentivar o uso de combustíveis alternativos e menos poluentes e uma vocação natural para plantar cana-de-açúcar e construir usinas: está explicado o sucesso do álcool brasileiro. Ao lado dos Estados Unidos, o Brasil ocupa a posição de líder no setor sucroalcooleiro mundial e vem atraindo uma onda de investidores estrangeiros para o país. O etanol, quem diria, deixou de ser um produto tupiniquim para virar a vedete dos combustíveis em todo o mundo.

Por que tanto interesse no álcool brasileiro? No ano passado, o mercado brasileiro de etanol movimentou US$ 6 bilhões. Em 2010, deve chegar a US$ 15 bilhões. Além disso, a usina brasileira é a única do mundo que tira do mesmo pé de cana álcool, açúcar e eletricidade.

Até o site norte-americano Google veio dar uma olhada. Em janeiro, seus donos estiveram no Brasil para visitar usinas do grupo Cosan. "Temos muito interesse no uso de energia limpa e quisemos ver as iniciativas da empresa neste sentido", disse na ocasião o empresário Larry Page, referindo-se à área do Google voltada para assuntos ambientais.

Em 2006, o mercado estima que o setor de etanol deve receber investimentos de US$ 9,6 bilhões, entre construções de novas usinas, aquisições e expansões. Neste ano, quatro compras de usinas por estrangeiros foram fechadas. O investidor húngaro George Soros (por meio da empresa Adeco) fechou em fevereiro a compra da usina Monte Alegre, em Minas Gerais. Em junho, a norte-americana Cargill, a maior produtora de alimentos do mundo, comprou uma usina de álcool no interior de São Paulo.

A Infinity Bio-Energy, multinacional com ações negociadas na bolsa de Londres, que já operava usinas de álcool e açúcar, no valor de US$ 200 milhões, anunciou em outubro a aplicação de US$ 500 milhões em mais cinco usinas (três novas e duas aquisições), até o fim de 2007.

Outro negócio fechado foi o do grupo inglês Evergreen, que adquiriu o controle acionário da Cristal Destilaria Autônoma de Álcool (Cridasa, localizada em Pedro Canário, no Norte do Estado). O grupo é o acionista majoritário da Alcana, indústria de álcool, que opera em Nanuque, no Noroeste de Minas Gerais.

- Em tempo: o mega-empresário Bill Gates também aderiu ao negócio do álcool, mas lá nos Estados Unidos. Em abril, a Cascade, empresa privada do dono da Microsoft, comprou 25,5% de participação em uma empresa que produz e distribui etanol (álcool combustível) de milho em estados do Oeste americano, a Pacific Ethanol.

A entrada estrangeira no mercado brasileiro de álcool teve início em 2000, quando o grupo norte-americano Louis Dreyfus adquiriu três usinas no Brasil. Juntas, elas produzem oito milhões de toneladas por ano. No ano seguinte, a casa de comércio francesa Tereos (ex-Béghin-Say) entrou como sócia de 6% das ações da Cosan. Além disso, possui três usinas.

De acordo com dados da Unica, a associação dos produtores do setor, as companhias estrangeiras detêm hoje cerca de 5% da produção de cana do país, ou seja, quase 20 milhões de toneladas – percentual pequeno quando comparado a um total estimado em 420 milhões produzidos no Brasil. Ou seja, ainda há espaço para muitas aquisições.

Para o presidente da Unica, Eduardo Pereira de Carvalho, nos próximos anos o processo de aquisições de usinas vai continuar, como parte do processo de concentração e consolidação do mercado. Embora acredite em futuras entradas de dinheiro estrangeiro no mercado de álcool do Brasil, Carvalho não prevê grandes mudanças na relação entre o que é produzido por capital nacional e o que é feito com recursos estrangeiros, no curto prazo.

Negócio familiar

Segundo o sócio-diretor da consultoria Brasilpar, especializada em fusões e aquisições no setor, Luiz Eduardo Costa, é grande a movimentação de companhias estrangeiras para comprar ou construir usinas no Brasil - embora poucos negócios tenham sido fechados.

Costa afirma que dois grandes grupos indianos de faturamento acima de US$ 1 bilhão anuais anunciaram interesse em adquirir usinas e circulam pelo mercado brasileiro há mais de um ano.

Outro forte interessado é o grupo alemão NordZucker SudZucker, que já atua no setor de açúcar e quer expandir a variedade da produção. Ainda no setor de açúcar, o australiano CSR - forte produtor no mercado australiano de açúcar refinado - está estudando oportunidades.

""É fato de que hoje temos todo o mercado asiático, europeu e sul-americano olhando pra esse setor, pensando em entrar nele ou aumentar investimentos. Eles estão analisando, participando, fazendo ofertas”, diz o analista e sócio da consultoria KPMG, André Castello Branco.

Segundo ele, o alvo dos potenciais compradores estrangeiros são usinas que produzam mais de um milhão de toneladas de cana por ano. ""Antigamente a procura era maior por usinas no Centro-Sul. Agora a demanda está tão grande que pode ser no Centro-Oeste, no Norte, até no Nordeste"".

Se há tanto interesse, por que não compram? ""Existe mais interesse do que capacidade de realizar"", diz Costa, da Brasilpar. Segundo ele, o principal fator que atrasa a concretização dos negócios é a complicada estrutura acionária das empresas brasileiras - que na maioria são familiares.

O analista da KPMG concorda. ""Isso dificulta as operações de aquisições. Geralmente antes de vender, é preciso resolver questões de divisão societária entre os membros da família e as negociações ficam mais longas"".

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