Lodo da cidade, adubo no campo

Agronegócio

Lodo da cidade, adubo no campo

Programa testado em Curitiba vai distribuir resíduo de esgoto urbano gratuitamente para produtores rurais em todo o estado
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O lodo do esgoto urbano virou fertilizante nobre para a agricultura no Paraná. Com base em pesquisas desenvolvidas desde os anos 80, a Sanepar colocou o programa em prática no início desta década nas regiões de Curitiba e Foz do Iguaçu. Agora, conseguiu licenças ambientais para mais sete Unidades de Gerenciamento de Lodo (UGLs), que vão funcionar em Arapongas, Londrina, Maringá, Pato Branco, Ponta Grossa, Santo Antônio da Platina e Umuarama. A previsão é que haja disputa pelo material, que chega gratuitamente aos agricultores (por enquanto).

O produtor rural deixa de gastar R$ 600 por hectare em fertilizantes, conforme cálculos dos técnicos da Sanepar. O valor refere-se ao preço do adubo industrial necessário para a produção de grãos numa área com pouco material orgânico. Mas as vantagens vão além disso, uma vez que os produtores beneficiados recebem também serviços agronômicos. Os técnicos da Sanepar fazem análise de solo, calculam a dose de adubo necessária a cada área e orientam a aplicação. Em alguns casos, até distribuem o lodo na lavoura.

O volume de lodo já distribuído desde o início do programa chegou a 106 mil toneladas – 98% na região de Curitiba e 2% em Foz. Esse material é suficiente para adubar 3,5 mil hectares, com 30 t/ha. O produto é destinado para áreas de soja, milho e feijão. Londrina já começou a distribuir lodo, para produtores de trigo. Com os sete novos licenciamentos, a previsão é que em 2009 sejam distribuídas mais de 50 mil toneladas de lodo – perto de 20% a partir das UGLs do interior do estado.

Com a ampliação, o projeto passa a abranger todo o estado. As unidades licenciadas deverão funcionar como centrais, recebendo material de estações de tratamento de esgoto de cidades vizinhas. A disponibilidade do fertilizante urbano para a agricultura tende a aumentar. Existem 31 UGLs em processo de licenciamento junto ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP). E a Sanepar deve protocolar outros 30 pedidos nos próximos meses, conta a agrônoma da empresa Simone Bittencourt.

Produtores que nunca fizeram análise de solo ganham produtividade rapidamente, relata a especialista. A aplicação na dose certa, considera, melhora o rendimento inclusive de áreas que já vinham recebendo adubo industrial.

O produtor Edson Baggio, da Lapa, é um dos 120 beneficiados na distribuição de lodo. Em seu caso, o programa foi a saída para reduzir custos no cultivo de 440 hectares de soja e milho. Se dependesse só de adubo industrial, estaria sujeito aos preços do mercado, “nas mãos das multinacionais”, afirma.

Ele usa lodo há três anos e relata que sua produtividade supera a de “vizinhos de cerca”. “A diferença é de 90 para 136 sacas de soja e de 270 para 380 sacas de milho por hectare”, compara. Esse rendimento foi aferido na última safra de verão, quando a falta de chuva afetou toda a região. “Em época de seca, o adubo é decisivo.”

No próximo ciclo, Baggio pretende chegar a 160 sacas de soja e a 500 de milho por hectare. Esses são seus recordes, obtidos em anos de clima bom e alto investimento em fertilizantes industriais. Em sua avaliação, os dias de lodo gratuito estão contados. “Se tiver de pagar, vou pagar.”

Neste ano, dos 120 produtores cadastrados pela Sanepar, cerca de 50 devem ser atendidos com lodo. A prioridade do programa é a agricultura familiar, mas como nem sempre é possível chegar a propriedades pequenas em tempo de chuva, a empresa mantém cadastro de áreas maiores e mais acessíveis, para desovar o lodo em caso de acúmulo.

Os interessados em se cadastrar devem procurar a unidade regional da Sanepar mais próxima. Na escolha dos candidatos, a empresa dá preferência para quem produz grãos. Verduras e frutas não recebem lodo. O argumento é que o consumidor final tem contato direto com esses alimentos e que há mais segurança no uso do fertilizante em produtos que serão processados ou cozidos. Quem está em regiões de abastecimento público de água também fica de fora. A Sanepar argumenta privilegiar regiões ambientalmente corretas e distantes de mananciais.


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