Manejo preventivo é a melhor solução contra a ferrugem asiática
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Agronegócio

Manejo preventivo é a melhor solução contra a ferrugem asiática

Focos diminuem, mas produtores devem estar atentos a doença
Por: -Janice
Focos diminuem, mas produtores devem estar atentos a doença

Enquanto os agricultores do Sul do Brasil avaliam o impacto da estiagem nas lavouras de verão, os agricultores matogrossenses e do Brasil Central redobram o monitoramento contra ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi). De acordo com dados do Consórcio Antiferrugem, do início do plantio, em setembro, até essa sexta-feira (13-01), foram registrados 59 casos no Brasil, contra 121 ocorrências na mesma época do ciclo anterior. O Mato Grosso lidera a lista com 33 focos, seguido do Paraná, com 11 e Goiás com 8. O Rio Grande do Sul apresentou apenas um caso, já que a seca prolongada dificulta o aparecimento da doença.

 

Encontrada no final da safra de 2000/2001, no estado do Paraná, a ferrugem asiática vem aumentando sua área de ocorrência a cada ano, disseminando-se rapidamente para outros Estados do Brasil. Na safra 2002, a doença foi relatada em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, e na safra 2003/04 ocorreu de forma generalizada, em quase todo o País, causando prejuízos consideráveis em várias regiões produtoras.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com exceção de Roraima, todos os Estados que possuem cultivo de soja já foram atingidos pela doença, envolvendo uma área de 22 milhões de hectares. No sul do Brasil, epidemias severas têm sido esporádicas, porém vem sendo detectada cada vez mais cedo durante a safra. “É atualmente um dos maiores problemas da cultura na região dos Cerrados Brasileiros, especialmente em Mato Grosso, onde têm sido necessárias excessivas pulverizações de fungicidas para controlar a doença”, ressalta o Dr. em Fitotecnia, José Luis da Silva Nunes.

Conforme Nunes, o vento é a principal forma de disseminação desse patógeno, que só sobrevive e se multiplica em plantas vivas, para lavouras próximas ou a longas distâncias. Outro fator que agrava ainda mais o seu estabelecimento no Brasil é a existência de outras plantas hospedeiras, constituídas por 95 espécies de 42 gêneros de Fabaceae (leguminosas).

O alastramento da doença dentro da lavoura pode chegar a 3,0 metros por dia. O clima é considerado o fator chave na epidemiologia da ferrugem asiática da soja. Variáveis ambientais são influenciadas pelo macro, meso ou microclima, as quais afetam diferentes processos do ciclo da doença e também influenciam na taxa de progresso e a severidade das epidemias. No campo, a chuva é o fator chave que influencia na severidade da doença em escala regional, aparecendo mais tarde e sua dispersão é mais lenta sob condições de seca por período prolongado.

O processo infeccioso se inicia quando os inóculos (uredósporos) germinam, produzindo um tubo germinativo que cresce através da superfície da folha até que se forme um apressório. A penetração ocorre diretamente através da epiderme, ao contrário das outras ferrugens que penetram através dos estômatos. Urédias podem se desenvolver de 5 a 10 dias após a infecção e os esporos do fungo podem ser produzidos por até três semanas. A temperatura para a germinação dos uredósporos pode variar entre 8ºC a 30ºC e a temperatura ótima é próxima de 20ºC, porém, sob alta umidade relativa do ar, a temperatura ideal para a infecção situa-se ao redor de 18ºC a 21ºC.

“Nesta faixa de temperatura, a infecção ocorre em 6h30min após a penetração, mas são necessárias 16 horas de umidade relativa elevada para que a infecção se realize plenamente. Por isso, temperaturas noturnas amenas e presença de água na superfície das folhas, tanto na forma de orvalho como precipitações bem distribuídas ao longo da safra favorecem o desenvolvimento da doença”, observa o especialista.

Por serem sensíveis à radiação ultravioleta, provavelmente estas viagens ocorrem em sistemas de tempestade aonde as nuvens protegem os esporos do sol. “O
sucesso da infecção é dependente da disponibilidade de molhamento na superfície da folha. Pelo menos seis horas de água livre parece ser necessária para promover a infecção. Chuvas abundantes e frequentes durante o desenvolvimento da doença têm sido associadas com epidemias mais severas. Após a infecção, as primeiras pústulas com uredinósporos maduros surgem em sete a oito dias e este curto ciclo de vida da doença significa que, sob condições favoráveis, epidemias de ferrugem asiática podem progredir de baixos níveis de detecção para desfolhações dentro de um mês” explica Nunes.

Com o surgimento da ferrugem asiática no Brasil, em 2001 o uso de fungicidas foi intensificado e novas moléculas foram registradas para o controle de doenças na cultura. Porém, o uso intensivo destes fungicidas promoveu a seleção de populações resistentes ou tolerantes, através do surgimento de raças resistentes. O Dr. em Fitotecnia, José Luis da Silva Nunes, lembra que deve ser observado não somente o fungicida correto, mas a escolha adequada do manejo, visando evitar o surgimento de resistência. “Isto não se aplica somente aos fungicidas, mas também as cultivares de soja com resistência a doença, pois o fungo sempre mostrou que tem uma capacidade muito grande de adaptar-se a novas condições”, adverte.

Nunes diz que hoje existem três táticas básicas de manejo que podem ser aplicadas (e associadas) a fim de se controlar epidemias de ferrugem da soja:

a) uso de fungicidas;

b) uso de plantas com resistência genética;

c) práticas culturais.

“Atualmente, a pratica mais utilizada e que surtiu melhores resultados foi o uso de fungicidas. Porém, a associação da resistência vegetal ao patógeno com os fungicidas e praticas culturais, será a melhor estratégia de longo prazo para controle da doença” recomenda o fitotecnista.

Segundo Nunes, atualmente várias táticas de controle da ferrugem asiática da soja estão disponíveis, sendo que a maioria envolve o uso de fungicidas e a resistência da planta hospedeira. Os fungicidas dos grupos dos triazóis e estrobilurinas têm-se mostrado mais eficientes para o controle da doença, com diferença na eficiência entre princípios ativos dentro de cada grupo.

“A presença de plantas voluntárias ainda presentes no início da safra favorecem a manutenção do inóculo (esporos) no campo, e as mesmas devem ser dessecadas”, frisa. No Paraguai, além da soja, a leguminosa kudzu (Pueraria lobata) é uma importante fonte de inóculo, por ser uma planta perene amplamente estabelecida e altamente suscetível à ferrugem.

Ele esclarece que a evolução da doença e a severidade final nas cultivares varia em função da época de semeadura. “Quando a semeadura é realizada em novembro, a infecção tende a iniciar no estádio da formação da semente (R5), ocorrendo maior severidade no final do ciclo das cultivares. Com semeadura em dezembro, a doença inicia no estádio de início da formação da vagem (R3) e a severidade foi maior na formação da semente (R5)”.

Conforme Nunes, a quantificação de danos é o ponto chave na definição de qualquer estratégia de controle. Estudos nesse sentido estão sendo desenvolvidos na safra e entressafra, associados com o monitoramento de uredósporos da ferrugem no ar. A proposta é a de quantificar os danos causados pela doença e estudar a influência da densidade de esporos no ar, sua relação com as variáveis climáticas, incidência e severidade da ferrugem asiática da soja em uma região onde a doença ocorre de forma epidêmica.

                                 Lavoura experimental infectada

Considerando a gravidade da doença, diversos estados adotaram o “vazio sanitário”, período de ausência de plantas de soja vivas no campo. Essa é uma estratégia adicional no manejo, objetivando reduzir a quantidade de uredosporos no ambiente na entressafra e, dessa forma, inibir o ataque precoce da soja, pela presença de inóculo inicial menor. Esse período, que varia de 60 a 90 dias, foi estabelecido considerando que o período máximo de viabilidade de uredósporos de P. pachyrhizi registrado na literatura é de 55 dias. Em 2006, essa medida foi instituída nos estados de Mato Grosso, de Goiás e do Tocantins.

Em 2007, foi publicada pelo MAPA, a Instrução Normativa Número 2, de 29 de janeiro de 2007, instituindo o Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja (PNCFS), no qual, entre outras diretrizes, ficou estabelecido que os Estados deveriam criar seus Comitês Estaduais de Controle da Ferrugem Asiática da Soja e que as instâncias intermediárias do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (SUASA) em cada Estado, deveriam estabelecer um calendário de semeadura de soja, com um período de, pelo menos 60 dias sem a presença de plantas cultivadas ou voluntárias.

Outra medida de manejo que pode ser adotada é o escalonamento de semeadura, em relação ao ciclo da cultura. As plantas precoces passam menos tempo no campo, são colhidas mais cedo e, desse modo, podem “escapar” da doença ou serem menos atingidas. Como na maioria das regiões não se tem soja no inverno, nas primeiras semeaduras o fungo iniciaria sua multiplicação, e a tendência é que o inóculo aumente com o evoluir da safra. Desse modo, as semeaduras mais cedo também apresentam um mecanismo de escape quanto à concentração de inóculo.

Algumas outras medidas que podem resultar na melhoria da eficiência do controle são:

a) utilizar cultivares mais precoces semeadas no início da época recomendada para cada região, e assim, evitar o prolongamento do período de semeadura para escapar da maior concentração do inóculo;

b) monitoramento das lavouras;

c) observar as condições de temperatura (15ºC a 28ºC) e período de molhamento acima de 6 horas que são favoráveis à infecção.

De acordo com Nunes, quando a doença já está ocorrendo, o controle químico preventivo com fungicida é, até o momento, a principal medida de controle. A decisão sobre o momento de aplicação (no aparecimento dos sintomas iniciais ou preventiva) deve ser técnica, levando em conta os fatores necessários para o aparecimento da ferrugem (presença do fungo na região, idade das plantas e condição climática favorável), a logística de aplicação (disponibilidade de equipamentos e tamanho da propriedade), a presença de outras doenças e o custo do controle.

“O atraso na aplicação, após constatados os sintomas iniciais, pode acarretar em redução de produtividade, caso as condições climáticas favoreçam o progresso da doença”, ressalta. O número e a necessidade de reaplicações vão ser determinados pelo estádio em que for identificada a doença na lavoura e pelo período residual dos produtos. Variáveis como densidade de plantio, época de plantio, estádio fenológico, espaçamento, variedade, quantidade de inóculo residual, também devem ser considerados no manejo da doença.

Para o fitotecnista, a pesquisa, tanto a nível de instituições públicas quanto privadas, tem desempenhado papel fundamental no controle e na prevenção da doença. “A atuação do Consórcio Antiferrugem é relevante na manutenção dos níveis de controle, principalmente quanto à aplicação do vazio sanitário na região Centro Oeste”, frisa.

Entretanto, Nunes lembra que há falta de critério ou de aceitação das medidas necessárias para o controle da doença por parte dos envolvidos na cadeia produtiva. “O que falta, na verdade é bom senso para visualizar a manutenção das estratégias de controle à longo prazo. Os produtores tem que se conscientizar que aplicações repetidas da mesma molécula, levam a seleção de populações resistentes enquanto que o mercado de Defensivos tem que auxiliar na prevenção do surgimento de resistência (o que hoje é feito pela maioria das indústrias). Na verdade é hora do bom senso!”, afirma.

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* Colaborou Lucas Amaral

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