Mercado de grãos foca na América do Sul

Agronegócio

Mercado de grãos foca na América do Sul

Quanto mais avança a colheita americana, mais o foco do mercado de grãos, sobretudo soja e milho, volta-se para a América do Sul
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Quanto mais avança a colheita americana neste ciclo 2007/08, mais o foco do mercado internacional de grãos, sobretudo soja e milho, volta-se para a América do Sul.

Neste momento, na bolsa de Chicago - a mais importante do mundo para essas commodities -, analistas e traders já prestam mais atenção às projeções de produção do Brasil e da Argentina, e os recordes que se avizinham certamente começarão a pesar mais na formação das cotações do que nos últimos meses, concentrados, do ponto-de-vista dos fundamentos, nos fatores (área plantada, clima, produtividade e colheita) que praticamente já definiram a produção nos EUA na safra.

Mas, para este "segundo tempo" da temporada 2007/08, puxada pelo Hemisfério Sul, alguns fatores que ganharam força no último ano no mercado deverão perdurar. Segundo especialistas, entre eles os mais importantes são a influência da agroenergia, a crescente participação de fundos "exóticos" de investimentos nos mercado agrícolas e a forte "contaminação cruzada" nas curvas das cotações de soja, milho e também do trigo - amplificada pelos movimentos dos "exóticos", que muitas vezes encaram as três commodities como um "pacote".

Renato Sayeg, da Tetras Corretora, não tem dúvidas que é graças às tacadas desses fundos que os preços internacionais de soja, milho e trigo subiram aos níveis em que estão, mas acredita que, agora, os fundos "exóticos" estão de olho nos mesmos fundamentos que costumam nortear quem transaciona apenas commodities agrícolas. "Fatores como petróleo, crescimento econômico asiático e câmbio e juros nos EUA, entre outros que definem os movimentos dos fundos em suas diversas frentes de atuação, já estão precificados nos produtos agrícolas", diz.

Em setembro, segundo cálculos do Valor Data baseados na média mensal dos contratos de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) negociados na bolsa de Chicago, as três commodities voltaram a subir. A soja, que já está acima de US$ 10 por bushel, fechou o mês com preço médio de US$ 9,6092, 12,73% acima da média de agosto e com valorização de 73,05% nos últimos doze meses. O preço médio do milho atingiu US$ 3,6704 por bushel, 5,48% mais que no mês anterior e com alta de 43,42% no último ano-móvel. E o trigo chegou a US$ 8,6963, com vigorosos saltos de 22,65% e 105,11%, respectivamente.

Sayeg lembra que os últimos meses foram de intensa volatilidade para os grãos e acredita que o mercado se tornará mais tranqüilo até o fim do ano. Mas Paulo Molinari, da Safras & Mercado, prevê que a especulação crescerá ainda mais em 2008. Ele considera que um dos saldos desse nervosismo é que o bushel do milho poderá atingir US$ 5 em Chicago.

Como já informou o Valor, Molinari lembra que o avanço do milho sobre a área de soja em 2007/08 nos EUA levou à queda da oferta da oleaginosa, reduzindo estoques. Com essa baixa, para 6 milhões de toneladas, a tendência é que, no ciclo 2008/09, a soja retome área naquele país. Historicamente, sustenta o analista, a soja vale o dobro do milho em Chicago, e quando o milho bateu US$ 4 por bushel, a soja estava na casa dos US$ 8 por bushel. O preço recorde do milho na bolsa dos EUA foi registrado em 1996: US$ 5,42.

O trigo poderá até se "descolar" um pouco de soja e milho até o fim do ano, já que não há produção relevante na América do Sul no verão. Mas a escassez do cereal no mundo - especialmente depois das últimas previsões para a Austrália - tende a manter os preços firmes, de acordo com o analista Élcio Bento, também da Safras & Mercado. Há uma perspectiva de que a safra mundial se recupere em 2008, mas o mercado está atento aos baixos estoques globais, de 110 milhões de toneladas.

Também influenciados pelos movimentos dos fundos e pelo comportamento de outras commodities, mesmo as não-agrícolas - mas sem um peso tão grande da corrida entre petróleo e biocombustíveis -, os agrícolas negociados em Nova York não têm apresentado a mesma linha comum do pacote de Chicago.

Das commodities nova-iorquinas, a que mais sofre a influência dos "primos" de Chicago é o algodão, por dividir áreas de produção sobretudo com soja e por poder ser transformado em alimento. Em setembro, com forte especulação, seu preço médio foi 5,34% superior ao de agosto, e nos últimos doze meses o salto acumulado chega a 21,13%. "Os preços futuros do produto estão firmes para 2008 e 2009", afirmou Miguel Biagai, da Safras&Mercado.

Na comparação entre os preços médios de setembro e agosto, o café foi a commodity que registrou a maior alta (5,41%) em Nova York, em virtude do longo período de estiagem nas principais regiões produtoras de café do país - Minas Gerais e São Paulo. E, segundo Rodrigo Costa, da Fimat Futures, a curva do café para outubro continuará sendo construída pelo clima brasileiro. "Se chover, os preços cairão". Segundo ele, a meteorologia sinaliza chuvas para áreas produtoras, mas irregulares.

Outro que registrou alta de preços foi o cacau, ainda em consequência das incertezas sobre o tamanho das safras africanas. Em relação a agosto, a valorização da cotação média em setembro foi de 2,97%; nos últimos doze meses, a variação positiva chega a 25,97%. Já o suco de laranja oscilou conforme as previsões climáticas para as regiões produtoras da fruta na Flórida e caiu 3,86% sobre agosto. E o açúcar também registrou queda (0,12%), que poderia ter sido maior graças à pressão da oferta por parte da Índia. "O mercado entende que há certa relutância em importar açúcar da Índia por conta da baixa qualidade", diz Rodrigo Costa, da Fimat Futures.


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