Mesmo irrigada, produção de hortaliças registra queda

ESTIAGEM

Mesmo irrigada, produção de hortaliças registra queda

Famílias de feirantes contabilizam perdas no plantio de vegetais folhosos. A partir de fevereiro podem faltar produtos
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A estiagem que se arrasta há mais de um mês na região começa a impactar na produção de alimentos em Santa Cruz do Sul. No segmento de hortaliças e vegetais folhosos, as perdas acumuladas desde o início de dezembro alcançam a marca dos 35%. Nem mesmo a irrigação e os sistemas de produção em estufa têm sido páreo para as temperaturas na casa dos 40 graus registradas nas últimas ondas de calor. 

Conforme o vice-presidente da Associação Santa-cruzense de Feirantes (Assafe), Danilo Hentschke, o calor intenso queima as folhas das plantas, causando perdas sensíveis na produção. “Podemos contabilizar, com segurança, 35% de perda na produção de hortaliças. Esse é um reflexo das altas temperaturas no último mês”, explica. 

O casal Astor e Anita Hermes, de Linha João Alves, confirma a estatística. Na propriedade deles, a perda foi de mil pés de alface que tinham sido plantados e não resistiram ao calor. “A gente não esperava que seria tão seco. Sabia-se que haveria uma estiagem, mas não tínhamos ideia que seriam tantos dias sem chuva.”

A estiagem é uma velha conhecida do produtor. Ele conta que uma grande seca, há 35 anos, fez com que se tornasse conhecido. Em 1985, segundo Hermes, a Gazeta do Sul esteve em sua propriedade registrando o baixo nível dos açudes usados na irrigação da produção de alimentos. De lá para cá, o produtor melhorou o uso da irrigação na propriedade. Mantém açudes para dessedentação dos animais e reservatórios exclusivos para irrigação. Na feira rural do Centro, o casal Hermes comercializa as verduras e se explica aos clientes. “Elas não estão tão bonitas como deveriam, mas foi o que deu para fazer”, diz Anita. 

No Bairro Arroio Grande, a feirante Cleoni Noy, de Linha Santa Cruz, também soma prejuízo sobre o balcão. Na conta dela, a perda na colheita e comercialização de alface ficou acima dos 20%. “Nós só não perdemos mais produtos porque nossa produção é irrigada e realizada em estufa. Se fosse direto no chão, não tinha sobrado nada”, lamenta.

Escassez de hortaliças pela frente
As 80 famílias de produtores que pertencem à associação de feirantes ficaram três semanas sem plantar nada em suas lavouras. O impacto da parada por causa da estiagem deverá ser a escassez de alguns tipos de hortaliças. 

Na propriedade de Márcia Pereira Wlach, o milho verde virou “pipoca” sob o sol dos últimos dias. “Estávamos acostumados a colher 800 espigas para vender no fim de semana. Desta vez encontramos umas 200, o resto está tudo perdido”, aponta. Segundo ela, o cereal entrará em falta, em breve, pois será necessário replantar o milho na safrinha tardia, semeada após a colheita do tabaco. 

O vice-presidente da Assafe, Danilo Hentschke, estima que em 20 dias, além do milho apontado pela produtora da feira rural do Arroio Grande, vegetais e hortaliças folhosas comecem a faltar. “Nós estamos há vários dias sem cultivar verduras por causa do calor e da falta de chuva. Até agora, os preços não foram reajustados, mas isso vai acontecer logo ali na frente”, alerta Hentschke. 

Dias secos causam prejuízo diário de R$ 1 milhão em Candelária

Em Candelária, a situação de emergência foi decretada na última sexta-feira. Conforme o prefeito Paulo Butzge (PSB), o prejuízo já é superior a R$ 61 milhões e os reflexos dessa situação serão sentidos nos próximos meses. “Tudo isso que foi consumido pela seca não volta mais, são perdas consolidadas na nossa produção de milho, soja e tabaco”, revela. 

Segundo Butzge, a situação só não deve ficar pior porque a chuva retornou. “Se não tivesse chovido na região, no fim da semana passada, continuaríamos a somar perdas diárias. Eu estimo que o prejuízo nas lavouras de Candelária crescia R$ 1 milhão por dia”, afirma.

Em Vera Cruz, o prefeito Guido Hoff (PSB) projeta a recuperação do setor produtivo nos próximos dias. A safrinha de milho, plantada após a colheita do tabaco, segundo ele, poderá ter mais chance de crescer agora, com a volta da chuva. “Estamos prevendo um ano com muita dificuldade, mas não podemos temer. Temos que ter fé e esperança em São Pedro, que a chuva há de continuar.” 

Em Vale do Sol, o prejuízo já ultrapassou R$ 47 milhões. De acordo com o prefeito Maiquel Silva (PP), a expectativa é quanto ao clima nos próximos dias. “A volta da chuva, em volumes consideráveis como os que registramos desde a última quinta-feira, ajuda a animar o produtor, que passa a ter condições de replantar parte daquilo que foi perdido”, ressalta.

Chuva deve estancar perdas nas plantações da região

A chuva acumulada desde a última quinta-feira trouxe o alívio do calor e do clima seco, acompanhado da expectativa de redução de perdas nas lavouras daqui para a frente. Municípios em situação de emergência a partir da estiagem que começou entre novembro e dezembro do ano passado acreditam na redução da quebra na produção. Com um olho no céu e outro na terra, prefeitos apostam na regularidade das chuvas para recuperar o que é possível. 

Conforme o coordenador da Defesa Civil de Santa Cruz do Sul, o tenente José Joaquim Dias Barbosa, entre quinta e sexta-feira, choveu 57 milímetros no município. “Especialmente a chuva de sexta foi muito importante, pois ela foi regular em todas as áreas de Santa Cruz. Na quinta-feira, por exemplo, em alguns pontos registramos 27 milímetros, mas em Monte Alverne não caiu uma gota”, aponta. 

De acordo com ele, o total registrado nos primeiros dez dias do ano representa 25% da medição de todo o mês de janeiro de 2019, que foi de 223,8 milímetros para Santa Cruz. “Para esta semana estamos esperando mais dias com chuva, e volumes acumulados semelhantes aos que ocorreram na semana passada”, ressalta Barbosa. 

Segundo o secretário de Agricultura de Santa Cruz do Sul, Delsio Meyer, a chuva do fim da semana passada alcançou todas as localidades do interior, mas não é suficiente para eliminar o problema da seca. “A chuva amenizou a seca nas áreas plantadas. No entanto, o trabalho de aguadas e abastecimento irá continuar. O problema foi amenizado, mas precisamos continuar levando água para o interior”, salienta Meyer. 

O titular da Agricultura explica que a maior dificuldade no interior foi mesmo na área plantada, nas culturas de verão como milho, soja e tabaco. “Não chegamos a registrar a falta de água para o consumo humano. A nossa ação maior ainda é com as lavouras que sofreram muito com o clima seco.” No município, a perda nas plantações é estimada em R$ 62 milhões e fica na casa dos 20%.

Secas ocorrem a cada dois anos

Desde 1979, quando teve início a série histórica de medições, aproximadamente a cada dois anos ocorre um evento de estiagem relevante. Esse dado faz parte de um levantamento feito pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul. 

De acordo com o órgão, a seca mais rigorosa nesse período atingiu o Estado em 2004. Foram registradas 694 ocorrências, gerando mais de uma notificação de estiagem por município naquele ano. A Defesa Civil estadual ressalta que a última estiagem relevante aconteceu no ano de 2018, com 41 municípios afetados.

Mesmo sem sofrer a influencia climática do El Niño e do La Niña, que alteram a quantidade de chuvas nas estações, estima-se que janeiro terá chuvas abaixo da média em todo o território gaúcho. A expectativa é de que chova 120 milímetros no Rio Grande do Sul até o fim do mês.

Conforme os modelos do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cpetc-Inpe), devem ocorrer pancadas de chuva hoje, quarta e quinta-feira no Vale do Rio Pardo. Os maiores volumes devem ocorrer entre quarta e quinta-feira.


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