O mercado de milho começa a semana com valorização superior a 3% na B3, impulsionado pela alta do dólar após as eleições presidenciais, enquanto a oferta confortável e a cautela dos compradores mantêm a pressão sobre as cotações no mercado interno. Segundo dados divulgados pela Grão Direto, na análise Direto do Campo, produzida pela Grainsights nesta segunda-feira (26), o câmbio e o ritmo de compras da indústria nacional devem influenciar os preços do cereal no Brasil nos próximos dias.
O milho continua com preços pressionados no mercado brasileiro, segundo o Cepea, diante da boa disponibilidade do cereal. Os compradores permanecem cautelosos, com estoques suficientes para atender à demanda no curto prazo e atenção voltada ao andamento do plantio. Do lado da oferta, os produtores demonstram maior flexibilidade nas negociações, seja para levantar recursos, seja pelo receio de novas quedas nas cotações. A demanda das usinas de etanol de milho e das fábricas de ração para aves e suínos, por outro lado, segue firme. Conforme a Conab, esse consumo deve continuar crescendo, contribuindo para estabelecer um piso para os preços.
As exportações brasileiras de milho seguem em ritmo mais lento que no mesmo período do ano passado. A perda de competitividade nos portos vinha pressionando as cotações internas, mas a alta do dólar após as eleições tende a melhorar a paridade de exportação. Esse movimento pode dar sustentação aos preços nos portos e aos contratos negociados na B3, que apresentavam tendência de baixa. Na prática, a semana já começa com valorização superior a 3% nos contratos de milho na Bolsa brasileira.
No mercado interno, porém, a reação tende a ser mais gradual, especialmente nas regiões produtoras. A oferta confortável continua limitando o espaço para altas mais expressivas no curto prazo.
Na Bolsa de Chicago, os preços do milho seguem pressionados pelo avanço da colheita norte-americana. Segundo o relatório de andamento da safra do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os trabalhos ainda estão abaixo da média, mas podem ganhar ritmo com a previsão de tempo seco no Meio-Oeste nos próximos dias. A demanda externa pelo cereal norte-americano aparenta permanecer firme, o que ajuda a limitar quedas mais acentuadas. Para o produtor brasileiro, entretanto, a influência de Chicago sobre as cotações nesta semana deve ser menor que a do câmbio e do ritmo de compras da indústria nacional.
Após a conclusão das eleições presidenciais, o mercado financeiro brasileiro registrou forte turbulência. O Ibovespa chegou a cair 10% durante o leilão de abertura, pouco antes das 10h, acionando o circuit breaker, mecanismo que interrompe automaticamente as negociações por 30 minutos diante de uma queda acentuada.
Após a retomada dos negócios, o índice manteve o movimento de baixa e chegou a recuar mais de 16%, para a faixa dos 171 mil pontos. Foi a primeira vez que o mecanismo foi acionado desde março de 2020, durante a pandemia.
Os juros negociados na Bolsa para os próximos anos também dispararam. A taxa para 2031 passou de 12,58% para 14,46% ao ano logo no início do pregão. Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para esta semana.
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (26), com projeções coletadas antes da votação, ainda indicava dólar a R$ 5,05 no fim do ano. A diferença em relação ao cenário posterior às eleições evidencia a dimensão do ajuste nas expectativas do mercado.
A atenção dos investidores deve se voltar aos primeiros sinais sobre as contas públicas e à composição da equipe econômica. No cenário internacional, outro ponto de interesse será a decisão sobre os juros nos Estados Unidos, prevista para quarta-feira (28), com expectativa de manutenção das taxas. No Brasil, o mercado também acompanhará a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 3 e 4 de novembro.
Para o agronegócio, a valorização do dólar tem efeitos distintos. A moeda norte-americana mais cara melhora os preços em reais e a competitividade das exportações de soja e milho, mas também encarece fertilizantes, defensivos agrícolas e operações de crédito vinculadas à moeda. Assim, apesar do possível suporte cambial às cotações do milho, a oferta disponível, a demanda da indústria e os desdobramentos do cenário econômico devem continuar determinando a intensidade e a duração de eventuais altas.