O recuo estratégico da Camera

Agronegócio

O recuo estratégico da Camera

Entrevista com o diretor da empresa Camera, Roberto Kist
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Castigada pelos altos preços da soja a partir da seca de 2011, a empresa repensa sua opção pelo produção de biodiesel, como revela o diretor Roberto Kist em entrevista exclusiva ao Portal Amanhã

Fundada há 40 anos em Santa Rosa (RS), a Camera Agricultura, Alimentos e Energia ingressou no final de 2011 em um ciclo de dificuldades financeiras. O forte investimento feito pela empresa nos dois anos anteriores, realizados para transformar a sua tradicional operação como cerealista em uma indústria produtora de biodiesel, acabou não gerando os resultados esperados. O motivo principal para que a expectativa da direção da companhia não fosse alcançada foi uma estiagem severa, que elevou o preço da soja – matéria-prima para a extração do biodiesel – e afetou seriamente a operação. “Após a Camera analisar as alternativas que lhe dessem sustentabilidade financeira e operacional, o ajuizamento do pedido de recuperação judicial se mostrou o mais seguro e viável para enfrentar suas dificuldades”, explica o advogado da empresa, Gustavo Schmitz. 

O pedido de recuperação, solicitado em setembro, ainda não foi deferido pelo judiciário. Se concedida, a recuperação judicial dará à Camera uma proteção legal de 180 dias contra ações de cobrança de seus credores. Mas 60 dias após o deferimento do pedido a Camera deverá apresentar aos seus credores um plano de recuperação viável e que garanta o pagamento das dívidas contraídas pela empresa, cujo valor não foi revelado. 

Em uma entrevista exclusiva a AMANHÃ, o diretor Roberto Kist detalha como a Camera está se preparando para superar o que qualificou de “tempestade perfeita” em 2011. Ele demonstra otimismo quanto às perspectivas da empresa, que havia faturado R$ 2,5 bilhões em 2013, mas deve obter uma receita de apenas R$ 900 milhões em 2014. “A safra que está entrando agora está normalizando o mercado, o que é uma grande notícia. O nosso modelo de negócio agora volta, então, para o ambiente em que foi planejado. Temos a perspectiva de uma supersafra com preços mais baixos, e assim a indústria navega bem”, avalia Kist. Acompanhe a íntegra da entrevista: 

Como foi a evolução dos negócios da Camera? Em que momento, e por que, a empresa decidiu deixar de ser apenas uma cerealista? 

Em 2009 e 2010, as empresas gaúchas do setor viram uma oportunidade importante de migrar para a indústria por causa do biodiesel. Havia condições de financiamento, e uma rentabilidade excelente - eram margens que quem trabalha com commodities nunca imaginaria. O biodiesel puxou naquele momento uma maior industrialização das empresas. Era um mercado que te possibilitava vender para a Petrobras... Só que, na esteira do biodiesel, é preciso haver o processamento da soja. E isso acabou incentivando as empresas a investir em suas esmagadoras e processadoras de soja para extrair o óleo biodiesel. Essa é uma cadeia complexa: exige toda uma verticalização e um capital de giro intenso. A indústria do biodiesel já nasceu demandando grandes volumes, e a Camera foi a empresa que fez esse movimento de transformação de forma mais intensa. 

A Camera já tinha experiência industrial? 

Nós já tínhamos indústria no passado, só que menor, produzindo refinados e ração. Mas não uma indústria robusta e que exige o processamento de um volume muito grande, como a do biodiesel. A gente atuava vendendo farelo no mercado doméstico, produzindo ração, e o excedente, uns 20%, ia para exportação. Mas, com o advento do biodiesel, a exportação vira o principal mercado, {porque} o mercado interno não absorve toda a produção. Vai mais para a Europa e países baixos. 

Quando a Camera começou a ter problemas? 

No final de 2011 começou uma forte estiagem no Rio Grande do Sul, que depois se arrastou pelo Brasil e América do Sul. Argentina, Paraguai e Bolívia, que produzem soja, também sofreram com a estiagem. E até então, o mercado não precificava em função dessa participação. O que dava preço para a soja, em Chicago, era a safra dos Estados Unidos. Claro, a safra brasileira e a argentina tinham relevância já, mas não era notado o quão relevante {este volume} era. Os preços começaram a subir muito por causa da estiagem aqui. O mercado se deu conta da extensão e da importância da soja sul-americana para o abastecimento mundial. O preço passou de patamares de R$ 45 para até R$ 60, e aí a soja gaúcha foi toda exportada para a China, naquele momento. Fecha-se um contrato de exportação antecipadamente, por isso os chineses acabaram tendo prioridade ante o mercado doméstico. A lei da oferta e procura elevou mais ainda o preço do lote aqui. 

E quando a baixa produção alcançou os Estados Unidos também, o que aconteceu? 

No segundo semestre de 2012 começou a se falar que a estiagem iria chegar à América do Norte, aos Estados Unidos. E aí sim, isso puxou muito o preço para cima. A volatilidade de um mercado que precifica tudo antecipadamente é alta, e a soja foi para R$ 75 ou R$ 80. A indústria trabalha com preço de lote, e o preço do lote, para nós, chegava a R$90 se fosse um lote maior. Então, quem tinha um modelo de negócio tradicional, de compra da soja do produtor, formação e venda do lote para exportação, esse não sentiu tanto. O produtor também não sentiu, porque mesmo tendo colhido menos, o preço havia se valorizado muito. E outros grãos também tiveram seu preço aumentado. Portanto, o produtor se beneficiou. Já a indústria, com um modelo de negócio verticalizado, teve que tomar dívida para assegurar um mínimo de soja para processamento. Foi um ambiente extremamente duro para a indústria também porque em 2012 o governo pisou no pescoço do pessoal do biodiesel, começou a fazer o que fez com o etanol. O biodiesel passou a ter margem praticamente negativa, o preço da soja não parava de subir e ainda se tinha que disputar o grão com a China, que levou tudo quando percebeu que a safra americana iria quebrar também. O negócio naquele momento era ter fechado todas as fábricas e mandado todo mundo embora. Mandar a soja para o porto e de lá para a China. Mas a gente era indústria recém-estruturada... Seria o primeiro ano de maturação dos investimentos que foram feitos... 

Ficou pesado lidar com uma crise logo após ter feito o investimento para processar mais soja? 

{Sim porque} Você tem que investir não só na usina de biodiesel, tem que investir na extração, aumentar captação de grãos, ter mais armazéns, enfim, tem que investir na cadeia inteira para ter o biodiesel. Você se torna exportador de farelo, que é mais complexo do que exportar grãos. O ano de 2012 para nós seria o começo da maturação do investimento... Contávamos com um ano normal. Com 40 anos de negócios já passamos por muitas estiagens, mas não estávamos preparados para um ambiente tão inóspito, com quebras enormes. Quebrou naquele ano também a safra de trigo, arroz foi mal, milho... A seca começou em novembro de 2011 e foi até dezembro de 2012... Foi muito forte. Foi uma tempestade perfeita para o nosso negócio. E esse ciclo de alta dos preços das commodities durou três anos. Agora é que está voltando ao preço real. Faz um mês que está se normalizando. A soja saiu do patamar de R$ 65 e está em R$ 50 já. Agora os Estados Unidos estão colhendo uma safra espetacular de trigo, soja e milho. É uma safra que está entrando agora e está normalizando o mercado, o que é uma grande notícia. O nosso modelo de negócio volta agora, então, para o ambiente em que foi planejado. Temos a perspectiva de uma supersafra com preços mais baixos, e assim a indústria navega bem. Temos o pedido de recuperação judicial. Ficamos um ano em reestruturação já, e agora precisamos de mais um período para fazer todo esse “turn around”. Usamos do direito da proteção judicial para nos ajudar e estamos visando a safra de soja, que deve acontecer entre abril e maio. A gente tem administrado agricultores e fornecedores, nos voltamos para esse relacionamento agora. 

Como a China influencia o mercado? 

A China tem um parque industrial muito grande, e vai tudo – óleo, farelo – para alimentação. Alimentação humana, alimentação de animais. Eles não compravam um quilo de soja aqui até 2003, e quando apareceram já levaram 200 mil toneladas. No ano seguinte, 600 mil; no seguinte, dois milhões de toneladas. Toda a exportação de soja gaúcha eu diria que vai para a China. O Rio Grande do Sul é um estado que tem um porto bem posicionado, o Porto de Rio Grande, que recebe navio de 70 mil toneladas. O problema é que o estado tem sido imediatista, se for comparar com Goiás ou Mato Grosso, que têm uma política que beneficia a indústria, busca reter grão e exportar farelo. O Rio Grande do Sul é um corredor da exportação de grão, na verdade. Se tu pegares o histórico do biodiesel, vai ver como cresceu a produção de biodiesel em Goiás, por exemplo, em detrimento ao que é produzido pelos gaúchos. Aqui estão as multinacionais – Cargil, ADM... – e elas atuam no RS como tradings puras. Não tem fábricas aqui. E tem no centro-oeste. Aqui {no RS} atuam como exportadora de grãos. Acaba que os chineses estão mais aqui {no Brasil}, eles tem um parque industrial enorme para processar o grão. 

Como a Camera está organizando a gestão neste momento de dificuldade? 

A gente tá fazendo um downsizing, retornando para Santa Rosa, no interior, que é a nossa origem. O ambiente ainda não é bom para a indústria de soja. Por isso estamos com {apenas} uma fábrica rodando, das três que temos, esperando o governo autorizar o aumento da mistura de biodiesel de B5 para B7, o que aumenta em 40% a demanda de biodiesel. Isso – a autorização para que o diesel mineral, que é consumido pelos caminhões, tenha mais 2% de biodiesel – já era para ter sido aprovado em 2012. Com isso, ao invés de a Petrobras importar diesel gastando dólares da balança comercial, compraria mais soja dentro do Brasil. É uma coisa extremamente primária, porque o Brasil não é autossuficiente em diesel, e a Petrobras está se quebrando, comprando diesel todo o mês em dólar - e a indústria, aqui, penando. O primeiro leilão B7 sai em novembro e dezembro desse ano. A gente perdeu dois anos e meio, a Petrobras perdendo... 

Caso a justiça aceite o pedido de recuperação judicial, começará a correr um prazo para que a empresa apresente um plano a seus credores. Qual é a estratégia da Camera para conquistar a adesão dos seus credores? Que negócios devem ganhar peso e que negócios devem perder força neste plano de restruturação a ser apresentado aos credores? 

A gente ainda não tem o plano. Estamos esperando o deferimento do judiciário primeiro. Temos a orientação jurídica de aguardar. Claro, a gente já tem um esboço e começou a trabalhar no plano, mas não é o momento de apresentá-lo. Nesse período de um ano voltamos a ter como foco o relacionamento com o agricultor. Vamos manter a operação industrial em um volume ainda pequeno. 

Olhando hoje, você diria que a decisão de tornar a Camera uma empresa mais industrial se mostrou um erro? Ou as dificuldades são resultado de uma fatalidade, apenas? 

Ambos. Teve a ousadia do empresário que visualizou uma oportunidade, a indústria tem a sua sedução. Poxa, nós estamos aqui agregando valor, gerando empregos melhores. Simplesmente comprar grão de produtor, formar o lote e vender, não gera nada de valor adicionado para o município. No interior, o agronegócio é o caminho, mas vimos uma oportunidade de industrializar. O biodiesel permite que você esteja no interior... Antes tinha que processar a soja em Rio Grande para mandar para o navio e ir embora. Infelizmente aconteceu uma tempestade perfeita em 2012. Estamos no mercado há mais de 40 anos e estamos acostumados a secas, mas o que aconteceu foi muito forte. Até as multinacionais pararam a indústria. Subiu muito o preço do grão. Dobrou a necessidade de capital de giro. 

Quem são os credores da Camera? 

Bancos. Apenas bancos. Não temos dívidas trabalhistas ou com fornecedores. 

Há especialistas sustentando que entrar em recuperação judicial tem sido um processo pouco eficaz para reerguer as empresas. Qual sua opinião a respeito da lei de recuperação judicial? 

Tem empresa que nem quer sair do plano de recuperação. Aproveita a proteção. As estatísticas não são fidedignas, e a recuperação é um expediente muito usado pelo empresário. É uma proteção para a sociedade. O empreendedor é ousado pela natureza, e algumas vezes acontece algo errado. Por isso essa lei ajuda, sem dúvida. Recuperação judicial não é concordata. É muito mais para recuperar, mesmo. Não deveria ser tratada em conjunto com falência. O termo falência assusta muito, existe um tabu. As vezes, até por causa desse tabu, a empresa fica muito tempo sem pedir a recuperação, e quando pede já está depreciada, não consegue mais sair. Nós fizemos isso em tempo hábil, as nossas fábricas são operacionais e modernas, não temos salário atrasado. É uma proteção para dar trabalho a reestruturação. O mercado melhora agora para a nossa atividade. Temos safras grandes entrando e biodiesel indo para B7, o que vai aumentar a demanda.

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