Opinião: O desafio de alimentar uma população em constante crescimento
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Agronegócio

Opinião: O desafio de alimentar uma população em constante crescimento

"Os agricultores sempre precisaram se adaptar a um ambiente em constante mudança e se manter competitivos"
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Por *Lúcia de Souza

Já somos 7 bilhões de pessoas no mundo. Se você acha o número impressionante, saiba que ele vai aumentar. Embora a taxa de crescimento populacional venha caindo com as melhorias nas condições de vida, em 2050 seremos cerca de 9 bilhões. Infelizmente, ainda há, entre outros sérios problemas, a inaceitável e amarga realidade de cerca de um bilhão de pessoas malnutridas, das quais mais de 10 mil morrem de fome a cada dia.

Um dos principais obstáculos para reduzir a desnutrição global é a oscilação nos preços dos alimentos – o que deve não apenas continuar, mas se acentuar. A conclusão é do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”, elaborado por três agências da Organização das Nações Unidas (ONU): para Alimentação e Agricultura (FAO), Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e Programa Alimentar Mundial (PAM).

A comunidade internacional foi convocada a agir energicamente para combater a insegurança alimentar. Solicitou-se um conjunto de estratégias, como melhores práticas que incrementem a produtividade agrícola, e, por exemplo, sementes melhoradas desenvolvidas por meio de pesquisa agrícola que possam reduzir os riscos de produção dos agricultores.

Estamos chegando ao ponto em que nossos sistemas agrícolas não será o capazes de sustentar a produção. O ganho de eficiência, a disponibilidade de alimentos e a sustentabilidade, no sentido mais amplo da palavra, adquirem um significado maior para aliviar famintos num mundo em desenvolvimento e fugir do sacrifício de ecossistemas para ampliação da área de produção agrícola. O consumo em rápida expansão, a busca por uma agricultura que diminua o impacto ambiental e as mudanças climáticas são algumas das temáticas que estimulam cientistas a se empenhar em uma corrida para aumentar a produção.

Diante de tamanho desafio, não deveria haver espaço para preconceitos, informações desconexas e opiniões polarizadas baseadas em fatos limitados. Sabemos que os transgênicos não são a solução de todos os problemas, mas têm ajudado em várias áreas, e já há tempo suficiente para se perceber o quão relevantes são. Afinal, faz aproximadamente 30 anos que o primeiro produto resultante de recombinação genética – a insulina humana – foi aprovado.

No caso de alimentos, um mal-entendido fundamental é a ideia de que a agricultura é, ou deveria ser, natural. A agricultura não é natural. Você nunca verá na natureza milho crescendo. Os oponentes da biotecnologia moderna estão imaginando um cenário obscuro e indesejado para os transgênicos, que ignora a opinião de milhares de cientistas e as evidências de centenas de relatórios de 25 anos de estudos – que concluem que eles são, no mínimo, tão seguros quanto os alimentos convencionais.

No entanto, o pior cenário seria uma falta de alimentos acessíveis à população por termos desperdiçado nossa chance de realizar pesquisas sobre a introdução de características que permitem às plantas suportar os atuais e os próximos desafios. E perdemos a oportunidade de adotar novas práticas e novos produtos benéficos no mercado. Os alimentos transgênicos são avaliados muito mais a fundo do que qualquer outro e, até hoje, não há um único relatório mostrando que um transgênico tenha causado danos à saúde ou ao meio ambiente. Devemos evitar desperdícios e nos concentrar em problemas reais, como micróbios patogênicos contaminando nosso alimento – como E. coli enterohemorrágica, Salmonella e Listeria. Ou outros problemas que causam sérios riscos à nossa saúde, como contaminação com fungos com toxinas nocivas. O que deve contar são evidências com base objetiva, um balanço de fatos e estatísticas relevantes, dados e práticas reais, e literatura científica de qualidade.

Um recente estudo sobre impactos dos transgênicos nas lavouras brasileiras avaliou os potenciais benefícios da biotecnologia para o meio ambiente e a sustentabilidade do agronegócio brasileiro nos próximos 10 anos. De acordo com o levantamento, realizado pela consultoria Céleres para a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (ABRASEM), a redução do uso de água decorrente da menor necessidade de aplicações de defensivos e de variedades mais resistentes a pragas, por exemplo, pode chegar a 149 bilhões de litros. É um volume suficiente para abastecer 3,4 milhões de pessoas.

Em sua quinta atualização, o estudo – que é realizado anualmente – aponta também que a redução no número de aplicações de defensivos nas lavouras, no mesmo período, equivalerá a 3,8 milhões de toneladas de CO2 que não serão emitidas na atmosfera. A economia de combustível também é significativa: equivalente ao necessário para abastecer 516 mil camionetes (o tipo de veículo mais comum nas lavouras).

Os agricultores sempre precisaram se adaptar a um ambiente em constante mudança e se manter competitivos. Nos últimos anos, o Brasil vem desfrutando de uma onda de sucesso e oportunidades no agronegócio, com a adoção de novas tecnologias e práticas para aumentar a produção e a sustentabilidade. Não existe solução única, mas um conjunto para cada tipo de situação ou problema. Grande ou pequeno, orgânico, convencional, biotecnológico – todos os tipos de agricultores e agricultura são importantes, podem e devem coexistir para que o agronegócio brasiliero gere prosperidade dentro e fora do país e alimente o mundo. Fizemos progressos e podemos fazer mais no futuro, mas isso só será possível se estivermos comprometidos com políticas favoráveis, regulamentação adequada à realidade, transparência das informações, análise sólida com ciência de qualidade e intervenções apropriadas.

*Bióloga, doutora em Bioquímica, especializada na área de Biossegurança em Biotecnologia e vice-presidente da Associação Nacional de Biosseguranca (AnBio).

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