Opinião: O preço da ideologia e da desinformação

Agronegócio

Opinião: O preço da ideologia e da desinformação

Não é possível desconsiderar 15 anos de um cenário bem-sucedido da biotecnologia no campo
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Por Lúcia de Souza

Não é mais possível dar as costas para evidências e desconsiderar 15 anos de um cenário bem-sucedido da biotecnologia no campo

O princípio fundamental para a introdução responsável de toda nova tecnologia consiste na avaliação dos benefícios que ela pode proporcionar em oposição aos seus potenciais riscos. Por essa razão, vários avanços científicos geram, a priori, ceticismo e controvérsia. Nada diferente do que ocorreu com a biotecnologia moderna. Essa ferramenta é mais um avanço e, aplicada a diversos setores, busca alternativas para desenvolver novos produtos e solucionar problemas não resolvidos por métodos tradicionais.

O curioso é que, nesse caso, a polêmica se deu quase que exclusivamente em relação à aplicação da engenharia genética na agricultura. Medos e queixas quanto a possíveis efeitos adversos de alimentos derivados da biotecnologia moderna para a população e o meio ambiente fizeram parte do processo de introdução da nova tecnologia e adaptação aos produtos dela derivados.

O que ocorre é que hoje, após mais de 15 anos de cultivo de transgênicos ao redor do mundo e mais de duas décadas de estudos de biossegurança com organismos geneticamente modificados (OGMs), sem nenhum efeito adverso documentado, não é plausível que os levantes contra esses produtos tenham argumentação rasa ou infundada. Recentemente, inclusive, a Comissão Europeia, em um compêndio dos resultados de 10 anos de estudos financiados pela instituição, concluiu que os transgênicos são pelo menos tão seguros quanto
suas variedades convencionais para a saúde e o meio ambiente, reafirmando a posição de diversos outros institutos e renomadas organizações internacionais de pesquisa.

Produção sustentável

Uma quantidade considerável de evidências científicas sobre o cultivo comercial de transgênicos, após mais de um bilhão de hectares acumulados durantes esses 15 anos de cultivo em diversos ambientes, e o consumo por mais de um bilhão de pessoas e animais, revela que eles contribuem para as metas de desenvolvimento sustentável. Isso equivale a dizer que a biotecnologia ajuda a reduzir o impacto no ambiente e melhora a situação
socioeconômica da população em várias partes do mundo.

De acordo com dados do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA, na sigla em inglês), mais de 90% dos 15,4 milhões de produtores que adotaram transgênicos em 2010 eram pequenos agricultores em países em desenvolvimento. A adoção vem crescendo a cada ano, 81% da produção mundial de soja e 64% de algodão são transgênicas. Se tantos plantam e tornam a plantar, claramente há
benefícios socioeconômicos inclusive para pequenos produtores. Esses proveitos podem ser decorrentes da redução de custos, do maior rendimento e/ou da produtividade, o que contribui também para diminuir a necessidade de ampliação da área plantada.

Além das questões socieconômicas, a adoção de variedades transgênicas no campo (principalmente soja, milho e algodão) propiciou ganhos ambientais altamente relevantes. Dados da consultoria britânica PG Economics apontam que 393 mil toneladas de defensivos deixaram de ser utilizados no mundo de 1996 a 2009 em razão dos transgênicos. Só em 2009, a redução na emissão de gases de efeito estufa (em razão da diminuição no uso de aplicações de agroquímicos) foi equivalente a 17,7 milhões de toneladas de CO2 – equivalente a retirar de
circulação 7,8 milhões de automóveis em um ano.

No Brasil, um estudo da consultoria Céleres mostrou que, entre os anos 1996/97 – 2008/09, houve uma vantagem econômica de US$ 3,6 bilhões para os produtores. Desse montante, 78% se devem ao cultivo de soja transgênica; outros 63% correspondem à redução nos custos da produção, decorrentes do menor uso de água, óleo diesel e defensivos químicos.

De acordo com o levantamento, a biotecnologia na agricultura brasileira permitiu uma redução de 12,6 bilhões de litros de água, o suficiente para abastecer uma população de 287,2 mil habitantes durante dez anos. Quanto aos combustíveis, houve diminuição de 104,8 milhões de litros de óleo diesel, que abasteceriam uma frota de 43,7 mil veículos leves pelo mesmo período. Já o gás carbônico, originado a partir da queima do óleo diesel e principal responsável pelo aquecimento global, sofreu uma redução de 4 mil toneladas, o que significaria a preservação de dois milhões de árvores da mata ciliar.

A força do agronegócio brasileiro

Nesse contexto positivo, o Brasil vem ampliando sua produção, fruto do desenvolvimento e da aplicação de conhecimento técnico e científico na cadeia agrícola. A integração das tecnologias no campo, incluindo ferramentas de conservação do solo, controle mais eficiente de pragas e doenças, genética convencional e biotecnologia, constitui um sistema agrícola sólido, com relevante potencial de crescimento em bases sustentáveis. Aliados a isso existem, preceitos jurídicos rigorosamente estabelecidos, que compreendem uma das mais modernas e precisas legislações de biossegurança, aplicada a cada um dos eventos transgênicos a ser liberado para uso comercial no País.

Condenar, por ideologia ou desinformação, o uso dessa ferramenta e de todas as outras é se colocar contra todo o cenário bem-sucedido do agronegócio brasileiro dos últimos anos – e colocar em xeque todos os benefícios socioeconômicos e ambientais que estão por vir. Quem pagará esse preço?

*Lúcia de Souza é Bióloga, Doutora em Bioquímica, especializada na área de Biossegurança em Biotecnologia.

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