Os desafios do agronegócio brasileiro

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Os desafios do agronegócio brasileiro

Assegurar expansão e sustentabilidades são desafios do novo governo
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Para Fernando Homem de Melo ainda é cedo para saber o que muda na política agrícola brasileira no governo de Dilma Rousseff. O professor titular do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (FEA/USP) considera essencial, no entanto, a continuidade de algumas iniciativas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). "O Pronaf é hoje um programa muito importante para o agronegócio brasileiro", afirma.

Segundo Homem de Melo, a atual realidade brasileira é de uma economia aberta, em que os preços internacionais, a taxa de câmbio, juros, financiamento, custos de produção são muito mais importantes ao funcionamento do agronegócio do que jamais foram. "E a nova política agrícola vai ter que levar isso em conta", adverte.

Para o professor da USP, o principal desafio do novo governo no campo será elevar a competitividade do agronegócio brasileiro, assegurando sua expansão com sustentabilidade ambiental. "As forças da agricultura hoje se chamam "ganhos de produtividade" e ocupação dos cerrados. É isso que a tornará apta a atender as crescentes demandas interna e externa. Evidentemente, uma taxa de câmbio melhor ajudará", pondera.

Em entrevista à Avicultura Industrial, uma das maiores autoridades brasileiras em agricultura e alimentação, Homem de Melo fala sobre as tendências do mercado internacional de grãos, avalia o potencial do Brasil para tornar-se um dos grandes jogadores do mercado internacional de produtos agrícolas, elenca os desafios do governo Dilma Rousseff na área do agronegócio e aborda assuntos atuais com a guerra cambial e seus possíveis reflexos na cotação das commodities agrícolas. Confira!

AI - Os preços dos grãos no mercado internacional apresentaram expressivas altas a partir do segundo semestre de 2010 e se mantêm em patamares elevados. Em contrapartida, nesse período, houve grande valorização da moeda brasileira em relação ao dólar. Com essa relação como ficou a rentabilidade do produtor?

Homem de Melo - A melhoria dos preços internacionais ocorreu a partir de junho, mas se acentuou após agosto. Isso está sendo repassado aos produtores, repasse esse algo prejudicado pela continuada apreciação do real. Tudo começou com o trigo em julho deste ano, com as quebras de produção no leste europeu seguido por restrições às exportações desse cereal em alguns países. Através do efeito-substituição subiram os preços do milho e, em menor grau, do arroz. Entre junho e outubro os aumentos em dólares do trigo e do milho na Bolsa de Chicago foram, respectivamente, de 52,7% e 57,4%. Nesse mesmo período o nosso índice total de preços internacionais - café, suco de laranja, algodão, açúcar, soja, trigo e milho - subiu 36,9%. Já a apreciação de nossa moeda nesse intervalo foi de 6,8%. Dois pontos merecem ser destacados: primeiro, os aumentos dos preços em dólares se estenderam para outros produtos de nossa pauta exportadora; segundo, a apreciação cambial de junho para cá foi compensada - e em muito - pela melhoria dos preços internacionais.

AI - O aumento dos preços dos grãos no mercado internacional vai influenciar a safra brasileira?

Homem de Melo - É difícil dizer se essa melhoria dos mercados agrícolas ainda terá influencia positiva nos diversos plantios no Brasil. Acho que essa valorização chegou um pouco tarde para influenciar a safra 2010/2011. Além das dificuldades das mudanças de planos, como por exemplo, na compra de insumos, existe o problema da irregularidade das chuvas e os atrasos nos plantios. Seja como for, as entregas de fertilizantes em setembro foram 14,4% maiores na comparação com setembro de 2009 (4,4% a mais no ano). As significativas altas nos preços das commodities agrícolas no mercado internacional, certamente, melhoram as perspectivas para a safra 2010/2011.

AI - O relatório anual Perspectivas Agrícolas 2010-2019, publicado pela FAO e OCDE prevê excelentes perspectivas futuras para os países emergentes no mercado internacional de produtos agrícolas, sobretudo de grãos e carnes, inclusive com preços maiores. Que avaliação o senhor faz dessas perspectivas?

Homem de Melo - O prognóstico contido no relatório elaborado pela FAO e OCDE é absolutamente pertinente. É preciso entender que dois novos fatores passaram a afetar o mercado internacional na década passada. O primeiro é a nova demanda por grãos e oleaginosas, resultante, quase no mundo todo, da ênfase na maior utilização de biocombustíveis [etanol e biodiesel]. Essa nova realidade mudou radicalmente a demanda mundial por grãos e oleaginosas, sobretudo o milho nos EUA para a fabricação de etanol. Para se ter uma ideia, neste ano foram direcionadas 118 milhões de toneladas de milho para etanol nos EUA. Esse montante representa um terço da produção norte-americana e quase 20% da produção mundial de milho. Portanto, essa é a primeira razão para uma mudança estrutural na demanda no mercado internacional de commodities agrícolas. A segunda razão é que o crescimento econômico mundial passou a ser mais dependente do maior crescimento econômico dos países emergentes, o que alguns analistas chamam de "efeito" China. Os países emergentes estão crescendo vigorosamente, enquanto nos países ditos desenvolvidos o crescimento econômico está estagnado. Só que as economias de alta renda já estão bem saciadas no seu consumo de alimentos, particularmente carnes. Nos países emergentes, ao contrário, o aumento da renda das camadas mais pobres da população cria margem para o crescimento no consumo de alimentos. Esses dois fatores conjugados - aumento na demanda por biocombustíveis e crescimento econômico global centrado nos países emergentes - alteram de modo estrutural o mercado internacional, através de uma taxa de crescimento maior das respectivas demandas internas e das importações de grãos, carnes e outros produtos nesses países.

AI - Há mais algum fator que venha exercendo influência sobre os preços dos grãos no mercado internacional atualmente?

Homem de Melo - Sim, há um fator conjuntural ligado à crise econômica atual. Refiro-me à decisão do Fed [Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos], tomada recentemente, de injetar na economia norte-americana US$ 600 bilhões até julho de 2011. Essa medida vai gerar liquidez nos mercados e as baixas taxas nominais de juros, provavelmente negativas em termos reais, estão provocando realocação nas aplicações financeiras na direção das commodities. E aqui me refiro a todas elas: minério, petróleo e agrícolas. É isso que vem ocorrendo nos últimos meses. Uma nova onda de elevação nos preços das commodities. Em setembro e outubro últimos o nosso índice Total de Preços Internacionais de Produtos Agrícolas já passou a superar os elevados níveis do período pré-crise [junho e julho de 2008]. Portanto, acredito que esses três fatores - os dois estruturais e o conjuntural, e aqui é importante frisar que esse último fator é conjuntural, mas pode durar alguns anos - são tremendamente importantes para o Brasil porque a elevação de preços que estava restrita ao milho, soja, trigo etc. se repassou para todos os produtos, inclusive café, que são cotados em Bolsa e que têm grande liquidez.

AI - O senhor falou na decisão do banco central norte-americano. Estados Unidos e China travam uma guerra cambial particular, mas com impacto em todo o comércio internacional. Como o senhor avalia essa disputa e que tipo de impactos ela pode trazer para o comércio mundial de produtos agrícolas.

Homem de Melo - O perigo para o Brasil é a depreciação excessiva do dólar e a consequente valorização de nossa moeda. O real já está valorizado - o dólar está hoje na casa de R$ 1,70 -, mas já esteve numa cotação mais baixa, que foi contida pelas medidas do governo que aumentou o IOF para frear a desvalorização da moeda norte-americana. A dúvida que fica é sobre o quê o próximo governo vai fazer para enfrentar esse problema. A nova presidente já demonstrou preocupação com a questão cambial. O Ministério do Desenvolvimento também reconhece a gravidade que a valorização do real representa para o País em termos de desindustrialização. Mas não é só isso. O agronegócio brasileiro sofre com essa situação já que a rentabilidade do setor diminui com a apreciação do real. A única vantagem em relação aos produtos manufaturados é que as commodities agrícolas, sejam elas primárias ou processadas, estão conseguindo uma compensação, isto é, maiores preços em dólares. Mas a agricultura certamente é um setor que sofre com o câmbio apreciado. Por outro lado, essa medida do banco central dos EUA pode ser favorável ao Brasil.

AI - Favorável?

Homem de Melo - Dependendo da resposta dos consumidores norte-americanos pode haver um incremento da demanda interna nos EUA, que hoje encontra-se deprimida. E esse incremento na demanda pode levar ao crescimento dos Estados Unidos, o que é bom para o Brasil sob o ponto de vista de nossas exportações. O Brasil hoje reclama muito da medida do FED pelo efeito de apreciação que causa em nossa moeda. Mas se a economia norte-americana voltar a crescer vamos ganhar um pouco mais de mercado para produtos manufaturados. A recuperação da economia norte-americana é boa para o Brasil e para o mundo.

AI - O que cabe ao Brasil fazer para enfrentar essa guerra cambial?

Homem de Melo - O governo Dilma Rousseff vai ter que intervir, vai ter que ser mais ativista na política cambial. Torço para que o Banco Central comece um processo de diminuição de nossa taxa de juros. Isso vai conter o diferencial de rentabilidade entre juros internos e juros externos. Torço também para que adote outras medidas, inclusive o controle de capitais para deter a continuada apreciação do real. Isso sem falar na redução da carga de impostos, dos investimentos em infraestrutura que são reformas necessárias para tornar o Brasil mais competitivo.

AI - Em sua opinião o que muda na política agrícola brasileira no governo de Dilma Rousseff?

Homem de Melo - Vamos ter que aguardar para saber, ver quem será nomeado ministro da Agricultura, conhecer suas ideias, suas propostas. Mas um ponto importante é a continuidade de certas políticas, como o Pronaf, por exemplo. O Pronaf é hoje um programa muito importante para o agronegócio brasileiro. Em segundo lugar é preciso estabelecer uma política de preços mínimos mais ativa, particularmente para produtos como feijão, mandioca e outros que não participam do mercado internacional. Para produtos que participam do mercado internacional a política agrícola vai ser um pouco menos necessária, porque os preços em dólares estão muito bons, apesar do câmbio apreciado. Aí entram outros instrumentos como contratos de opções, financiamentos e coisas desse tipo, voltados para a agricultura familiar, mas que obviamente têm extensão à agricultura empresarial.

Um ponto que costumo salientar é que com a abertura comercial, iniciada no governo Collor, o regime de câmbio flutuante, a austeridade fiscal e a política monetária, implementadas pelo governo FHC e aperfeiçoada no governo Lula, melhoraram muito a situação da atividade agrícola brasileira. O maior efeito favorável à agricultura da abertura comercial foi a drástica redução das tarifas de importação de insumos, principalmente fertilizantes e defensivos, e máquinas agrícolas. Para fertilizantes, por exemplo, as tarifas de importação foram praticamente zeradas. A utilização de fertilizantes passou de 3,3 milhões de toneladas em 1989 para 12,2 milhões em 2008. Então a rentabilidade da agricultura está melhorando, os preços estão melhorando, e os custos estão caindo com a apreciação de nossa moeda. Então a nova política agrícola vai ter que levar isso em conta. Hoje a realidade brasileira é de uma economia aberta em que os preços internacionais, a taxa de câmbio, juros, financiamento, custos de produção são muito mais importantes do que antes.

AI - A política agrícola também tem sido usada pelo governo para manter os alimentos em patamares adequados no mercado interno...

Homem de Melo - Nos últimos dois meses houve grande impacto do item alimentos no IPCA [índice oficial de inflação do País medido pelo IBGE] e, portanto, também na cesta básica do Dieese. Com isso os consumidores, sobretudos os mais pobres, estão sendo negativamente afetados. Então, além de olhar o lado da produção agrícola, o governo vai ter que olhar também para a questão dos preços dos alimentos aos consumidores. Aí pode entrar uma outra política tributária, promover uma redução ou eliminação de alguns tributos que incidem na comercialização de alimentos, que é muito necessária.

AI - Na opinião do senhor quais serão os grandes desafios que o próximo governo terá de enfrentar dentro do setor de agronegócio?

Homem de Melo - É o investimento em pesquisa e em tecnologia. É preciso dar maior ênfase à Embrapa e promover maior interação com o setor privado na área de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. A contribuição da Embrapa para a evolução do agronegócio brasileiro é enorme. É necessário dar condições para que a Embrapa continue desenvolvendo tecnologias que promovam o aumento de produtividade nas mais variadas áreas do agronegócio. Para isso é preciso um orçamento maior. E segundo é promover a interação com o setor privado. Isso vai levar o Brasil certamente a taxas maiores de aumentos de produtividade em comparação aos nossos países concorrentes como, por exemplo, os EUA.

AI - O senhor considera a política agrária um dos desafios do próximo governo?

Homem de Melo - Essa é uma grande dúvida em relação ao próximo governo. Como é que a presidente Dilma vai conduzir a política agrária? A meu ver o presidente Lula foi excessivamente tolerante com o MST e com as invasões de terra. Isso aumentou o risco de investimento na agricultura brasileira. Ninguém vai investir sob o risco de ter sua propriedade invadida. Os compromissos firmados por ela durante a campanha, exigem um fino entendimento entre o ministério da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário para coibir os excessos do MST e diminuir os riscos do investimento na agricultura. Mediar essa relação é um dos desafios do governo Dilma Rousseff. Espero que o próximo governo faça coisas positivas nessa área, o que não significa dizer que a questão agrária não possa ser bem enfocada, inclusive sob o ponto de vista da reforma agrária.

AI - O crédito rural passou de R$ 20 bilhões em 2002 para pouco mais de R$ 100 bilhões em 2010. É comum se ouvir, no entanto, afirmações de que o crédito rural não chega ao produtor. Por que isto ocorre e o que mudaria se este dinheiro realmente chegasse às mãos do agricultor?

Homem de Melo - Chegar chega. O problema é que esse dinheiro é insuficiente. Numa conta fácil de fazer, esse pouco mais de R$ 100 bilhões de crédito representa um terço da necessidade em termos de financiar custos de produção. Um terço é o crédito agrícola, um terço são recursos próprios e um terço recursos das empresas privadas, sistema troca-troca, CPLs, principalmente grãos e exportação. O crédito rural cresceu bastante nos últimos anos, especialmente o Pronaf. Espero que continue crescendo, mas o problema é o alcance do crédito rural, porque ele tem definições quantitativas e monetárias. O crédito rural é muito mais importante na região Sul, onde predominam pequenos e médios produtores, do que no Centro-oeste, onde estão os médios e grandes produtores. Esses limites quantitativos fazem com que os médios e grandes produtores do Centro-oeste procurem mais as empresas privadas para suas necessidades de custeio. Acho que o dinheiro oficial não vai dar para atender 100% das necessidades e acredito que não seja necessário. O agricultor tem que se capitalizar no tempo de vacas gordas - e o ano que vem vai ser um ano de vacas gordas. Ele tem que se capitalizar, tem que aprender a ser prudente, como não foi no passado, e guardar mais para aumentar esse um terço de dinheiro próprio para financiar sua safra. É preciso também resolver o problema do endividamento. Aproveitar o ano que vem que será bom em termos de renda agrícola, para aumentar a participação do dinheiro próprio no custeio e também encaminhar o problema do endividamento que será uma outra questão para o próximo governo.

AI - A boa votação da candidata Marina Silva parece denotar uma maior preocupação da população em geral com a sustentabilidade ambiental. Quando essa discussão chega ao agronegócio ela desperta paixões. Na avaliação do senhor como o setor do agronegócio vem lidando com a questão ambiental? Ele tem feito a sua parte?

Homem de Melo - Todos, em sã consciência, exceto os radicais de lado a lado, prezam pelo crescimento agrícola com sustentabilidade. A sustentabilidade ambiental é uma pré-condição para o desenvolvimento do agronegócio. A ocupação dos cerrados é um grande desafio. Primeiro por que são cerca de 50 milhões de hectares disponíveis, alguns razoavelmente próximos aos centros de consumo e portos de embarque. A polêmica pavimentação da BR 163, que pode abrir espaço para expansão da agricultura adicional em Mato Grosso, também é. As obras de infraestrutura do PAC, as ferrovias, como a construção da ferrovia Norte-Sul e a Ferronorte, são obras que podem beneficiar a expansão agrícola. Mas é preciso tomar cuidado com a questão da sustentabilidade. Então um outro desafio para o governo Dilma, além da questão agrária e do investimento em pesquisa, será equacionar a expansão do agronegócio brasileiro com sustentabilidade ambiental. O agronegócio brasileiro tem boas perspectivas para os próximos anos. Há espaço para expansão, mas vamos ter que expandir com cuidado ambiental.

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