Pecuaristas brasileiros buscam novo filão

Agronegócio

Pecuaristas brasileiros buscam novo filão

A produção de carne diferenciada cria o genérico brasileiro do vitelo argentino
Por: -Marianna Peres
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Genérico do vitelo argentino? Boi galinha? Não importam os apelidos cochichados à mesa de degustação. O que vale é o paladar da carne macia, de cor clara, cortes uniformes e de alta digestibilidade de um bovino abatido aos 12 meses de idade e que por pouco mais de 100 dias esqueceu o capim e se alimentou somente de milho in natura.

A carne nobre foi apresentada na última sexta-feira (10-11), durante um almoço promovido pela Associação dos Proprietários Rurais do Estado (APR/MT), em parceria com a Nutron Alimentos, líder mundial em nutrição animal, onde foram mostrados os resultados do Projeto Bolita, realizado de maneira inédita no Estado.

A APR/MT realizou experimentos em 30 bezerros da Fazenda Santa Alice, localizada em Mirassol D´Oeste (MT), de propriedade do presidente da entidade, o pecuarista Ricardo Castro Cunha. Os animais foram abatidos na semana passada no Frigorífico Marfrig, de Tangará da Serra (242 quilômetros ao Médio Norte de Cuiabá).

O projeto, também realizado em Mato Grosso do Sul e Goiás – com mais 1,5 mil animais -, tem o objetivo de proporcionar um produto final diferenciado, de alto valor agregado, que remunere o produtor e promova um ciclo de produção rápido nas propriedades. “Acreditamos que esta carne de qualidade superior vai mudar a lógica do mercado atual onde existem compradores de carne. Com o produto diferenciado o mercado da bovinocultura de corte estadual vai abrir espaço para o vendedor de carne: o pecuarista pronto para atender às demandas do consumidor”, observa o diretor executivo da APR/MT, Paulo Resende.

Em agosto deste ano, depois do período de oito meses de amamentação, os bezerros foram desmamados e pesados. Dava-se início aos bolitas mato-grossenses, como são chamados os bovinos que após a desmama entram em sistema de confinamento a base de milho e outros nutrientes.

No início do confinamento eles tinham cerca de 210 quilos (média superior em relação ao Estado - 180 a 200 quilos). Em um prazo de onze dias foram se adaptando a nova dieta com silagem em quantidades regressivas e milho em volume crescente.

O médico veterinário da Nutron, Ricardo Barbosa, conta que no primeiro dia a dieta teve 100% de silagem (8 quilos). Já entre o sexto e décimo dia, o bezerro recebeu quatro quilos de silagem, misturados a 4,5 quilos de dieta concentrada. A partir do 11º dia, o animal já estava sendo alimentado com 100% da dieta concentrada, num total de 5,5 quilos. “Eram 8 quilos de silagem e isso foi reduzido para 5,5 quilos de milho com nutrientes peletizados”, aponta Barbosa.

A dieta é composta de 80% de milho in natura e 20% de Peletti, um granulado que contém sal mineral, fibras e proteínas necessárias ao equilíbrio do PH do bovino. Barbosa explica que esta preocupação com a estabilização do organismo evita intoxicação.

Depois de 105 dias, os animais que entraram no confinamento com 210 quilos, ou, 7,33 arrobas, passaram a 355 quilos, 13 arrobas. Abatidos, tiveram rendimento de 55% de carcaça. “Vale observar entre outros pontos, que um boi de média de 500 quilos, por exemplo, obtém no máximo, aqui no Estado, rendimento de carcaça de 53%”, aponta Resende.

Neste intervalo, os bezerros registram ganho de peso de 1,29 quilo por dia e tiveram uma média diária de consumo de cerca de 6,6 quilos da dieta concentrada. “Com a redução do período de terminação, há economia com medicamentos e vacinas. Como o pasto é desocupado cedo, o giro de capital acontece em cerca de quatro meses”, observam Resende e Barbosa.

Custos – Para Resende a arroba do bolita deverá ser pelo menos 10% mais remunerada, se comparada à cotação do boi. “O mercado atual em Cuiabá está pagando R$ 50 pela arroba. Com o bolita devemos ter um bônus de pelo menos R$ 4 pela arroba”.

Barbosa aponta que levando em consideração o custo pela aquisição do bezerro, cerca de R$ 320 e alimentação no período, há um investimento total de R$ 600. “Nas planilhas que fizemos, onde estão contabilizadas todas as despesas e inclusive juros sobre o capital, o pecuarista terá um lucro de R$ 70 por animal. A engorda do boi que demorava cerca de 2,5 anos para acontecer, agora pode ser feita em 120 dias”, exclama o médico veterinário.

Para ele, a desvantagem por enquanto, está na falta de valor agregado do produto no mercado nacional. “Grandes restaurantes paulistas importam os bolitas da Argentina. Não há como dimensionar a demanda nacional, mas ela existe e tem um grande potencial. Para se ter idéia, cerca de 10% das exportações de carne bovina do país vizinho são de cortes de bolitas. A Europa se revela um grande consumidor”.

A churrascaria Boi Grill, em Cuiabá, tem interesse em comercializar a carne do bolita. “Pela degustação vimos que os cortes não sofrem perda. É uma carne limpa e pronta para o preparo, sem falar no sabor e na maciez. As carnes em geral, sofrem muitas perdas e isso é dinheiro jogado fora para nós. O que poderá ser 10% mais caro em relação ao mercado, será mais rentável à empresa”, anuncia o gerente de atendimento ao público, Lindomar Fiss.

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