Pecuaristas do RS trocam gado por vinho

Agronegócio

Pecuaristas do RS trocam gado por vinho

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Uma nova alternativa econômica começa a surgir para a pecuária no sudoeste do Rio Grande do Sul: a produção de uvas para vinho. Muitos produtores estão trocando o gado pelos parreirais, atrás de maior rentabilidade. Nos próximos cinco anos serão investidos R$ 30 milhões na região denominada Campanha - caracterizada por áreas planas. Com isso, a superfície cultivada vai passar de 1,6 mil hectares para 3,5 mil hectares. Terras baratas, áreas planas - abrindo a possibilidade de mecanização da lavoura -, clima propício e boa ensolação estão atraindo os investimentos.

Atualmente, 22 das 30 grandes vinícolas do Rio Grande do Sul estão instaladas na região, mas apenas duas processam o produto ali; as demais levam as uvas em câmaras frigoríficas para a serra. Neste ano, a Vinícola Miolo Ltda pretende instalar uma unidade em Candiota. "Queremos reduzir os custos", diz Darci Miolo, diretor-financeiro da empresa. Para isso, está investindo R$ 18 milhões na construção da fábrica e na ampliação dos parreirais. Hoje, a empresa tem 100 hectares com vinhedos no município e pretende chegar a 400 hectares até 2012. Miolo diz que a região é a nova fronteira agrícola do estado, pois na serra não há mais como expandir as lavouras de uvas.

A região está localizada no paralelo 31, famoso pela qualidade dos vinhos. "Os melhores vinhos do mundo estão neste paralelo, tanto no Hemisfério Sul quanto no Norte", diz Danilo Cavagni, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra). Segundo ele, a Campanha produz vinhos finos, que concorrem com os da África do Sul e Austrália. Por isso, segundo ele, é preciso investir em marketing e criar uma tipificação do produto da região - a denominação de origem.

A região foi descoberta em 1974, quando a Vinícola Almadén se instalou em Santana do Livramento. A empresa tem hoje 600 hectares com parreirais e pretende investir, em cinco anos, US$ 4 milhões na renovação dos vinhedos. "Escolhemos a Campanha porque é ideal para a produção de vinhos finos", diz Gladistão Omizzolo, enólogo da Almadén.

Naquela época, um estudo de uma universidade americana indicava que a região era propícia para a produção de uvas, devido à alta luminosidade (quase 14 horas de sol no verão), à grande amplitude térmica (variação de até 20ºC em um dia), à umidade relativa do ar abaixo de 60% (que confere menor incidência de doenças) e à disponibilidade de terras planas. Ao contrário da serra, onde os parreirais são altos, com 1,90 metro, no paralelo 31 ficam em cercas de até 90 centímetros. "A competitividade do vinho brasileiro passa por essa região", afirma Afonso Hamm, presidente do Comitê de Fruticultura da Metade Sul do Rio Grande do Sul. Ele explica que todas as característica geoclimáticas da Campanha conferem alto teor de açúcar às uvas da região. No entanto, segundo o pesquisador Mauro Zanus, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ainda não existem estudos que garantam uma melhor qualidade ao vinho da Campanha em detrimento ao da serra gaúcha.

Atração de investimentos

Foi somente nos últimos quatro anos que o plantio se intensificou, com o financiamento dos governos federal e estadual. A região, caracterizada pela pecuária, vivia uma estagnação econômica e o governo viu na produção de frutas uma alternativa de renda aos pecuaristas. Com isso, outras grandes vinícolas começaram a investir na Campanha.

Foi em 2000 que o pecuarista José Érico Souto, de Bagé, plantou as primeiras mudas de uva. O produtor buscava outra fruta - já havia cultivado ameixas, pêssegos e figos - para diversificar a produção e obter receita nos momentos em que o gado está na engorda. Em parceria com a Vinhos Salton S/A - que garantiu a aquisição das frutas por 13 anos -, iniciou seu vinhedo, com 3,5 hectares. Hoje tem 13 hectares. "Tento sobreviver, pois pretendo morrer no campo e, se eu não diversificar, vou precisar ir para a cidade", afirma Souto. O produtor tem uma fazenda com 3 mil hectares, onde cria bovinos, ovinos e eqüinos. A renda, segundo ele, é muito maior com as uvas viníferas do que com a pecuária. Enquanto um hectare da fruta rende líquido R$ 4 mil, a mesma área com gado dá lucro de R$ 170.

Entre as grandes, a Salton também estuda a construção de uma vinícola na Campanha. "O desenvolvimento do setor irá determinar a implantação de uma unidade em Bagé", diz Lucindo Copat, diretor-técnico da empresa. Atualmente, a indústria possuiu 162 hectares cultivados no município, em parceria com os produtores, que produzem 400 mil litros de vinho por ano. Copat diz que, a partir de 2 milhões de litros, seria viável a construção de uma vinícola no município.

Além da instalação de grandes vinícolas, o "boom" do vinho fez com que a Universidade Regional da Campanha (Urcamp) implantasse um viveiro para a reprodução de mudas, reduzindo a importação.


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