Plantas daninhas: tecnologia mira alternativas aos herbicidas
Como controlar plantas daninhas resistentes
Foto: Divulgação
A resistência de plantas daninhas a herbicidas se tornou um dos principais desafios da produção agrícola mundial. Segundo dados divulgados por uma revisão científica publicada em 2024 sobre resistência de plantas daninhas e manejo agrícola, essas espécies podem causar perdas de 25% a 40% da produção global de grãos e, em determinadas culturas, comprometer até 76% da produtividade. O impacto econômico estimado supera US$ 120 bilhões por ano.
O problema se agrava à medida que herbicidas amplamente utilizados perdem eficácia. Segundo dados divulgados pelo International Herbicide-Resistant Weed Database, principal base global de monitoramento do tema, existem mais de 530 casos únicos de resistência envolvendo 272 espécies de plantas daninhas, resistentes a 168 herbicidas diferentes em 72 países.
É nesse cenário que atua a PRÏOBIO, startup brasileira de base científica dedicada ao desenvolvimento de soluções biotecnológicas para a agricultura sustentável. A empresa trabalha na criação de uma nova geração de bioinsumos baseada na convergência entre microbiologia, nanotecnologia verde e controle biológico.
A principal linha de pesquisa busca desenvolver um bioherbicida baseado em nanopartículas de prata biogênicas produzidas por bactérias do gênero Bacillus isoladas da microbiota de abelhas. A proposta é ampliar as alternativas para o manejo de plantas daninhas resistentes, reduzir a dependência de herbicidas sintéticos e contribuir para sistemas produtivos mais sustentáveis.
O Brasil está entre os países impactados pela evolução da resistência de plantas daninhas. Entre os casos citados no material estão a buva (Conyza spp.), considerada a primeira planta daninha resistente ao glifosato identificada no país; o picão-preto (Bidens spp.), com registros de resistência múltipla; o capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), uma das invasoras mais problemáticas da agricultura tropical; e o caruru (Amaranthus spp.), reconhecido pela elevada capacidade reprodutiva e rápida evolução de resistência.
Segundo especialistas da área, esse processo gera um ciclo cada vez mais oneroso para o produtor rural. Com a redução da eficiência dos herbicidas convencionais, aumentam as doses aplicadas, as misturas de produtos e os custos de produção, além da pressão ambiental associada ao uso intensivo de agroquímicos.
“A resistência de plantas daninhas é hoje um desafio agronômico, econômico e ambiental. Quando as ferramentas disponíveis perdem eficiência, todo o sistema produtivo é impactado. Nossa pesquisa busca ampliar as alternativas para enfrentar esse cenário por meio da ciência e da inovação”, afirma Renata Lima, liderança científica e porta-voz da PRÏOBIO.
O diferencial da tecnologia desenvolvida pela startup está na utilização da microbiota das abelhas como fonte biológica. Segundo o material, pesquisas internacionais têm demonstrado que os microrganismos associados a esses insetos representam um reservatório promissor de compostos bioativos com aplicações potenciais em áreas como saúde, meio ambiente e produção agrícola.
Na proposta da PRÏOBIO, bactérias do gênero Bacillus atuam como biofábricas naturais capazes de sintetizar nanopartículas de prata por meio de processos biológicos. A estratégia elimina a necessidade de rotas químicas convencionais normalmente utilizadas na produção de nanopartículas, reduzindo o uso de reagentes agressivos e alinhando o processo aos princípios da nanotecnologia verde.
Segundo dados divulgados pela literatura científica citada no material, entre as vantagens apontadas para a síntese biogênica de nanopartículas estão a menor toxicidade, a maior biocompatibilidade e a redução do impacto ambiental associado aos processos produtivos.
A tecnologia reúne microbiologia aplicada, nanotecnologia, bioinsumos, controle biológico e agricultura de baixo impacto ambiental. Esses segmentos vêm recebendo atenção crescente de pesquisadores, empresas e investidores.
A startup também está inserida em um ambiente científico que inclui conexões com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), o CEPID Biodiversidade e Mudanças Climáticas, a Universidade de Sorocaba (UNISO) e projetos apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Essa aproximação entre pesquisa científica e inovação tecnológica acompanha uma tendência global de fortalecimento das chamadas deep techs, empresas que transformam conhecimento científico avançado em soluções para desafios complexos da sociedade.
O desenvolvimento da tecnologia ocorre ainda em um momento de crescimento dos mercados ligados à agricultura sustentável. Segundo dados divulgados por projeções internacionais de mercado citadas no material, o segmento global de controle de plantas daninhas movimentou aproximadamente US$ 27 bilhões em 2024 e pode alcançar cerca de US$ 38 bilhões até 2034.
Ao mesmo tempo, cresce a demanda por bioinsumos, agricultura regenerativa e soluções alinhadas às metas ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG).
Nesse contexto, a busca por alternativas capazes de reduzir a dependência de agroquímicos convencionais ganhou espaço entre diferentes cadeias produtivas do agronegócio. A tecnologia da PRÏOBIO, porém, ainda está em fase de desenvolvimento e validação científica.
A proposta combina biologia de precisão, nanotecnologia verde e conhecimento derivado da biodiversidade microbiana para buscar uma nova abordagem de manejo das plantas daninhas resistentes.
Mais do que desenvolver um novo produto agrícola, a empresa busca ampliar as possibilidades de manejo sustentável em um cenário em que a resistência de plantas daninhas se tornou uma preocupação crescente para a segurança alimentar global.
O propósito da startup está sintetizado no próprio nome: PRÏOBIO, uma referência à ideia de priorizar a vida por meio da ciência.