Preço pago pelo cacau baiano gera déficit, dizem produtores
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Agronegócio

Preço pago pelo cacau baiano gera déficit, dizem produtores

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A cultura do cacau não compensa - é o que dizem produtores do litoral baiano, onde mais se produz a matéria-prima do chocolate no Brasil. "Admiro quem diz que está ganhando dinheiro com ela", afirma um deles, de Ilhéus (BA), que há quarenta anos planta o fruto. O custo produtivo fica entre R$ 70 e R$ 75 por arroba (15 quilos) na região. A remuneração, porém, não passa de R$ 78.


O País, cuja indústria depende de importações da África para suprir a demanda total do fruto, deve produzir algo em torno de três milhões de toneladas de cacau neste ano - gigantes como a Nestlé e a Cargill consomem, no entanto, algo próximo de 3,5 milhões de toneladas. Listagens de preço internacionais, quebras de safra dos anos 1990 e a crise na Europa subvalorizam a cultura, segundo especialistas.

O produtor Mário Bunchaft registrou perdas financeiras graúdas, neste ano, com os resultados de sua lavoura de 65 hectares (entremeados na floresta, como é típico da cultura do cacau), em Ilhéus.

Já faz quinze anos desde que ele diversificou a produção, plantando coco, cupuaçu e açaí, para amenizar os prejuízos. "As outras culturas cobrem o cacau", afirma Bunchaft, que extrai anualmente, em média, 30 toneladas de produto dos cacaueiros.

Nos anos 1980, o cacau brasileiro chegou a valer US$ 5 mil por tonelada. Mas, quando surgiu a praga vassoura de bruxa, na década de 1990, a produção nacional declinou de cinco milhões de sacas (60 quilos), dos dez anos anteriores, para cerca de 1,5 milhão. A tonelada passou a custar menos de US$ 1 mil.


Hoje, parcialmente recuperada da crise, a cultura é cotada na faixa de US$ 2,2 mil por tonelada nas bolsas agrícolas internacionais. "Isso gera um preço interno, considerando o prêmio, de R$ 75 por arroba", calcula o dono da consultoria Mercado do Cacau, Adilson Reis.

"Nos últimos dez anos, começamos a evoluir, com variedades resistentes a doenças, mas com pouco ou nenhum incentivo do governo", diz, apontando para o atual e maior problema do segmento: "Se não fosse a crise financeira europeia, estaríamos trabalhando com preços, por tonelada, acima de US$ 3 mil".


Passado, futuro

Os coronéis do cacau retratados por Jorge Amado já não existem mais, de acordo com as fontes consultadas pela reportagem. O perfil dos agricultores é de porte pequeno, com propriedades que não passam de 100 hectares, segundo Reis.

Contudo, a Odebrecht estaria produzindo cerca de 50 mil arrobas do fruto por ano e o ex-ministro de Indústria e Comércio do governo militar Ângelo Calmon de Sá almejaria uma safra de 100 mil arrobas para este ano, conforme disse o consultor, que com eles mantém contato.

No futuro, "o cacau vai virar peso de ouro", diz Reis. "O mundo sabe que nos próximos dez anos pode faltar cacau", afirma. E continua: "A indústria está preocupada. Incentiva o plantio nos países da África e já pensa em chocolates feitos à base de aromas".


O maior fornecedor global de cacau é a Costa do Marfim, que produz vinte milhões de sacas por ano. Junto da Gana e da Nigéria, representa 70% da produção.

"No Brasil, é uma cultura endividada", pontua o dono da Mercado do Cacau. Bunchaft, o produtor, lembra de um caso da década de 1990: um órgão do governo teria empurrado aos produtores baianos a execução de um plano de recuperação dos cacaueiros, após a crise da vassoura-de-bruxa. A dívida, de R$ 1 bilhão, persiste.

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