Produtores alertam para riscos da interdição de lavouras


Agronegócio

Produtores alertam para riscos da interdição de lavouras

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A possível interdição de lavouras transgênicas e a apreensão da safra de soja gaúcha está gerando o temor de uma crise na balança comercial do Rio Grande do Sul. Os últimos acontecimentos relacionados ao cultivo de sementes geneticamente modificadas, que incluem as investigações da Polícia Federal (PF) de Passo Fundo, estão despertando a atenção do governo para a necessidade de uma definição urgente para o assunto. "Vamos ter uma crise muito séria se existirem problemas com a comercialização dessa safra. Como poder público, não podemos admitir que se planta transgênicos no Rio Grande do Sul, porque o cultivo é ilegal. No momento, só podemos agir para garantir a venda dessa colheita", ressalta o secretário da Agricultura, Odacir Klein.

Ele acredita que não é do interesse do governo federal impedir a comercialização da soja brasileira. "O governo passa por restrições orçamentárias e está preocupado em manter o saldo da balança comercial", complementa. O secretário ainda reafirmou ontem que é favorável ao desenvolvimento da pesquisa sobre transgênicos no País. "Não podemos ficar atrasados cientificamente", afirma.

O complexo soja foi o grande responsável pelo desempenho da balança comercial do agronegócio em 2002, que atingiu US$ 20,3 bilhões. As exportações do complexo somaram US$ 6,008 bilhões, resultado 13,4% superior aos US$ 5,296 bilhões de 2001.

Se os benefícios do cultivo de transgênicos são quase unânimes entre os produtores, para os consumidores e o governo, a questão continua sendo polêmica. Em 1998, a ONG Greenpeace e o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) obtiveram uma liminar que suspende a comercialização da variedade Roundup Ready, da Monsanto. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, defende que o governo tenha uma postura cautelosa em relação ao tema. "Isso não significa a paralisação da pesquisa", pondera.

De toda a área plantada com soja no Rio Grande do Sul, 95% pode estar cultivada com sementes geneticamente modificadas. A estimativa está baseada em pesquisas que concluíram que apenas 5% da lavoura gaúcha é rastreada. "Concluímos que o restante é plantado com sementes mistas", declara o diretor da Brasoja, Antonio Sartori. O especialista, que também é vice-presidente da Federasul, palestrou ontem a dirigentes do agronegócio na sede da entidade. Sartori fez uma demonstração dos assuntos que abordará em Washington (EUA), nos dias 20 e 21 deste mês, durante o Agricultural Outlook Forum 2003.

De acordo com ele, não existem restrições mundiais ao uso de transgênicos. "No caso da China, por exemplo, só existe a exigência de um certificado que ateste se a soja é ou não é geneticamente modificada", observa Sartori, que se diz a favor da liberdade de escolha para os produtores e consumidores. O analista ainda lembra que a União Européia, tradicionalmente exigente com seus fornecedores, importa soja transgênica dos Estados Unidos e da Argentina. "A falta de uma definição no Brasil não pode colocar em risco a venda de cerca de 8,4 milhões de toneladas da oleaginosa que serão colhidas pelos gaúchos. Também é preciso levar em consideração que até agora, foi comercializado apenas 20% dessa safra", salienta.

Brasil pode ser o maior exportador do complexo no mundo

A procura pela soja brasileira deve continuar crescendo, prevê o diretor da Brasoja, Antonio Sartori. Em 2003, o País provavelmente será o maior exportador do complexo soja do mundo. A colheita da oleaginosa poderá atingir 51 milhões de toneladas este ano e ultrapassar as 58 milhões de toneladas em 2010.

Entretanto, Sartori acredita que o governo brasileiro vai ter dificuldades para acabar com a fome. "Além de não ter receita para investir no projeto, o Brasil, assim como o mundo todo, não tem estoques de alimentos como arroz, feijão e carne", assinala. Entretanto, o analista acredita que em 2010 a produção agrícola brasileira ultrapasse as 142 milhões de toneladas. "O País tem clima, fronteiras agrícolas e abriga 19% da água doce do mundo", aponta.

Sartori revela que levará aos Estados Unidos uma mensagem do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Segundo Sartori, o recado do ministro diz que a democracia corre riscos se não houver a diminuição dos subsídios agrícolas aplicados pelos países desenvolvidos. (D.S.)

Julgamento no TRF é transferido

A decisão sobre o plantio dos transgênicos foi adiada mais uma vez. O julgamento sobre a necessidade de um estudo de impacto ambiental (EIA-Rima) para permitir o cultivo estava agendado para hoje, mas foi transferido. Isso aconteceu porque a União, que anteriormente apoiava a multinacional Monsanto no pedido de liberação, solicitou a suspensão da data do julgamento. A relatora do Tribunal Regional Federal (TRF) Selene Maria de Almeida indeferiu o pedido, mas, em função dos trâmites legais, adiou o pleito. Por enquanto, não há previsão para uma nova data de julgamento.

Ontem, a Polícia Federal (PF) de Passo Fundo continuou a coleta de amostras de soja em três empresas de Carazinho. O objetivo é descobrir se existe soja transgênica armazenada nas indústrias da região. A ação iniciou na quarta-feira, quando foram coletadas amostras em Passo Fundo. A soja está sendo analisada pela Embrapa de Passo Fundo e por peritos da PF em Porto Alegre. Os resultados dos exames devem ser divulgados nos próximos dias.


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