Safra de grãos não deve segurar preços do mercado internacional, diz especialista

Agronegócio

Safra de grãos não deve segurar preços do mercado internacional, diz especialista

Impacto decepciona porque o setor produtivo brasileiro é bastante competitivo, mas o país não é
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Impacto decepciona porque o setor produtivo brasileiro é bastante competitivo, mas o país não é

Nem a supersafra de alimentos que vem aí, estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em cerca de 183 milhões de toneladas de grãos, deve aplacar a fome do dragão. Os alimentos consomem 20% do orçamento doméstico e safras fartas são sempre bem-vindas, ajudam a regular o custo de vida e pesam para o superávit da balança comercial. Mas para conter o apetite voraz do dragão é preciso que a colheita cresça não só em toneladas de commodities, como o milho e a soja, mas que seja farta também em alimentos que vão direto para o prato do consumidor:  arroz, feijão, hortaliças, frutas. E é aí que mora o perigo.

Este ano o país deve colher cerca de 10,5% mais grãos que no ano passado, um avanço festejado pelo governo. Mas a despeito da safra recorde, especialistas apontam que os resultados do campo podem não conter o fôlego do dragão. A projeção da Fundação Getúlio Vargas (FGV) é de uma inflação próxima dos 5,8% em 2013, praticamente o mesmo resultado do ano passado. Grãos como o milho e a soja têm boas expectativas de colheita, mas a formação de preços internacional depende da demanda de grandes consumidores, como os países asiáticos. Assim, os preços no mercado interno podem não cair na proporção da maior oferta.

Já a safra do feijão, descolada do mercado internacional, não deve ser suficiente para abastecer o mercado interno. A previsão é de que o Brasil importe da China de 80 mil a 100 mil toneladas do alimento básico. A oferta interna de feijão segue em baixa, com preços do grão cotados em R$ 210 a saca, quando o custo poderia estar próximo aos R$ 110 a essa altura do ano. O trigo, também essencial para regular preços de pães, massas, biscoitos, tem estoques mundiais curtos e produção nacional insuficiente, enquanto os preços das hortaliças se mantêm persistentemente altos.

“Apesar da promessa de uma boa safra, tenho dúvidas se conseguiremos fechar o ano com os alimentos subindo em média 6%, previsão que sustentávamos no início de 2013”, diz André Braz, coordenador do índice de inflação da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo ele, a trajetória atual aponta para alta dos alimentos superior a 5% no primeiro trimestre do ano. “Mesmo que a desoneração da cesta básica nos favoreça, podemos terminar 2013 com uma alta média para alimentos próxima de 7%, um ponto percentual superior à expectativa inicial”, explica Braz. Para o especialista, mesmo que a inflação do grupo seja menor em 2013, a supersafra não deve criar espaço para ajustes profundos.

“Os impactos da safra recorde não serão maiores na inflação porque o setor produtivo é altamente competitivo, mas o país não é”, defende Gilman Viana, ex-secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais e presidente da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Segundo ele, quando saem da fazenda, os custos do comércio encarecem a produção, seja da commodity ou da hortaliça. “A produtividade da soja brasileira é maior que a dos Estados Unidos. No entanto, o produtor daqui gasta três vezes mais que o americano para entregar o produto, e duas vezes mais que o argentino”, explica. “A velocidade da safra está 10 anos adiante do presente e a infraestrutura, 30 anos atrasada.”
Pierre Vilela, coordenador da assessoria técnica da Federação da Agricultura de Minas Gerais (Faemg), aponta que a colheita brasileira de arroz deve aliviar a pressão do cereal no índice. Já a soja e o milho entram na cadeia animal, na produção de insumos, e têm efeito sobre o preço de produtos como frango, ovos e carne suína, mas são commodities que dependem do panorama internacional. “É preciso observar como será a colheita mundial, que definirá os preços do grão no mercado interno.” A flutuação dos hortifrutigranjeiros, que tem sido destaque nos últimos anos, deve continuar a pressionar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). “É possível que este ano tenhamos novamente a inflação de produtos como o tomate e outros hortifrúti”, avalia Pierre.

 “Os grãos vão segurar em parte a inflação, mas a pressão dos hortifrúti não deve ceder. Prevemos uma inflação em 2013 de 9% na região de Lavras”, diz o professor e coordenador do índice de inflação da Universidade Federal de Lavras (Ufla), Ricardo Reis.

A inflação medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março, por meio do IPCA-15, mostrou inflação acumulada em 12 meses de 6,43%, com alta de 0,49% em março. O grupo alimentação e bebidas deteve 0,34 ponto percentual do índice, ficando responsável por um peso de 69%. Vários produtos importantes na despesa das famílias ficaram mais caros em março, como o feijão carioca (11,68%), ovos (7,66%), farinha de trigo (6,33%), farinha de mandioca (5,72%), frutas (2,54%), macarrão (2,42%), frango (1,80%), e pão francês (1,77%), além da refeição fora de casa (1,23%).

Minas é estado estratégico

Nadando contra a maré do déficit de logística e infraestrutura, a produção brasileira – e de Minas Gerais – consegue bons resultados, apesar do descompasso entre produção e comercialização. O estado lidera posições importantes na produção agropecuária brasileira. É o primeiro produtor de café e leite e detém o segundo maior rebanho bovino do país. Também tem a segunda colocação na produção de feijão e cana-de-açúcar. Na safra de grãos, Minas deve colher perto de 12 milhões de toneladas, 7,5% do percentual do país.

Fernando Sarti, professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), aponta que, mesmo sem fazer da produção agrícola um setor estratégico, o Brasil lidera o ranking de exportação de alimentos, sendo o segundo colocado mundial na produção, depois dos Estados Unidos. Apesar disso, ele critica o abandono do etanol, a logística ruim para escoamento da produção e o sufoco dos portos. “A soja não alavancou outros setores. O país não desenvolveu cadeias produtivas da forma como deveria, por exemplo, o setor de máquinas e equipamentos, de defensivos agrícolas e a própria produção de semenetes e comercialização dos produtos”, diz Sarti. Ele aponta que a comercialização fica a cargo de grandes e poucos players internacionais.

“O Brasil não aproveita como deveria a oportunidade de ser um grande fornecedor mundial de alimentos, importante para a segurança alimentar mundial. Enquanto isso, outras fronteiras vão sendo abertas, como a África.” (MC)

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