Trigo

Safra ruim do trigo preocupa produtores gaúchos

Quebra, em quantidade, deve ficar entre 50% a 60% em relação à safra do ano passado
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Depois de colher uma boa safra no ano passado, o trigo gaúcho voltou, em 2017, ao cenário que tem sido mais comum na última década: quebra na produção e na qualidade do grão. Problemas climáticos durante todo o desenvolvimento da cultura afetaram tanto a quantidade quanto as características do cereal que está sendo colhido no Estado. Isso, aliado ainda à competição com o trigo argentino, joga a expectativa dos produtores para baixo quanto à venda, que será destinada à ração animal e provavelmente ainda precisará desenvolver novos mercados para ser completa.

Os problemas para o trigo apareceram desde o início do plantio, segundo o engenheiro agrônomo da Emater-RS, Cláudio Dóro. Primeiro, na implantação da lavoura, houve excesso de chuvas, seguido de geadas em julho. Depois, durante o período de floração e enchimento dos grãos, a dificuldade foi a estiagem prolongada no mês de setembro. "Agora em outubro, que tinha de ser um mês seco, voltou a chover muito, depreciando a safra. Não está encerrada a colheita, mas o cenário é de qualidade ruim e baixíssima produtividade", completa Dóro.

A quebra, em quantidade, deve ficar entre 50% a 60% em relação à safra do ano passado, segundo o agrônomo da Emater-RS. Os produtores já estão se movimentando em busca de garantias via Proagro, que cobre as perdas no crédito agrícola (os recursos próprios aplicados na safra, porém, não são cobertos). O cenário é mais pessimista ainda porque as perdas não se limitam ao peso colhido. Enquanto o trigo voltado à indústria (de melhor qualidade) está sendo cotado a R$ 32,00 por saca na região de Passo Fundo, segundo Dóro, o voltado a ração varia em torno da metade, entre R$ 15,00 e R$ 17,00.

Embora argumente que haverá parte da safra gaúcha que terá qualidade suficiente para a indústria, o presidente da comissão de trigo da Farsul, Hamilton Jardim, vê dificuldade na venda do trigo que não atingir aquele patamar. "Mais para frente, até se consegue fazer ele entrar no lugar do milho para a ração, mas agora, que o produtor precisa fazer caixa, vai ser complicado", comenta. Os compradores, segundo Jardim, estariam fazendo ofertas com pagamento para daqui a 40 dias, dificultando ainda mais o bolso dos produtores, que precisam de capital para dar andamento à safra de verão.

Os produtores de trigo gaúcho ainda temem o aumento da concorrência do grão argentino. A retirada de taxas de exportação do cereal pelo governo do país, aliada à desvalorização do peso, fez com que os produtores argentinos aumentassem a área plantada, e a expectativa é de uma produção pelo menos quatro milhões de toneladas maior do que no ano passado (como contexto, a safra brasileira inteira em 2016, por exemplo, ficou em torno de 7 milhões de toneladas, segundo o IBGE, e, nesse ano, deve ficar por volta de 5 milhões). Isso dificulta até o caminho da exportação, encontrado como solução em safras de cenário parecido ao desse ano, segundo Jardim.

"A tendência é de que boa parte desse aumento de produção venha para o Brasil. É bom para o produtor nacional que o dólar se mantenha alto, porque potencializa o trigo nacional", afirma o analista do mercado de trigo da Safras & Mercado, Jonathan Pinheiro. Caso a moeda norte-americana siga a tendência de alta no Brasil, beirando os R$ 3,30 pela primeira vez desde julho, a projeção é de que os preços do trigo nacional também subam até o fim do ano, movimento que deve ser ajudado pela falta de cereal no mercado. "Quem tem trigo bom, não vale a pena sair vendendo", recomenda Pinheiro, que vê o preço mesmo do cereal "ruim" subindo. O analista argumenta, entretanto, que se não houver quebra na safra argentina, a oferta fará com que o preço caia mais do que é possível o câmbio suportar, o que levaria os preços para baixo por aqui.

Mesmo sem alternativas viáveis, cultura tende a perder terreno nos próximos anos

Um dos principais reflexos do cenário negativo para a safra do trigo deve ser sentido a partir do ano que vem. Como é tradicional na agricultura, as plantações costumam seguir o visto na safra anterior. "Hoje, a sensação é de redução de área. Falando com os produtores se vê um desestímulo total", comenta o engenheiro agrônomo da Emater-RS, Cláudio Dóro que afirma, porém, que até o ano que vem as coisas pode mudar, seja por políticas agrícolas, seja por um cenário melhor de preço do cereal.

Presidente da comissão de trigo da Farsul, Hamilton Jardim, acredita que muita gente abandonará a cultura. O problema é que não há, na visão dos produtores, alguma cultura que possa substituir as qualidades do trigo, embora haja produção de culturas como canola, cevada, aveia e girassol no Rio Grande do Sul. "São nichos. A maior cultura que poderia substituir é a aveia, mas não tem comércio. O trigo é a única que poderia ser ampliada, que tem aptidão para todo o Estado", comenta Jardim.

Vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), Nestor Bonfanti, acrescenta que uma possível mudança traria custos sem garantia de retorno. "A canola até tem mercado, mas o cultivo é mais delicado e não temos equipamento adequado para que a maioria tenha acesso", analisa Bonfanti. O dirigente complementa que a única solução seria uma política adequada para o trigo, envolvendo governo, armazenagem e indústria. "Se não acontece a mesma coisa que se viu no milho, o preço cai tanto que se deixa de produzir e aí precisam importar. Até o próprio Estado perde renda e impostos", afirma.

Outra preocupação é que a falta de uma produção no inverno prejudica até a safra de verão, como a soja, hoje a grande fonte de renda dos agricultores gaúchos. A rotação de culturas é um dos melhores caminhos para manutenção de nutrientes no solo e combate a pragas, por exemplo, e, sim isso, a produtividade do verão deve se reduzir. "Além disso, não adianta ter uma produção a mil no verão e nada no inverno, pois o produtor continua pagando encargos, máquinas, salários, mas sem produto para vender e gerar contrapartida", comenta Jardim. "O trigo agronomicamente é bom, mas economicamente está sendo negativo. E o econômico sempre vai prevalecer", complementa Dóro.

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