Setor de flores é o mais afetado do agro
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Imagem: Pixabay
ESPECIAL

Setor de flores é o mais afetado do agro

Primeiro semestre fechou em queda de 30% nas vendas e flores de corte 50%
Por: -Eliza Maliszewski

O setor de flores sempre foi conhecido por ser bem organizado. A pandemia de Covid-19 desregulou tudo. O agronegócio brasileiro não parou, com exportações recordes. Por outro lado os produtores de flores viram seu planejamento acabar em poucos dias. Com o fechamento de estabelecimentos e a preocupação inicial com alimentação, as flores viram o impacto de perto. Em Holambra (SP), onde a produção responde por 90% do PIB, toneladas foram para o lixo.

Segundo o Instituto Brasileiro da Flor (Ibraflor), em 2019, eram cerca de 8 mil produtores de flores e plantas no Brasil que cultivavam 2.500 espécies. O setor tem peso na economia brasileira, gerando 209 mil empregos diretos na produção, distribuição, varejo, logística e outros como eventos. O faturamento ficou em cerca de R$ 8,1 bilhões. Logo no começo da pandemia as vendas caíram mais de 90% e o faturamento cerca de R$ 1,3 bilhão menor. A projeção era de que dois terços dos produtores poderiam falir. Hoje já estima-se que cerca de 20% abandonem a atividade.

O Portal Agrolink conversou com Renato Opitz, diretor do Ibraflor, para ver como está a situação atual. Também conversamos, por vídeo, com uma das maiores cooperativas de flores do país e um organizador de eventos. Você confere ao final desta reportagem:

Portal Agrolink: que balanço podemos fazer desse primeiro semestre?
Renato Opitz:
o setor de flores, em 2020, vinha bem até o começo de março e as expectativas eram de um crescimento da ordem de 10% a 12%, o que até chegou a ser concretizado com as vendas para o Dia da Mulher, a primeira data importante do ano para a floricultura nacional. Mas, aí, com o início da pandemia e o estabelecimento da quarentena, já nas primeiras semanas daquele mês as vendas caíram mais de 90%. Foram suspensos todos os eventos e uma série de outras medidas aconteceram e que culminaram na redução drástica da comercialização de flores e plantas. Ao longo do tempo, a situação foi melhorando. Na avaliação deste primeiro semestre de 2020 registramos uma queda de 30% nas vendas, com relação ao mesmo período do ano passado. Não está nada bom, mas mediante o cenário que estava em março, até que é razoável. Ocorreram algumas demissões no setor, mas muito menos do que se esperava no início da pandemia. Os produtores se readequaram, alguns mudaram os produtos (espécies e variedades de flores), fizeram outros serviços, mas, de maneira geral a gente pode falar que até uns 10% foram demitidos, mas com chance de serem contratados caso a situação melhore. Os preços das flores, em relação ao mesmo período do ano passado, agora para essa época, em julho, estão de 10% a 15% mais baixos. Com relação a abril estão mais ou menos estáveis. Não tem tanta diferença assim.

Portal Agrolink: além da comercialização, que outras questões a pandemia afetou?
Renato Opitz: a pandemia afetou bastante a produção, a logística, a importação e uma série de outros aspectos porque o produtor não sabia o que ia acontecer, o que vinha pela frente. Assim, muitas vezes sem capital, sem recursos em financiamentos específicos - que até hoje ainda não foram liberados -, muitos deles não puderam comprar mudas e demais insumos para manter a produção normal. Isso acabou afetando a produção. No entanto, acreditamos que o principal foi, realmente, o cancelamento de todas as festas, eventos, casamentos etc., que cessaram completamente e atrapalharam muito o segmento do mercado que corresponde à parte das decorações de festas. Os decoradores foram muito prejudicados.

Portal Agrolink: tem entidade projetando quebra de 50% em flores de corte. Podemos pensar nesse dado?
Renato Opitz: com relação as flores de corte, a situação está bastante grave, mas dependerá muito de quando voltarem os eventos, as festas, os casamentos, e em que condições será essa retomada. Podemos projetar uma quebra de 50% do volume de produção, mas não do número de produtores, pois todos eles estão diminuindo a sua produção, reduzindo a área plantada, fazendo podas drásticas ou, simplesmente, não plantando mudas e bulbos para tentar equilibrar a oferta e a demanda. Se esse ano a situação piorar, pode ser que haja mais do que 50% de redução na produção para atender a demanda considerando que o mercado de decoração sumiu e, praticamente, apenas as floriculturas e alguns supermercados estão vendendo flores de corte sob a forma de buquês..

Portal Agrolink: acredita que muitos produtores, especialmente os de corte vão largara atividade? Tem uma estimativa?
Renato Opitz: até o momento não chegou a 10% o percentual de produtores de flores de corte que largaram a atividade. Apenas alguns. E, a estimativa, é que no máximo 20% deixem essa cultura. Acreditamos que não mais do que isso, porque eles, simplesmente, vão adequar as suas produções. Muitos têm a sua produção toda estruturada para o cultivo da flor de corte e não é tão simples assim você substituir um produto por outro. Em apenas alguns casos isso é possível. A maior parte está diminuindo a produção na esperança de que, quando forem retomados os eventos, a demanda deverá ser muito aquecida. Vale lembrar que muitos eventos, como e casamentos e formaturas, por exemplo, foram adiados, e não cancelados, e devem ser remarcados para o próximo ano. O produtor precisa estar preparado para essa demanda reprimida.

Portal Agrolink: podemos dizer que do agronegócio o setor de flores foi o mais afetado?
Renato Opitz: no setor do agronegócio, a floricultura foi um dos mais afetados, assim como o de açúcar e álcool, com a diminuição do consumo. Os demais setores são parte de cesta de alimentos, como frutas, verduras, legumes e hortaliças e não sofreram muito. Os grãos também são utilizados para alimentação humana a de animais e continuaram com as exportações.

Portal Agrolink: como está o e-commerce?
Renato Opitz: o e-commerce avançou muito nesse período. Por meio de reportagens, porexemplo, uma das principais floriculturas on-line do país, a Giuliana Flores, informou que as vendas em maio aumentaram 200% em relação ao mesmo período de 2019 e que, na semana do Dia das Mães, a floricultura registrou mais de 95 mil pedidos. Em relação a junho, o mês também foi positivo, com a venda de 73 mil buquês em todo o Brasil, apenas por este fornecedor, o que representou, para ele, mais que o dobro se comparado com 2019. Isso, em penas uma floricultura online.

Portal Agrolink: o que projetar para 2021?
Renato Opitz: ainda é um pouco cedo para projetar o que vai acontecer em 2021, porque ninguém sabe qual vai ser a nova realidade. Mas a dinâmica da comercialização de flores e plantas mudou. Por um lado, as pessoas estão dando mais importância para as flores e plantas dentro dos seus ambientes, das casas, dos jardins, das varandas. Já para o grande mercado de festas, eventos e casamentos, teremos que esperar para conhecer quais serão as regras para que eles voltem a acontecer. A princípio imagina-se que, como no ano de 2020 não teremos praticamente nenhum tipo de festas, em 2021 teremos uma demanda bastante grande. Nesse caso, o setor de flores de corte poderá se beneficiar dessa demanda que está reprimida.


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