Agronegócio

Setor sucroalcooleiro vai se dividir entre euforia e incertezas

Com a inauguração de mais unidades produtoras é possível que o Brasil retome o posto de maior produtor de álcool do mundo
Por: -Redação
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Se em 2006 o álcool combustível defini tivamente passou a ser encarado pelo mundo como uma alternativa ao petróleo e uma commodity agrícola, em 2007 o mercado para o combustível no Brasil se dividirá entre a euforia da inauguração de 16 a 20 destilarias e a incerteza entre o aumento ou redução nas exportações. E ainda vai sobrar espaço para a polêmica discussão sobre a unificação da alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o álcool hidratado, que varia de 12% a 30% entre os Estados.

Com a inauguração de mais unidades produtoras - a maioria no Oeste Paulista, Triângulo Mineiro e no Centro-Oeste do País -, a expansão das existentes e a ampliação de área de plantio de cana-de-açúcar, é possível que o Brasil retome o posto de maior produtor de álcool do mundo, perdido este ano para os Estados Unidos. Em 2006, os norte-americanos produzirão 18,3 bilhões de litros de etanol, e o Brasil, 17,3 bilhões de litros. Juntos, os dois países controlam 72% da produção mundial do combustível renovável. Estima-se que a produção de cada um possa beirar ou mesmo atingir os 20 bilhões de litros no próximo ano.

Mesmo com a oferta interna, os Estados Unidos ainda serão grandes clientes brasileiros. Mas especialistas divergem sobre o volume de deve ser exportado para o país no próximo ano, já que a demanda interna será forte por causa dos carros flex. Os modelos movidos a álcool ou gasolina, que hoje são 81% dos zero-quilômetro vendidos no Brasil, atingirão 85% da frota de veículos novos ao final do próximo ano, de acordo com Henry Joseph Junior, diretor da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

“Já em 2006, o consumo de álcool no Brasil aumentou em virtude dos carros flex e as exportações ficarão abaixo do previsto”, afirma Paulo de Tarso Costa, da Divisão de Comercialização de Álcool e Oxigenados da Petrobras. Diante dessa pressão interna, as exportações brasileiras totais de álcool, previstas em 3,361 bilhões de litros neste ano, devem ficar em 2,74 bilhões de litros.

A visão dos produtores brasileiros é de que o pico das exportações para os Estados Unidos já passou. Antonio de Pádua Rodrigues, diretor da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), estima que a “bolha” de 1 bilhão de litros exportados aos Estados Unidos entre maio e julho deste ano não irá se repetir em 2007. “Isso ocorreu graças a um aumento forte na demanda norte-americana em um cenário de preços baixos no Brasil Não contamos com essa demanda, porque os Estados Unidos estão ampliando a produção com a inauguração de novas unidades”, explicou o executivo.

Mas Luiz Carlos Correa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) e presidente da Câmara Setorial do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, avalia ser possível haver uma demanda externa dos norte-americanos de 200 milhões a 900 milhões de litros no próximo ano, a ser coberta basicamente pela oferta brasileira.

Tarifa - Paralelamente, o setor privado brasileiro amplia o lobby para derrubar a tarifa de importação do álcool brasileiro nos Estados Unidos, de U$ 0,14 por litro. Entre os articuladores estão o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues e o governador da Flórida, Jeb Bush, irmão do presidente George W. Bush. Os dois formalizaram a criação da organização não-governamental (ONG) Comissão Interamericana do Etanol para estreitar a relação entre os dois países no setor.

Outro fator que pode desequilibrar o cenário de oferta e demanda do etanol no Brasil é a unificação da alíquota do ICMS em 12%, como querem os usineiros. O setor se articula para pressionar o governo a incluir a proposta entre os novos pontos da reforma tributária a ser avaliada pelo Congresso ainda em 2007. Se aprovada, a queda da alíquota diminuiria o preço do hidratado, o que levaria a um aumento do consumo do combustível.

Outro caminho é pressionar individualmente, na linha de convencer governadores a reduzir a alíquota. É o que fez, por exemplo, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), que conseguiu trazer para 12% a alíquota de 25% em 2003. “A alíquota do ICMS é o único entrave para o crescimento interno. Não há muita segurança de produção em alguns Estados, ou seja, o produtor corre o risco de não ter para quem entregar o combustível”, afirma o presidente-executivo da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), Antonio Cesar Salibe.

Entre os governadores já procurados está Aécio Neves (PSDB), reeleito em Minas Gerais, que prometeu aos usineiros do Estado, um dos que mais recebem investimentos na ampliação da produção, lutar pela redução da alíquota do ICMS do álcool de 25% para 12% no início de 2007.

Insumos - Ligados no cenário positivo do setor, outros elos da cadeia sucroalcooleira comemoram. É o caso, por exemplo, das indústrias de insumos, de base e de implementos. “Em nenhum mercado mundial há um mercado tão promissor como o de cana-de-açúcar no Brasil”, resume o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola (Sindag), Antonio Carlos Zem. As indústrias de defensivos estimam que o faturamento do setor com a cana-de-açúcar, que em 2003 foi de US$ 251 milhões no Brasil, chegue a US$ 471 milhões em 2006 e atinja US$ 720 milhões em 2010, o dobro de 2005.

Outro exemplo é a Dedini Indústrias de Base, principal indústria de base do setor, que fabrica desde equipamentos até destilarias “chave na mão”. O presidente da empresa, Tarcísio Mascarim, afirma que o faturamento deve fechar 2006 em R$ 1,1 bilhão, alta de 59% sobre 2005. “O crescimento para o setor é sustentável por um bom tempo e várias empresas estão com a carteira de clientes cheia”, afirma.

Mas, diante da soma de tantos fatores, o consumidor brasileiro vai se beneficiar com um preço do álcool competitivo nas bombas? Como os preços e o mercado do álcool são livres, os que possuem carros flex podem se proteger abastecendo com gasolina quando o preço do hidratado se aproximar de 70% do combustível do petróleo. Quem tem carro só a álcool - cada vez mais uma minoria - segue torcendo para que as crises de desabastecimento e de disparada de preços, como a do início de 2006, não se repitam nas entressafras de cana-de-açúcar, no primeiro trimestre de cada ano.

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