Sistemas agroflorestais mudam a vida de agricultores na Bahia
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Agronegócio

Sistemas agroflorestais mudam a vida de agricultores na Bahia

SAFs estão mudando a realidade de diversas famílias no baixo sul do Estado
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Modelo produtivo é estimulado pela Ceplac como forma de aumentar a renda das famílias da região

“Hoje a roça está dando renda. Dá para ficar com meu pai, cuidando da plantação e ganhando dinheiro sem precisar ir para a cidade”. O discurso é articulado é de um jovem de 17 anos, que até já teve sua experiência na cidade, mas descobriu que no campo pode ter tantas vantagens como as que a vida urbana possa oferecer. “Aqui, estou livre de tudo, inclusive do crime”, comenta o adolescente Rodrigo da Conceição de Jesus, enquanto descansa de uma aula sobre sangria em seringueira numa área demonstrativa de Sistema Agroflorestal (SAF), em Valença (BA).


Rodrigo é um dos 20 trabalhadores e agricultores familiares que participaram, entre os dias 23 e 24 de julho, de um curso para sangria de seringueiras, realizado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) em parceria com a Michelin, multinacional que compra e beneficia 70% do látex produzido na região de Valença.

Enquanto o jovem planeja um futuro de realizações no campo, o pequeno produtor Manuel Graciano Soares, conhecido como Manuel Coelho, quer resultado para seus investimentos. Proprietário da fazenda Tucum Mirim, onde a Ceplac realiza as demonstrações de SAF, Manuel é só sorriso. “Antes, possuía uma área de guaraná e cravo. Os preços caíram, tive prejuízo e resolvi mudar. Sob orientação da Ceplac, tomei um empréstimo no Banco do Nordeste para plantar cacau consorciado com banana e seringa. A carência era de oito anos, mas logo a banana começou a produzir e rendeu R$ 15 mil. Eu já poderia pagar o empréstimo e ainda ter lucro”, comemora.


Em vez de pagar o empréstimo antecipadamente, Manuel foi incentivado a aumentar a área de SAF. Onde antes havia plantado o guaraná e o cravo, transformou em novo plantio consorciado de cacau, banana e seringa. “Botei ali meus próprios recursos”, diz. A troca é vantajosa. A banana já produziu novamente mais de R$ 15 mil, o cacau da área demonstrativa vai bater mais de 100 arrobas no hectare-modelo e o seringal começa a produzir em setembro.

Dignidade

Os sistemas agroflorestais são estimulados pela Ceplac para agricultores familiares na região de Valença e do Baixo Sul como forma de aumentar a renda das famílias, garantindo o melhor aproveitamento do espaço produtivo, inclusive recuperando áreas de pastagens degradadas. Permite, ao mesmo tempo, uma vida digna para além das culturas de subsistência, com ganhos de mais de R$ 1,2 mil mensais. “Para quem tem quase todos os recursos disponíveis no quintal de casa, da alimentação à água potável, é um ganho considerável. Esse é o desafio: fixar as famílias no campo, com dignidade e qualidade de vida”, afirma o técnico agrícola e chefe do escritório local da Ceplac de Valença, Geraldo Argolo.


A região conta com mais de três mil agricultores familiares, dos quais cerca de 340 implantaram sistemas agroflorestais, número que deve chegar a 400 até o fim do ano. “A produtividade é muito boa e até valoriza a terra. Mas observamos que a valorização maior está mesmo no próprio homem. Hoje, quem vive no campo sabe que tem valor por sua atividade. Deixou de ser uma vítima da crise do cacau e de outras culturas, para ressurgir como ator de uma grande mudança”, analisa Argolo, referindo-se à crise que atingiu os cacauicultores a partir da chegada da vassoura-de-bruxa na Bahia na década de 1990.

A transformação a partir dos sistemas agroflorestais já repercute na vida dos cidadãos locais. Vidas de jovens como a de Rodrigo, que às vésperas de completar 18 anos será agente da transformação econômica e social de uma região. Será também exemplo e inspiração para as centenas de crianças e adolescentes que vivem nas periferias de cidades como Ituberá ou a própria Valença.

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