A produção de soja na safra 2026/27 pode ser 9,7% menor em um cenário de produtividade semelhante ao registrado durante o El Niño de 2023/24, na comparação com condições climáticas neutras. A diferença representa 17,6 milhões de toneladas, equivalentes a aproximadamente 293 milhões de sacas, e um impacto potencial de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP), segundo estudo divulgado nesta terça-feira (27) pela Serasa Experian.
O levantamento, que foi divulgado em coletiva de imprensa, considera a área projetada para a próxima temporada e compara dois cenários de produtividade. O primeiro utiliza como referência a safra 2023/24, influenciada por um episódio forte de El Niño. O segundo adota os resultados de 2024/25, período caracterizado por condições climáticas neutras. Com base nesses parâmetros, a produção nacional poderia atingir 163,6 milhões de toneladas sob condições semelhantes às do El Niño, ante 181,2 milhões de toneladas no cenário neutro.
A estimativa não representa uma previsão definitiva para a safra 2026/27, mas uma avaliação dos possíveis efeitos de condições climáticas adversas sobre a produtividade da soja. “Buscamos dimensionar o risco produtivo associado a um cenário climático adverso, e não antecipar o que necessariamente acontecerá na próxima safra. Ao traduzirmos esse possível impacto também para uma dimensão econômica, conseguimos mostrar a relevância que uma mudança de produtividade pode assumir para o produtor e para toda a cadeia ligada à soja”, afirma Sabrina Muñoz, gerente de inteligência de dados agro da Serasa Experian.
O impacto econômico foi calculado a partir do VBP da soja estimado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em R$ 340,6 bilhões. Considerando a produção de 181,5 milhões de toneladas na safra 2025/26, o estudo adotou um valor médio de aproximadamente R$ 1,88 mil por tonelada. Aplicado à diferença de 17,6 milhões de toneladas entre os cenários analisados, esse valor resulta em aproximadamente R$ 33 bilhões de produção potencialmente impactada. A Serasa Experian ressalta que o cálculo mantém constantes os preços de referência e não corresponde a uma projeção de prejuízo financeiro efetivo, uma vez que mudanças na oferta podem alterar as cotações e as condições de comercialização.
Mesmo com a possibilidade de redução na colheita, a área destinada à soja deve aumentar. O levantamento estima 49,9 milhões de hectares cultivados em 2026/27, crescimento de 1,8%, equivalente a quase 1 milhão de hectares adicionais em relação à temporada anterior. Entretanto, caso a produtividade reproduza as condições observadas no El Niño de 2023/24, a produção de 163,6 milhões de toneladas ficaria 9,9% abaixo das 181,5 milhões de toneladas consideradas para a safra 2025/26.
“A área plantada é apenas uma das variáveis que determinam o tamanho da safra. Então, em um cenário de maior adversidade climática, o desempenho por hectare ganha peso decisivo. É possível ampliar a área cultivada e, ainda assim, colher menos”, explica Sabrina.
As diferenças regionais também são relevantes para compreender os possíveis efeitos do fenômeno climático sobre a produção nacional. Mato Grosso e Rio Grande do Sul aparecem entre os estados de maior sensibilidade ao El Niño e de maior importância para o volume brasileiro de soja, mas apresentam resultados opostos nas simulações.
Em Mato Grosso, a área cultivada deve alcançar 12,7 milhões de hectares, expansão de 2,2%. No cenário neutro, a produtividade considerada é de 4.028 quilos por hectare, enquanto no cenário baseado no El Niño esse rendimento cai para 3.266 quilos por hectare. Com essa redução, a produção mato-grossense passaria de 51,2 milhões para 41,5 milhões de toneladas, diferença de 9,7 milhões de toneladas entre os cenários.
No Rio Grande do Sul, a simulação aponta movimento contrário. A área projetada chega a 7,1 milhões de hectares, crescimento de 2,9%, enquanto a produtividade considerada aumenta de 2.342 para 3.117 quilos por hectare no cenário de El Niño. Nesse caso, a produção gaúcha passaria de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas, acréscimo de 5,6 milhões de toneladas em relação ao cenário neutro.
Segundo a Serasa Experian, as diferenças estão relacionadas à maneira como as condições de chuva podem afetar o desenvolvimento das lavouras em cada região. Em Mato Grosso, a maior irregularidade das precipitações e a ocorrência de veranicos podem prejudicar o estabelecimento da cultura, provocar atrasos no plantio e aumentar o risco de falhas na emergência das plantas. Em situações mais severas, essas condições podem exigir replantio e comprometer o potencial produtivo.
No Rio Grande do Sul, a maior disponibilidade de água associada ao El Niño pode reduzir os efeitos da estiagem durante fases importantes do desenvolvimento da soja. Entretanto, o benefício depende da distribuição das precipitações ao longo do ciclo.
“Já no Rio Grande do Sul, por outro lado, a maior disponibilidade hídrica típica de anos de El Niño é capaz de reduzir o risco de estiagem durante fases críticas da cultura e favorecer a produtividade. No entanto, esse benefício depende da distribuição das chuvas, já que volumes excessivos também podem atrasar a semeadura e aumentar a incidência de doenças”, acrescenta Sabrina.