A soja sustentável ainda representa uma parcela pequena da produção mundial, apesar dos avanços em tecnologia, rastreabilidade e certificação. Durante a Conferência Internacional da RTRS de 2026, o especialista em inovação e pensamento sistêmico Mark Stevenson destacou que a soja certificada pelo Padrão RTRS corresponde a aproximadamente 1,9% da produção global, evidenciando o desafio de ampliar a adoção de práticas responsáveis na cadeia produtiva.
Em 2025, a RTRS alcançou o recorde de 11,2 milhões de toneladas de soja certificada, alta de 80% em relação a 2024. No mesmo período, o consumo de material certificado chegou a 8,1 milhões de toneladas, crescimento de 8,1%. Os números mostram avanços, mas também reforçam a necessidade de ampliar as oportunidades comerciais e os compromissos de compra para dar escala à produção responsável.
Certificação da soja avança, mas ainda representa uma pequena parcela
O crescimento da soja certificada demonstra o potencial de expansão das práticas sustentáveis. No entanto, o percentual ainda reduzido em relação à produção global indica que os avanços precisam alcançar uma parcela maior do mercado.
Para que isso aconteça, o aumento da oferta certificada precisa ser acompanhado pelo reconhecimento dessas práticas por compradores e indústrias. A construção de oportunidades comerciais e de compromissos concretos de compra é apontada como parte fundamental desse processo.
A sustentabilidade também exige investimentos dos produtores. A adoção de padrões de certificação envolve adequações nas propriedades, documentação, auditorias e gestão, esforços que precisam gerar benefícios econômicos concretos.
Nesse cenário, compradores e indústrias têm um papel importante na remuneração dessas práticas e na criação de mecanismos que ofereçam previsibilidade aos produtores que precisam manter a certificação ao longo do tempo.
Pequenos produtores são fundamentais para ampliar a soja responsável
A inclusão dos pequenos agricultores está entre os desafios para expandir a produção certificada. Atualmente, mais de 90% dos produtores certificados pela RTRS são pequenos produtores, totalizando mais de 84 mil agricultores, principalmente na Índia e em Uganda. A certificação em grupo é uma das experiências que demonstram como é possível ampliar o acesso a esses mecanismos. Ainda assim, é necessário reduzir barreiras e adaptar os processos às diferentes realidades produtivas.
A ampliação da participação dos pequenos produtores depende de condições que tornem a certificação acessível e economicamente viável, sem desconsiderar os investimentos necessários para cumprir os requisitos estabelecidos.
Rastreabilidade e certificação ganham importância no comércio internacional
As exigências do comércio internacional também aumentam a relevância da produção responsável. Regulamentações como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) ampliam a necessidade de rastrear mercadorias e comprovar sua origem. Nesse contexto, tecnologias como imagens de satélite, bases geoespaciais e sistemas digitais contribuem para acompanhar mudanças no uso da terra e identificar riscos.
Entretanto, atender às exigências regulatórias não significa, necessariamente, construir uma cadeia plenamente sustentável. Para que as ferramentas de monitoramento produzam resultados concretos, elas precisam estar associadas a critérios confiáveis, processos de verificação e decisões que considerem os impactos ambientais, sociais e econômicos.
A certificação pode contribuir nesse processo ao oferecer uma estrutura reconhecida internacionalmente para verificar práticas de produção responsável, ampliar a transparência e fortalecer a confiança entre os diferentes participantes da cadeia de suprimentos.
Sustentabilidade e competitividade precisam caminhar juntas
A experiência acumulada ao longo de duas décadas da RTRS reforça a importância de conciliar sustentabilidade e competitividade. A conservação dos recursos naturais está relacionada à continuidade da produção agrícola e à resiliência dos negócios.
O desafio, porém, não pode ser enfrentado isoladamente por uma organização ou por um único segmento da cadeia. Produtores, empresas, instituições financeiras, varejistas e sociedade civil precisam fortalecer o diálogo e buscar uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades.
Os fóruns da RTRS são apontados como espaços para promover essa articulação e construir compromissos entre os diferentes atores. A proposta é ir além da criação de padrões e avançar na implementação de medidas que ampliem a produção responsável.
Os resultados de 2025 indicam que a soja certificada está avançando, mas a expansão em escala depende de mudanças estruturais. O desafio para os próximos anos é fazer com que produzir de forma responsável deixe de ser apenas um diferencial de mercado e se torne uma prática mais acessível, economicamente viável e consolidada na cadeia global da soja.