Por Aline Merladete com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo
A umidade dos grãos é um dos principais fatores que determinam a qualidade do trigo na colheita e no armazenamento. A escolha do momento de colher, associada à regulagem das máquinas e ao processo de secagem, influencia diretamente as perdas no campo, os custos operacionais e a classificação comercial do produto.
De acordo com Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo, nas principais áreas da Região Sul Brasileira, produtoras de trigo, a colheita ocorre entre agosto e dezembro, período em que a ocorrência de chuvas e as variações de temperatura podem dificultar a retirada dos grãos no ponto adequado.
Quando o trigo é colhido com umidade elevada, aumenta o risco de danos mecânicos, amassamento dos grãos e necessidade de secagem mais intensa. Já a colheita com umidade muito baixa favorece a quebra de grãos e as perdas por debulha natural, quando eles se desprendem das espigas antes ou durante a operação.
A definição do momento de colher deve considerar o estágio de maturação, a medição da umidade em diferentes pontos da lavoura e a previsão do tempo. A capacidade de secagem e armazenamento disponível na propriedade também precisa entrar no planejamento.
Regulagem da colhedora e secagem influenciam as perdas
Ubirajara Fontoura explica que, a regulagem da colhedora deve acompanhar as mudanças na umidade dos grãos ao longo do dia. Velocidade de avanço, altura de corte, rotação do cilindro, abertura do côncavo e ventilação precisam ser ajustadas conforme as condições da lavoura.
O monitoramento das perdas atrás da máquina permite identificar a necessidade de correções durante a operação. Em áreas com acamamento ou maturação desuniforme, os ajustes exigem atenção adicional.
Após a colheita, a secagem tem a função de reduzir a umidade dos grãos até níveis seguros para armazenamento. O processo deve ser controlado, pois temperaturas excessivas ou secagem muito rápida podem provocar fissuras internas e comprometer características industriais do trigo.
Em grãos destinados à panificação, o cuidado é especialmente importante. Condições inadequadas de secagem podem afetar as proteínas e o amido, prejudicando a força do glúten e o comportamento da farinha na produção de alimentos.
Os danos mecânicos aos grãos poderão permitir a entrada de fungos que reduzem a qualidade dos grãos para a indústria e poderão afetar a saúde animal e humana.
Outro ponto de atenção é a mistura de lotes com diferentes teores de umidade. Essa prática pode favorecer a formação de regiões mais quentes e úmidas dentro dos silos, aumentando o risco de desenvolvimento de fungos e insetos.
A aeração, realizada pela passagem forçada de ar pela massa de grãos, ajuda a uniformizar a temperatura e reduzir a possibilidade de condensação de umidade durante o armazenamento.
Além das perdas físicas, falhas no manejo pós-colheita podem resultar em descontos por impurezas, grãos ardidos e excesso de umidade. Em situações mais graves, a deterioração pode comprometer a qualidade industrial e a segurança do produto.
O planejamento da colheita por talhões, a medição frequente da umidade e a adequação do ritmo de trabalho à capacidade dos secadores são medidas que ajudam a preservar o resultado da safra. O acompanhamento das condições de armazenamento completa esse processo, reduzindo o risco de perdas depois que o trigo deixa a lavoura.