Procuradora da República orienta sobre responsabilidade criminal no campo
Nova lei dos agrotóxicos exige atenção de profissionais à responsabilidade criminal
Foto: Ana Paula Durand
O evento Receituário Agronômico: boas práticas, segurança alimentar e responsabilidade técnica, realizado na manhã desta sexta-feira (20), em Porto Alegre, também trouxe à tona discussões sobre os impactos jurídicos das mudanças na legislação de agrotóxicos, especialmente no campo da responsabilidade criminal.
A procuradora da República Flávia Rigo Nóbrega destacou que a nova legislação trouxe alterações significativas, principalmente ao reduzir o número de condutas tipificadas como crime.
Segundo ela, uma das principais dúvidas que surgem no setor é se determinadas práticas deixaram de ser consideradas criminosas. “Fica aquela questão: então quer dizer que essa conduta deixou de ser criminalizada? Eu não entendo que esse seja o melhor entendimento”, afirmou.
A procuradora explicou que a antiga legislação, como a Lei 7.802, previa dispositivos mais específicos, incluindo responsabilidades diretas do profissional técnico. Com a nova lei, esses dispositivos foram revogados, o que gerou uma aparente lacuna.
“É importante ter em mente que a Lei 7.802 foi totalmente revogada. Mas isso não significa que as interpretações construídas a partir dela, e também da Lei de Crimes Ambientais, tenham sido abandonadas”, ressaltou.
Agrotóxicos proibidos continuam entrando no Brasil pela fronteira, aponta Ministério Público
Receituário agronômico vai além da burocracia, afirmam especialistas
De acordo com Flávia, a nova Lei nº 14.785 trouxe apenas duas condutas expressamente tipificadas como crime, o que representa uma redução significativa no campo da responsabilização penal. Ainda assim, ela alertou que isso não elimina a possibilidade de enquadramento criminal.
“A lei reduziu drasticamente o espaço de atuação criminal, mas isso não quer dizer que determinadas condutas deixaram de ser puníveis”, explicou.
A procuradora destacou que, embora alguns verbos e tipos penais não tenham sido repetidos na nova legislação, eles continuam contemplados em outros dispositivos legais.
“Quando a gente faz uma análise mais aprofundada, percebe que várias dessas condutas ainda encontram respaldo em outras normas. Elas não desapareceram do ordenamento jurídico”, afirmou.
Segundo ela, o desafio agora está na interpretação dessas normas e na aplicação prática da legislação. “A gente precisa olhar para frente, mas sem esquecer os pressupostos que já existiam. A interpretação jurídica continua sendo fundamental nesse cenário”, disse.
A fala reforça a preocupação com a responsabilização de profissionais e demais envolvidos na cadeia produtiva, especialmente diante de um contexto em que o uso de agrotóxicos segue sendo tema sensível para a saúde pública e o meio ambiente.
O debate integra uma série de painéis técnicos que discutem desde a responsabilidade civil e administrativa até os desafios da fiscalização e da atuação profissional no campo.