Foi-se o tempo em que o lucro era considerado pecado. Isso foi lá pelos idos da Idade Média, quando religião e legislação se confundiam. Hoje, pelo contrário, o lucro é moda, é bonito e, pelo andar da carruagem, faz até bem para a saúde… principalmente dos bancos.
Nesse mês de fevereiro foram divulgados os lucros líquidos dos bancos brasileiros em 2005. Números grandiosos, assustadores e, porque não, vergonhosos. Num país onde o salário mínimo é de R$ 300 (cerca de US$ 140, um dos menores do mundo), qualquer lucro de empresa que ultrapasse a casa do bilhão deveria, no mínimo, ter uma boa parte direcionada para causas assistenciais, o que dificilmente acontece.
Começando pelos dois maiores bancos federais do país, o Banco do Brasil alcançou o estrondoso lucro líquido de R$ 4,154 bi, 37,4% maior do que o ano anterior. Já a Caixa Econômica Federal conseguiu um número mais "humilde": R$ 2,07 bilhões, 46% maior do que 2004. Esses números se devem principalmente pela grande procura de crédito, por parte de pessoas físicas e pequenas empresas. No caso da CEF, se deve também à mudança de perfil da instituição, que deixou de ser um banco apenas social para atender a toda demanda que um banco particular tem, incluindo ainda o crédito habitacional, serviço já tradicional na instituição.
Se somente esses dois resultados já assustam… calma, ainda tem mais: os bancos privados. O Bradesco mostrou que é realmente um banco completo, principalmente quando se trata de caixa. Foi o banco de capital aberto que mais lucrou em um ano em toda a história do Brasil e da América Latina, alcançando o espantoso número de R$ 5,5 bilhões. O segundo colocado, Itaú, chegou bem perto, mas ficou "apenas" com R$ 5,251 bi. Outros bancos conseguiram marcas menos expressivas, mas todas acima da casa do bilhão: Unibanco, com R$ 1,838 bi e Santander Banespa, com R$ 1.643 bi (que aliás, deve ter despendido uma boa soma para contratar os dois Ronaldos, Robinho, Kaká, Roberto Carlos e Cafú para a sua nova campanha, presente em todas as mídias possíveis e imaginárias).
Mas quem disse que lucrar R$ 5,5 bi em um ano só traz alegrias? O Bradesco está na lista negra de várias associações e sindicatos de bancários de todo o Brasil pelo simples motivos de ter sido o único banco que se negou a aumentar a porcentagem da participação nos lucros dos seus funcionários (algo em torno de 5% do lucro). A instituição também se negou a antecipar esse pagamento, ao contrário do Itaú, Real, Unibanco e HSBC, entre outros, que já fizeram o devido crédito. O Bradesco também vive um "drama" na área da saúde. Seu convênio médico e seguro-saúde, Saúde Bradesco, contratou profissionais da área administrativa para negociar novos valores de honorários médicos e custos de exames. Lembre-se que "negociar" é uma palavra muito sutil, que serve para substituir o tão grosseiro "cortar gastos". Com isso, a operadora pretende diminuir o número de credenciados e pagar pouco aos que sobreviverem à pressão. O resultado já é fácil de ser previsto. Clientes do Saúde Bradesco terão menos opções na hora de escolher seus médicos e não terão a qualidade a que estão acostumados. O Colégio Brasileiro de Radiologia, ligado a AMB, Associação Médica Brasileira, em correspondência enviada a vários profissionais associados, informa que solicitou uma manifestação do Bradesco por escrito (o que não quer fazer, segundo a carta) e sugere que o atendimento a esse convênio seja suspenso, caso persista essa política.
É claro que o banco Bradesco é uma empresa e o Saúde Bradesco é outra, mas já que a instituição se diz tão "completa" (é o que diz a propaganda), ao menos poderia estudar uma forma de se utilizar de tão grande lucro para o bem dos clientes do convênio médico, para que este não perca a qualidade e se transforme em apenas mais um no meio dessas centenas de operadoras de saúde que não garantem um bom atendimento a seus clientes e sequer merecem ser reconhecidas pela ANS, Agência Nacional da Saúde.
A verdade é única: Poucos estão ganhando Bilhões e muitos não ganham para a própria subsistência e acabam pagando o preço da humilhação para viver em um País que podemos considerar um paraiso dos ganhos fáceis.