ARROZ E O SALÁRIO-MÍNIMO
Nos últimos doze meses, o setor orizícola brasileiro viu os preços pagos pela saca de arroz ao nível do produtor serem reduzidos a mais da metade. Impactando severamente a renda e o planejamento financeiro da cadeia produtiva. É de conhecimento de todos os elos envolvidos na atividade que, em produtos agrícolas como o arroz, os valores praticados pelo mercado são fortemente impactados pela lei da oferta e demanda; que o mercado opera em ciclos e que esses ciclos são estimulados por fatores como mudanças nos hábitos de consumo, questões geopolíticas, climáticas, crescimento ou diminuição da economia, dentre outros; e que, em algum dado momento, o preço tenderá alcançar um ponto de equilíbrio que satisfaça produtores e consumidores.
Sendo o arroz um produto de consumo de massa, que faz parte da mesa do brasileiro e que está inserido na formação do preço da cesta básica, seria possível encontrar alguma relação entre o salário-mínimo nacional e o valor recebido no campo?
Diante disto, segue análise de um período relevante de comparação compreendido entre janeiro de 2016 e novembro de 2025. Primeiramente apresento a fonte de coleta de dados, o recorte de pesquisa e as Tabelas de estudo. Logo a seguir seguem minhas reflexões a respeito.
Fonte de Coleta de Dados
- IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas aplicadas): Série histórica do salário-mínimo nacional;
http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid=1739471028
- BCB (Banco Central do Brasil): atualização dos preços divulgados pelo CEPEA, utilizando o IPCA – Índice de preços ao consumidor amplo – calculado e divulgado mensalmente pelo IBGE, sendo considerado a inflação oficial;
https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/exibirFormCorrecaoValores.do?method=exibirFormCorrecaoValores&aba=1
- CEPEA (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada): valores à vista pagos ao produtor.
https://www.cepea.org.br/br/consultas-ao-banco-de-dados-do-site.aspx
Metodologia e Recorte da Pesquisa
- Foi utilizado o preço médio mensal à vista, posto indústria, para saca de 50Kg;
- Última data analisada: 19/11/2025;
- Foi considerado o salário-mínimo na forma anual;
- Poder Compra (pdr.cpr): obtido através da divisão do salário-mínimo pelo indicador CEPEA de cada mês. Logo, quanto menor o resultado desta divisão (quociente), maior o preço pago ao produtor na referida data;
Tabelas de Estudo
- Tabela 1: levantamento mensal (2016 – 2025), servindo de base para os gráficos e reflexões;
Gráfico 1: elaborado pelo autor
A tabela 2, a seguir, apresenta de maneira resumida o preço médio da saca de arroz de cada um dos anos e suas respectivas relações de troca com o salário-mínimo vigente.
|
ANO |
2016 |
2017 |
2018 |
2019 |
2020 |
2021 |
2022 |
2023 |
2024 |
2025 |
Média |
|
Rel.trc |
19,35 |
23,31 |
24,20 |
23,03 |
15,51 |
14,36 |
16,15 |
14,10 |
12,58 |
21,33 |
18,39 |
|
Prç.Médio- R$/ sc |
45,88 |
40,58 |
39,76 |
43,51 |
73,46 |
77,66 |
75,60 |
95,26 |
112,80 |
73,47 |
67,80 |
Gráfico 2: elaborado pelo autor
Para fins de comparação, a tabela 3, abaixo, apresenta de maneira resumida o preço médio da saca de arroz, corrigido pelo IPCA, para cada um dos anos e suas respectivas relações de troca com o salário-mínimo vigente.
|
ANO |
2016 |
2017 |
2018 |
2019 |
2020 |
2021 |
2022 |
2023 |
2024 |
2025 |
Média |
|
Rel.trc |
19,35 |
23,31 |
24,20 |
23,03 |
15,51 |
14,36 |
16,15 |
14,10 |
12,58 |
21,33 |
18,39 |
|
Prç.Médio- R$/ sc |
72,39 |
61,84 |
58,41 |
61,65 |
100,74 |
99,32 |
87,78 |
105,69 |
120,02 |
74,65 |
84,25 |
Reflexões
Ressalvada as limitações do próprio objeto de análise e do instrumento escolhido para o cruzamento de dados, neste caso o salário-mínimo, algumas reflexões podem ser construídas:
- Analisando a tabela 01, é possível constatar que os preços recebidos pelos produtores se deterioram ao longo de todo o ano de 2025, culminando no mês de novembro que, até então, apresenta a pior relação com o salário-mínimo em todo o período avaliado.
Ainda assim, quando analisada apenas as médias anuais corrigidas pelo IPCA, os valores praticados em 2025 ainda são superiores aos anos de 2016, 2017, 2018 e 2019.
- Ao avaliar as tabelas 2 e 3, pode-se auferir que os movimentos ocorridos entre 2024 e 2025 foram em sentidos opostos e de maneira acentuada, ocasionando um afastamento dos preços em relação as suas médias. Logo, em alguns cenários possíveis, e sempre respeitando os fundamentos de oferta e demanda da cultura, não se pode descartar a ocorrência de movimentos de recomposição nos valores pagos pela saca de arroz ao nível do produtor, sem que isto constitua projeção ou garantia de comportamento futuro de preços.
- Considerando que a relação entre oferta e demanda esteja equilibrada e que não haja nenhum evento atípico, o que os dados nos mostram é que, a título ilustrativo, existem cenários em que os preços poderiam se aproximar de patamares observados historicamente, inclusive na faixa entre R$ 70,00 a R$ 80,00 por saca. Novamente, sem qualquer garantia ou compromisso de que tais níveis serão alcançados.
- Através da tabela 01, nota-se que a partir de 2020, houve um aumento na volatilidade nos preços ao longo dos meses. Dessa maneira, quem fez a comercialização da produção ao longo do ano, provavelmente tenha alcançado resultados mais satisfatórios do que a simples concentração em determinada época.
Os cenários e os dados avaliados e mencionados no presente texto, são apenas exercícios analíticos. Foram baseados em dados históricos e não devem ser interpretados como projeções de preços ou recomendações de investimento. Entretanto espera-se que sirva como um instrumento de provocação e auxílio para que o produtor encontre objetos de parâmetro de comparação como suporte para tomada de decisões na hora da comercialização da safra.
Márcio R. Santos
Assessor de Investimentos – Cultivar Capital
Corretora Nova Futura Investimentos
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O autor atua como assessor de investimentos vinculado à Corretora Nova Futura Investimentos e, no exercício de suas funções, pode vir a recomendar ou intermediar produtos financeiros relacionados aos temas aqui discutidos, o que pode configurar potencial conflito de interesses. Ainda assim, o presente texto reflete exclusivamente sua visão pessoal na data de publicação.