O Brasil detém a maior parcela da biodiversidade do Planeta e tem sido chamado internacionalmente a responder pelo descaso com que tem tratado o ambiente, de maneira que temos sido classificados pela opinião pública mundial como predadores ambientais. Isto tem levado à formação de conceitos e sugestões perigosas à soberania nacional, como o da internacionalização da Amazônia, idéia esta que nada mais é do que a materialização dos erros na condução da política de conservação e exploração de nossos recursos. Como tais cobranças não ficam apenas no plano retórico, mas atingem todos os programas que dependem de financiamento ou apoio internacional, nossos prejuízos tornam-se incomensuráveis.
O Rio Grande do Sul chegou a ser o campeão brasileiro da devastação florestal. A destruição de nossas florestas foi praticamente até às últimas conseqüências e com isto, uma quantidade imensa de espécies vegetais praticamente desapareceu do nosso cenário. Pouco resta hoje de nossa cobertura florestal nativa: dos aproximadamente 40 % de cobertura natural, ficaram apenas de 1,8 a 3,0% no máximo.
Entretanto, uma boa notícia veio com a finalização, em 2001, do Inventário Florestal Contínuo do Estado, executado pela UFSM, que estimou em 17,53 % a cobertura vegetal nativa atual do RS, mesmo que a maior parte dessas áreas em recuperação seja constituída de árvores de 5 a 8 metros de estatura, que comumente aparecem após o abandono dos campos (fase inicial de florestas secundárias). A que caberia este notável processo que aponta, não para a devastação, mas para uma crescente recuperação ambiental?
É bem verdade que com o advento de novas tecnologias, tem sido possível obter aumento na produção de alimentos, mesmo reduzindo a área de plantio, pelo incremento da produtividade. E que, se as tecnologias ditas convencionais esgotaram-se no seu potencial, a moderna biotecnologia oferece possibilidades de novos crescimentos da produtividade em novos patamares. Surge então o novo desafio do século 21 para a humanidade, que é o de produzir cada vez mais em áreas cada vez menores, não só para preservar o ambiente, como também para recuperá-lo, retomando e reciclando tecnologias utilizadas até então de forma muito empírica, à luz dos novos conhecimentos.
No caso da recuperação que está havendo, pode parecer um paradoxo, mas o plantio de espécies exóticas, como o eucalipto e o pinus, tão contestado por grupos ambientalistas, tem ajudado muito a alavancar esse processo de restauração. Pelo crescimento rápido e múltipla utilidade do gênero Eucalyptus, não só na grande indústria e na construção, o cultivo dessa espécie florestal tornou-se rotineiro entre os produtores rurais, que passaram a utilizá-lo na propriedade para quase todas as finalidades onde se requeira madeira. A madeira do gênero Pinnus tem sido também usada largamente na fabricação de móveis e laminados em geral, que se não apresentam ótima qualidade, pelo menos tornaram estes mais acessíveis a quase todas as classes sociais. Assim, é óbvio que o eucalipto e o pinus são fatores importantes na preservação das espécies nativas e ainda estão contribuindo para a recuperação do que foi devastado. Isto não significa que o cultivo de espécies exóticas seja uma alternativa sem riscos ambientais, mas o debate deve ser cientificamente embasado.
A campanha cega contra o cultivo de espécies exóticas carece de argumentação científica e na verdade presta um grande desserviço às causas ambientais e mesmos sociais. Não há outra opção que não seja fundamentada na ciência, quando se trata de questões relativamente ao futuro da humanidade. A ciência, como disse o cientista Carl Sagan, "é uma vela na escuridão e, como a democracia, está longe de ser um instrumento perfeito, mas é o melhor que nós temos".
A luz que a vela nos fornece ainda é pouca, pois a ciência ainda está na sua infância, mas sem ela, nas trevas, não temos como escolher para onde ir. Ciência não se combina com paixão religiosa ou partidária. Sempre que isto ocorre tem sido por imposição e a luz da vela inexoravelmente tem se apagado.