Várias ciências devem ser utilizadas na resolução dos problemas ambientais de qualquer atividade humana. Dentre essas ciências devemos considerar a História (estudo da ação humana ao longo do tempo paralelo ao estudo dos processos e dos eventos ocorridos no passado). Entre os tipos de História, os que mais nos interessam é a Pragmática (objetiva mudar os costumes políticos e corrigir os contemporâneos, utilizando o caminho de mostrar os erros do passado) e a Científica (há uma preocupação com a verdade, com o método, com a análise crítica de causas e conseqüências, tempo e espaço).
Os problemas ambientais decorrentes da atividade suinícola não são novidade para nós, sabemos há muito, de suas conseqüências e desta forma várias ações, projetos, tecnologias, políticas foram propostas. Certamente, todas estas, de alguma forma, contribuíram para melhoria da qualidade ambiental das regiões suinícolas bem como da convivência desta produção com o ambiente. Mas desafios ainda existem e se tornarão maiores se considerarmos a potencial expansão desta atividade no Brasil, baseado em estudos de várias agências como o Banco Mundial, OCDE e a FAO. Para superar estes desafios, devemos aprender com o passado, para que os erros sejam corrigidos e os acertos mantidos.
A utilização de biodigestores no tratamento de dejetos de suínos é um capítulo a parte na histórica tentativa de resolver os problemas ambientais desta atividade. Neste momento, o país vive a terceira onda desta História na qual esta tecnologia tem sido colocada como a única tecnologia capaz de resolver os problemas ambientais e, além disso, gerar créditos de carbono. Se houveram outras duas ondas, devemos perguntar: por quê elas foram ondas, simplesmente vieram e foram embora? O que aconteceu para que muitos biodigestores implantados no passado não estejam funcionando até o presente? Por quê muitos suinocultores que tinham estes biodigestores, hoje dizem que esta tecnologia não funciona? Quais foram os acertos e erros nestas duas ondas anteriores?
As perguntas acima já demostram que o processo de biodigestão anaeróbia não é algo novo, tanto para a suinocultura como para outras produções animais. Existe uma história, que deve ser considerada no presente, pois atualmente, já podem ser observados problemas iguais aos ocorridos no passado em relação ao manejo dos biodigestores, e que se não forem corrigidos, novamente, estaremos comprometendo o uso desta tecnologia. Só que desta vez este comprometimento poderá ter conseqüências mais sérias, pois créditos de carbono já estão sendo negociados no mercado internacional e se os biodigestores não funcionarem, de onde virão os créditos?
A utilização de biodigestores é algo muito antigo, tão antigo, que eles já foram até confundidos com fenômenos sobrenaturais e manifestações de seres místicos ou folclóricos. Então temos uma riquíssima quantidade de informações para analisarmos e aprendermos.
Duas lições que já deveríamos ter aprendido. A primeira: não existe uma única tecnologia para resolver os problemas ambientais da suinocultura, existem produtores e propriedades, ou seja, condições produtivas, econômicas, sociais, ambientais e culturais, que devem ser diagnosticadas e aí sim se propor qual a melhor tecnologia, considerando estas condições. A segunda: qualquer solução que esteja baseada somente no econômico não se perpetuará no tempo, entende-se venda de créditos de carbono, e não resolverá o problema ambiental.
Os biodigestores no mundo
“Em 1806, na Inglaterra, Humphrey Davy identificou um gás rico em carbono e dióxido de carbono, resultante da decomposição de dejetos animais em lugares úmidos. Ao que parece, apenas em 1857, em Bombaim, Índia, foi construída a primeira instalação operacional destinada a produzir gás combustível, para um hospital de hansenianos. Nessa mesma época, pesquisadores como Fisher e Schrader, na Alemanha e Grayon, na França, entre outros, estabeleceram as bases teóricas e experimentais da biodigestão anaeróbia. Posteriormente, em 1890, Donald Cameron projetou uma fossa séptica para a cidade de Exeter, Inglaterra, sendo o gás produzido utilizado para iluminação pública.” (Nogueira, 1986).
“Com o advento da 20 Guerra Mundial, a biodigestão foi bastante difundida entre os países europeus, usando-se o biogás em substituição aos derivados de petróleo, através da queima direta e o uso em veículos. Terminado o conflito, caiu substancialmente o uso desta tecnologia, com exceção da Índia, China e África do Sul, onde continuaram seu desenvolvimento em propriedades de pequeno porte.” (Gaspar, 2003).
Inegavelmente, a pesquisa e desenvolvimento de biodigestores desenvolveram-se muito na Índia, onde, em 1939, o Instituto Indiano de Pesquisa Agrícola, em Kanpur, desenvolveu a primeira usina de gás de esterco. Segundo Nogueira (1986), o sucesso obtido animou os indianos a continuarem as pesquisas, formando o Gobar Gás Institute (1950). Tais pesquisas resultaram em grande difusão da metodologia de biodigestores como forma de tratar os dejetos animais, obter biogás e ainda conservar o efeito fertilizante do produto final. Foi esse trabalho pioneiro, realizado na região de Ajitmal (Norte da Índia), que permitiu a construção de quase meio milhão de unidades de biodigestão no interior daquele país.
“A utilização do biogás, também conhecido como gobar gás (que em indiano significa gás de esterco), como fonte de energia motivou a China a adotar a tecnologia a partir de 1958, onde, até 1972, já haviam sido instalados 7,2 milhões de biodigestores na região do Rio Amarelo.” (Gaspar, 2003).
Para os chineses, a implantação de biodigestores transformou-se em questão vital. Um país continental, com excesso de população, a China buscou, durante os anos de 1950 e 1960, no auge da Guerra Fria, por uma alternativa de descentralização energética. Baseavam-se em uma lógica simples. No caso de uma guerra que poderia significar a destruição quase total da civilização,?o ataque às centrais energéticas, representaria o fim de toda atividade econômica. Isso porque a energia deixaria de ser disponível nos grandes centros, mas naqueles pequenos centros, a pequenas unidades de biodigestão conseguiriam passar incólumes ao poder inimigo. A descentralização, portanto, implica em criar unidades suficientes nas pequenas vilas, vilarejos e regiões mais longínquas Barrera citado por (Gaspar, 2003).
“Hoje em dia, contudo, o motivo da manutenção e expansão do programa de biodigestores é bem mais simples e urgente. Como a China possui milhões de pessoas para alimentar, não é possível ou recomendável mecanizar a atividade agrícola em larga escala, pois o uso de tratores e demais implementos resultaria em um índice de desemprego rural alarmante, criando uma massa de trabalhadores ociosos e descontentes. Um perigo social e político nem um pouco desejável. Assim, o governo chinês optou pelo aproveitamento e aperfeiçoamento de rudimentares técnicas de cultivo do solo, com os biodigestores desempenhando papel de destaque.” (Gaspar, 2003).
Gaspar (2003), ainda destaca que encontram-se dois extremos da utilização de biodigestores. Chineses buscam, nessa tecnologia, o biofertilizante necessário para produção dos alimentos necessários ao seu excedente de população. A energia do biogás não conta muito frente à auto-suficiência em petróleo. Indianos, precisam dos biodigestores para cobrir o imenso déficit de energia. Com isso, foram desenvolvidos dois modelos diferentes de biodigestor: o modelo chinês, mais simples e econômico e o modelo indiano, mais sofisticado e técnico, para aproveitar melhor a produção de biogás.
Ross et al. (1996), observaram que a maior parte das aplicações do processo de biodigestão anaeróbia no meio rural foram direcionadas para os dejetos animais. Durante as décadas de 70 e 80 houve considerável interesse na produção de energia a partir dos dejetos, mas muitas destas instalações não operaram por muito tempo, ou não foram construídas como planejado, resultado do custo excessivo e das dificuldades de operação.
As dificuldades citadas por Ross et al. (1996), serão as mesmas que ocorreram no Brasil, como demonstrado por estudos da Emater e da Embrapa Suínos e Aves. Especificamente, uma delas, dificuldade de operação, e a que, novamente, tem se mostrado como um limitante ao correto manejo dos biodigestores na atualidade.

