Imprensa, Lava Jato e o mundo sob a ameaça de guerra

                                                                                                                   ANTONIO CARLOS MOREIRA*

O tsunami das listas da operação Lava Jato tomou conta da imprensa brasileira. Que assim seja! Nem se pense em reclamar do espaço e horas que jornais, rádios e TVs vêm dando a esse fato – afinal, houve um tempo em que notícias que envolviam figuras do poder e “todos os homens do presidente” eram abrandadas ou, pior, sequer chegavam ao público sem o crivo de uma férrea censura.

A overdose necessária sobre a operação Lava Jato tem um outro aspecto elogiável. Nenhum dos indiciados nas listas do procurador da República Rodrigo Janot e do ministro do STJ escapa do destaque crítico dos grandes veículos de imprensa. Claro, alguns ganham maior espaço nas páginas ou mais minutos devido ao próprio poder que acumularam nos últimos anos.

Sem mídia golpista

Por exemplo, o Jornal Nacional, tão criticado (durante o movimento Diretas-Já, foi criado o jingle “o povo não é bobo, fora Rede Globo), teve o esmero de classificar os indiciados pelo seu “status político” – não poupando de presidentes da Câmara e do Senado e governadores, de líderes partidários a ex-presidentes da República.

Ou seja, a cobertura que se vê na grande imprensa joga para o limbo das boas frases de efeito, mas carente de fatos, a idéia da “mídia golpista”, tão empregada por setores à esquerda do pensamento – e da própria mídia.

Portanto, muito bem-vinda a cobertura jornalística a essa avalanche de mazelas que o Brasil está descobrindo, estupefato. Contudo, há um aspecto negativo no desempenho dos veículos de Comunicação brasileiros nas duas últimas semanas. E que não tem nada a ver com a Lava Jato.

Risco de guerra mundial?

Trata-se da inexpressiva cobertura jornalística das editorias internacionais da imprensa brasileira à crise política e provocações armamentícias com Estados Unidos e Coréia da Norte no epicentro do furacão, e em cuja borda se preparam nada menos do que Rússia e China.

Nesta quarta-feira, 12, após o ataque determinado por Donald Trump contra um quartel da Síria e manobras de navios porta-aviões americanos próximas à península sul-coreana, Kim Jong-Um, presidente da Coréia do Norte, ameaçou “arrasar os Estados Unidos”. Ainda que seja mera bravata de Kim Jong, seu histórico não permite desconsiderá-la.

Em nota oficial, o governo norte-coreano ratificou o que seria bravata: “Se a Coréia for atacada, lançará a missão sagrada de dar um golpe sem piedade contra quem fere a dignidade do líder supremo".

Após novo bombardeio americano, desta vez contra possíveis posições terroristas no Afeganistão, neste sábado, 15, Kim Jong promoveu um desfile público nas ruas de Pyongyang,  onde exibiu 56 mísseis de alcance continental. Em seu discurso, reiterou a ameaça: “A Coréia está pronta para a guerra nuclear”.

A imprensa internacional se alarma

Antes sejam apenas parte de um grande jogo do xadrez geopolítico mundial onde as potências procuraram reposicionar suas peças. Donald Trump, de seu lado, não precisou de mais do que cem dias de governo para começar a se dar conta de que o desafio de governar uma nação, sobretudo uma potência, exige muito mais sensatez e seriedade do que produzir realities-show para suas emissoras de TV. Kim Jong, Waldimir Putin, Bashar a-Assad e chefes do Estado Islâmico compõem o restante do tabuleiro no qual a única certeza é a de que os perdedores são milhares de mortos das populações civis.

De volta à imprensa brasileira. Na noite de sexta, 14, nos telejornais, quase nada se destacou sobre as ameaças Estados Unidos-Coréia do Norte. De novo: a preocupação nacional diante dos descalabros revelados pela Lava Jato justificariam este foco nas coberturas.

Dia seguinte, sábado, um passeio pela agradável Avenida Paulista, na Capital, vazia graças ao feriado, e a parada obrigatória numa de suas espaçosas bancas de jornais e revistas: eis que chama a atenção o pouco destaque, e mesmo ausência em alguns veículos, de manchetes sobre a crise internacional. As capas das duas principais revistas, Veja e Época, cometem o sempre incômodo jornalístico de repetir a chamada do concorrente (“A república da Odebrecht”), mas sequer uma menção menor sobre o temor mundial do momento.

O espírito do jornalista com anos de redação não se conformou: no smartphone, percorre sites da imprensa internacional. CNN, BBC, Der Spiegel e outras publicações estampam fotos do exército coreano em prontidão para a guerra e as manchetes expõem seus receios diante do cenário que ameaça a paz mundial.

No Brasil, as redações enfrentam outra guerra – a financeira

Nos veículos de imprensa brasileiros, as redações lutam contra o definhamento de profissionais. Têm cada vez menos repórteres em investigação – nos gabinetes, nos órgãos públicos, nas ruas – até as notícias de trânsito são obtidas nos aplicativos Waze e Google Maps. Sem falar da ausência de enviados especiais, coisa do passado.

As estações de trabalho são enxugadas pelas crises econômicas e pela redução de espaços de anúncios, que competem com a mídia virtual, na internet.

Para dar conta das coberturas, parece que as redações precisam fazer diárias “escolhas de Sofia”: priorizam um acontecimento importante aqui, e por isso dispõem de menos tempo para uma análise acolá.

Por exemplo: as imagens que chegam das agências internacionais sobre o ataque com gás sarin à população na Síria são, sem dúvida, horripilantes; mas, diariamente são mortas outras centenas de inocentes em bombardeios ou fuzilados à queima-roupa, que apenas entram rapidamente no noticiário, numa fria contagem sem uma análise mais aprofundada.

Que a imprensa nacional continue a revelar, sem piedade de nossas náuseas, a desmoralização que tomou conta de grande parte dos gabinetes legislativos e de governos. Mas o Brasil não é uma ilha. Em que pesem nossos dramas, que parecem infindáveis, interessa-nos o que acontece mundo afora. Sobretudo quando pairam ameaças de bombas atômicas sobre milhões de pessoas.

O tsunami das listas da operação Lava Jato tomou conta da imprensa brasileira. Que assim seja! Nem se pense em reclamar do espaço e horas que jornais, rádios e TVs vêm dando a esse fato – afinal, houve um tempo em que notícias que envolviam figuras do poder e “todos os homens do presidente” eram abrandadas ou, pior, sequer chegavam ao público sem o crivo de uma férrea censura.

A overdose necessária sobre a operação Lava Jato tem um outro aspecto elogiável. Nenhum dos indiciados nas listas do procurador da República Rodrigo Janot e do ministro do STJ escapa do destaque crítico dos grandes veículos de imprensa. Claro, alguns ganham maior espaço nas páginas ou mais minutos devido ao próprio poder que acumularam nos últimos anos.

Sem mídia golpista

Por exemplo, o Jornal Nacional, tão criticado (durante o movimento Diretas-Já, foi criado o jingle “o povo não é bobo, fora Rede Globo), teve o esmero de classificar os indiciados pelo seu “status político” – não poupando de presidentes da Câmara e do Senado e governadores, de líderes partidários a ex-presidentes da República.

Ou seja, a cobertura que se vê na grande imprensa joga para o limbo das boas frases de efeito, mas carente de fatos, a idéia da “mídia golpista”, tão empregada por setores à esquerda do pensamento – e da própria mídia.

Portanto, muito bem-vinda a cobertura jornalística a essa avalanche de mazelas que o Brasil está descobrindo, estupefato. Contudo, há um aspecto negativo no desempenho dos veículos de Comunicação brasileiros nas duas últimas semanas. E que não tem nada a ver com a Lava Jato.

Risco de guerra mundial?

Trata-se da inexpressiva cobertura jornalística das editorias internacionais da imprensa brasileira à crise política e provocações armamentícias com Estados Unidos e Coréia da Norte no epicentro do furacão, e em cuja borda se preparam nada menos do que Rússia e China.

Nesta quarta-feira, 12, após o ataque determinado por Donald Trump contra um quartel da Síria e manobras de navios porta-aviões americanos próximas à península sul-coreana, Kim Jong-Um, presidente da Coréia do Norte, ameaçou “arrasar os Estados Unidos”. Ainda que seja mera bravata de Kim Jong, seu histórico não permite desconsiderá-la.

Em nota oficial, o governo norte-coreano ratificou o que seria bravata: “Se a Coréia for atacada, lançará a missão sagrada de dar um golpe sem piedade contra quem fere a dignidade do líder supremo".

Após novo bombardeio americano, desta vez contra possíveis posições terroristas no Afeganistão, neste sábado, 15, Kim Jong promoveu um desfile público nas ruas de Pyongyang,  onde exibiu 56 mísseis de alcance continental. Em seu discurso, reiterou a ameaça: “A Coréia está pronta para a guerra nuclear”.

A imprensa internacional se alarma

Antes sejam apenas parte de um grande jogo do xadrez geopolítico mundial onde as potências procuraram reposicionar suas peças. Donald Trump, de seu lado, não precisou de mais do que cem dias de governo para começar a se dar conta de que o desafio de governar uma nação, sobretudo uma potência, exige muito mais sensatez e seriedade do que produzir realities-show para suas emissoras de TV. Kim Jong, Waldimir Putin, Bashar a-Assad e chefes do Estado Islâmico compõem o restante do tabuleiro no qual a única certeza é a de que os perdedores são milhares de mortos das populações civis.

"O Brasil não é uma ilha.
Em que pesem nossos dramas,
que parecem infindáveis, interessa-nos
?o que acontece mundo afora."

De volta à imprensa brasileira. Na noite de sexta, 14, nos telejornais, quase nada se destacou sobre as ameaças Estados Unidos-Coréia do Norte. De novo: a preocupação nacional diante dos descalabros revelados pela Lava Jato justificariam este foco nas coberturas.

Dia seguinte, sábado, um passeio pela agradável Avenida Paulista, na Capital, vazia graças ao feriado, e a parada obrigatória numa de suas espaçosas bancas de jornais e revistas: eis que chama a atenção o pouco destaque, e mesmo ausência em alguns veículos, de manchetes sobre a crise internacional. As capas das duas principais revistas, Veja e Época, cometem o sempre incômodo jornalístico de repetir a chamada do concorrente (“A república da Odebrecht”), e sequer uma menção menor sobre o temor mundial do momento.

O espírito do jornalista com anos de redação não se conformou: no smartphone, percorre sites da imprensa internacional. CNN, BBC, Der Spiegel e outras publicações estampam fotos do exército coreano em prontidão para a guerra e as manchetes expõem seus receios diante do cenário que ameaça a paz mundial.

No Brasil, as redações enfrentam outra guerra – a financeira

Nos veículos de imprensa brasileiros, as redações lutam contra o definhamento de profissionais. Têm cada vez menos repórteres em investigação – nos gabinetes, nos órgãos públicos, nas ruas – até as notícias de trânsito são obtidas nos aplicativos Waze e Google Maps. Sem falar da ausência de enviados especiais, coisa do passado.

As estações de trabalho são enxugadas pelas crises econômicas e pela redução de espaços de anúncios, que competem com a mídia virtual e, em sua maioria superficial, da internet.

Para dar conta das coberturas, parece que as redações precisam fazer diárias “escolhas de Sofia”: priorizam um acontecimento importante aqui, e por isso dispõem de menos tempo para uma análise acolá.

Por exemplo: as imagens que chegam das agências internacionais sobre o ataque com gás sarin à população na Síria são, sem dúvida, horripilantes; mas, diariamente são mortas outras centenas de inocentes em bombardeios ou fuzilados à queima-roupa, que apenas entram rapidamente no noticiário, numa fria contagem sem uma análise mais aprofundada.

Que a imprensa nacional continue a revelar, sem piedade de nossas náuseas, a desmoralização que tomou conta de grande parte dos gabinetes legislativos e de governos. Mas o Brasil não é uma ilha. Em que pesem nossos dramas, que parecem infindáveis, interessa-nos o que acontece mundo afora. Sobretudo quando pairam ameaças de bombas atômicas sobre milhões de pessoas.

*Jornalista especializado em Economia e diretor da SOMA ESTRATÉGICA - Comunicação Corporatva

 

 

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