A utilização de sistemas silvipastoris (SSP) representa uma das alternativas mais promissoras para a sustentabilidade da pecuária na Amazônia, permitindo integrar a produção animal com o cultivo de espécies arbóreas em um sistema diversificado e multiestratificado.
1. Introdução
Na Amazônia Ocidental, estima-se que cerca de 40% das pastagens cultivadas apresentam algum estágio de degradação, o que frequentemente induz à derrubada de novas áreas de floresta. Os sistemas silvipastoris surgem como uma solução para tornar a atividade produtiva e menos danosa ecologicamente, permitindo produzir proteína animal sem desmatamentos adicionais, acelerar a ciclagem de nutrientes e gerar rendas extras com produtos madeireiros e não madeireiros. As árvores no sistema melhoram o solo através do aumento da matéria orgânica, fixação biológica de nitrogênio (no caso de leguminosas) e absorção de nutrientes de camadas profundas, além de reduzir perdas por erosão.
2. Sistemas Recomendados
O sucesso de um SSP depende da escolha de espécies arbóreas que não sejam tóxicas, possuam crescimento rápido, sejam resistentes a ventos e tenham copas que permitam a passagem de luz para o sub-bosque.
- Espécies Arbóreas: Destacam-se como promissoras a Acácia (Acacia angustissima), o Ingá (Inga edulis), a Clitória (Clitoria racemosa), o Sombreiro (Albizia saman) e o Angico (Anadenanthera pavonina).
- Componente Forrageiro: Para áreas sombreadas por seringais ou eucaliptos, as gramíneas mais indicadas são o Capim-marandu (B. brizantha), o Quicuio-da-Amazônia (B. humidicola) e o Capim-pojuca (P. atratum). Entre as leguminosas rasteiras, o Desmódio (Desmodium ovalifolium), a Puerária (Pueraria phaseoloides) e o Centrosema (Centrosema macrocarpum, C. brasilianum e C. acutifolium) apresentaram excelente adaptação ao sombreamento parcial (30 a 50%).
3. Produtividade e Qualidade da Forragem
O sombreamento altera as características morfo-fisiológicas das plantas forrageiras, tornando as folhas mais finas, com maior teor de clorofila e maior eficiência na bioconversão da energia solar.
- Rendimento: Embora o sombreamento excessivo possa reduzir a produção total de matéria seca (MS) — observou-se redução de até 69,5% na produção de B. brizantha sob seringal adulto — a forragem produzida é geralmente mais palatável, tenra e suculenta por mais tempo.
- Composição Química: Plantas em SSP tendem a apresentar maiores teores de nitrogênio (proteína bruta), fósforo, potássio, cálcio e magnésio em comparação ao cultivo a céu aberto, funcionando muitas vezes como um efeito de concentração devido ao menor acúmulo de biomassa.
4. Desempenho Animal
O principal benefício para os animais é o conforto térmico. A sombra das árvores reduz a temperatura ambiente (em Rondônia, registrou-se queda de 3,38ºC em bosques de seringueiras), o que diminui o estresse calórico.
- Benefícios Fisiológicos: Animais protegidos do calor pastejam por períodos mais longos, necessitam de 20% menos água e apresentam melhor eficiência de conversão alimentar.
- Produtividade: Estudos indicam que o acesso à sombra pode elevar em 10% a produção de leite no verão e melhorar as taxas de concepção das vacas. Em experimentos regionais, bubalinos e ovinos mantidos em sistemas silvipastoris apresentaram ganhos de peso superiores aos mantidos em pastagens a pleno sol.
5. Considerações Finais
Os sistemas silvipastoris representam uma tecnologia emergente fundamental para a sustentabilidade agropecuária na Amazônia. Ao integrar árvores e pastagens, o produtor não apenas conserva os recursos naturais e melhora o bem-estar animal, mas também diversifica sua fonte de renda e contribui para a mitigação do efeito estufa através da retenção de carbono. O manejo adequado, focando em cargas animais moderadas para evitar danos às árvores e garantir a persistência da pastagem, é a chave para o sucesso econômico e ecológico desse sistema.
Newton de Lucena Costa (Embrapa Roraima), João Avelar Magalhães (Embrapa Meio Norte)