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Sustentabilidade e agricultura orgânica


Luiz Alberto Silveira Mairesse

Um sistema de produção só é sustentável se for economicamente viável, mas esta sustentabilidade depende basicamente da busca pelo equilíbrio ambiental. O aproveitamento dos restos orgânicos como fertilizantes para plantas ou outras finalidades não só evita que esses materiais contaminem o meio, como pode contribuir na produção de alimentos mais saudáveis.

Entretanto, o conceito que muitos ambientalistas têm da adubação orgânica como solução única para a produção de alimentos sem contaminar o ambiente tem que ser desmistificada.  Se outrora havia sustentabilidade através desta técnica, hoje, com o aumento da população da Terra e com as exigências de produtividade, se estaria muito longe da retro-alimentação do sistema. Estima-se que atualmente, utilizando todos os resíduos orgânicos disponíveis, não se atenderia mais do que um terço das demandas da humanidade. Por esta razão, para produzir o mesmo que atualmente, necessitar-se-ia utilizar uma área de terras três vezes maior!

A agricultura convencional está se esgotando, não só pelos problemas ambientais dela decorrentes, como também pela própria falta de opções a novos avanços. Por outro lado, a agricultura orgânica não é isenta de grandes riscos. Os estercos são ótimos meios de cultura para inúmeros patógenos. Salmonelas e Brucellas abortus podem sobreviver nos dejetos animais por mais de 8 meses. Micobactérias podem resistir por mais de 150 dias nos estercos e por mais de dois anos no solo! Ovos e larvas de vermes podem se manter nos dejetos armazenados por vários anos. Enterovirus, adenovirus, parvovirus e coronavirus são comuns em dejetos suínos, alguns com alta sobrevivência na água.  Hortaliças fertilizadas com adubos orgânicos têm maiores probabilidades de estarem contaminadas com agentes patogênicos altamente resistentes a antibióticos.  Segundo diversos autores a generalização do uso dos dejetos animais pode trazer altos riscos à saúde pública, contaminando diretamente homens e animais; e indiretamente pela contaminação do lençol freático e pela propagação através de insetos e vetores de doenças.

Os perigos maiores, no entanto, estão na verdade em outros tipos de contaminações, que podem ocorrer em fertilizantes oriundos de resíduos orgânicos, principalmente de centros urbanos: as contaminações com metais pesados (cádmio, zinco, chumbo, cobre, manganês e outros). E mais: os chamados defensivos alternativos são elaborados com sais de cobre, zinco, manganês, cobalto e outros, sendo utilizados rotineiramente. Estes metais, aplicados às plantas, em doses centenas de vezes maiores que suas reais necessidades em termos de micronutrientes contaminam os alimentos, trazendo prejuízos irreversíveis à saúde, só comparáveis aos agrotóxicos de primeira geração, já proibidos.

Isto tudo, entretanto, não significa a pura e simples condenação da agricultura orgânica. Há necessidade que ela também seja reciclada, à luz dos novos conhecimentos. O adequado uso de restos orgânicos e sua decomposição controlada e mais eficiente por organismos geneticamente modificados poderiam tornar os adubos orgânicos mais confiáveis.

O avanço das ciências nunca deve determinar a ruptura com as tecnologias ditas convencionais e tradicionais, mas na retomada e aprimoramento das mesmas e nas relações mais equilibradas do homem com a natureza. E isto só é possível com o avanço da ciência e a adoção de todas as tecnologias disponíveis. Só uma agricultura diversificada em todos os sentidos, inclusive na adoção de tecnologias, será viável e mais sustentável nos próximos anos.

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