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Como a IA redefine o poder no campo


Marco Ripoli

Marco Ripoli é MSc. e PhD. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

 

Estamos diante da maior transformação estrutural do agronegócio desde a mecanização e a Revolução Verde. A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para se tornar o principal vetor de competitividade, eficiência e poder econômico no campo. Mais do que uma nova tecnologia, a IA está redefinindo quem decide, quem produz, quem captura valor e quem lidera cadeias globais de alimentos. Trata-se de uma mudança silenciosa, porém profunda, que desloca o eixo de poder do físico para o digital, do operacional para o estratégico.

No agro moderno, a vantagem competitiva já não está apenas na posse da terra, no clima favorável ou na escala produtiva. Ela reside na capacidade de coletar dados, interpretá-los em tempo real e transformá-los em decisões automatizadas, prescritivas e cada vez mais autônomas. O campo tornou-se um ambiente digital, conectado e orientado por algoritmos, onde cada operação gera informação e cada informação, quando bem utilizada, gera valor econômico mensurável.

A IA avança rapidamente em frentes críticas: previsão climática de alta precisão, monitoramento de lavouras via sensores, drones e satélites, identificação precoce de pragas e doenças, pulverização seletiva, manutenção preditiva de máquinas, precificação dinâmica e otimização logística. O impacto combinado dessas aplicações é significativo: redução de riscos, maior previsibilidade operacional, uso racional de insumos e aumento consistente de produtividade. O resultado é uma agricultura menos reativa e mais preditiva, menos baseada em intuição e mais orientada por inteligência aplicada.

Empresas globais já demonstram, na prática, o impacto dessa revolução. Sistemas de visão computacional reduzem drasticamente o uso de defensivos, plataformas digitais integram dados agronômicos e financeiros em tempo real, e máquinas autônomas começam a operar em ambientes antes impensáveis. A IA não apenas reduz custos e aumenta produtividade — ela redefine modelos de negócio, cadeias de valor e relações de poder dentro do agro, aproximando o setor de uma lógica típica da economia digital.

 

Brasil: do celeiro do mundo ao polo de inteligência agrícola

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países combinam escala produtiva, diversidade de culturas, clima desafiador e capacidade de adoção tecnológica como o agro brasileiro. Essa complexidade transformou o país em um verdadeiro laboratório global de Inteligência Artificial aplicada à agricultura, onde soluções precisam nascer mais robustas, adaptáveis e escaláveis.

Empresas brasileiras deixaram de ser apenas usuárias de tecnologia para se tornarem desenvolvedoras de soluções de classe mundial:

• Solinftec construiu uma das plataformas de IA agrícola mais avançadas do mundo. Sua inteligência operacional conecta máquinas, clima, solo e pessoas, gerando recomendações prescritivas em tempo real. O robô Solix e a ALICE AI antecipam falhas, reduzem perdas e transformam dados em decisões automáticas em larga escala, especialmente em operações complexas como cana-de-açúcar, grãos e fibras.

• Strider, nascida no Brasil, tornou-se referência global em monitoramento inteligente de pragas, doenças e plantas daninhas. A IA reduz aplicações desnecessárias, antecipa surtos e eleva o nível de precisão do manejo agrícola, com impacto direto em custos, sustentabilidade e produtividade.

• Aegro aplica inteligência artificial à gestão financeira e operacional da fazenda, integrando dados técnicos e econômicos. O resultado é um produtor mais estratégico, orientado por dados e com maior controle de risco, margem e retorno sobre capital investido.

• Startups de rastreabilidade e cadeia digital, como Ecotrace, usam IA para garantir transparência, certificação e acesso a mercados internacionais, automatizando processos que antes eram lentos, caros e sujeitos a falhas humanas.

• A Embrapa, como ativo estratégico nacional, vem incorporando IA em projetos de zoneamento agrícola, fenotipagem digital, genética e análise de grandes bases de dados, conectando ciência de ponta com demandas reais do setor produtivo e fortalecendo a soberania tecnológica do país.

Esses exemplos mostram que o Brasil não apenas produz alimentos em escala, mas começa a exportar inteligência agrícola, um ativo cada vez mais valioso no cenário global.

 

IA, soberania alimentar e poder econômico: a nova geopolítica do agro

Historicamente, o controle da produção de alimentos sempre foi sinônimo de poder. O que muda agora é que, no século XXI, a soberania alimentar passa necessariamente pela soberania digital. Quem controla dados, algoritmos e plataformas de decisão controla a previsibilidade da produção, os custos, os fluxos comerciais e, em última instância, a segurança alimentar.

A Inteligência Artificial tornou-se o novo eixo geopolítico do agro global. Países e empresas que dominarem IA aplicada à agricultura terão vantagem estrutural sobre aqueles que apenas produzem commodities. Não se trata apenas de produzir mais, mas de produzir com inteligência, previsibilidade, eficiência de capital e controle estratégico.

O risco estratégico é claro: quando os dados agrícolas, os modelos preditivos e os sistemas de decisão ficam concentrados em poucas plataformas globais, produtores e países tornam-se dependentes. A disputa já não acontece apenas nos campos, mas nas camadas invisíveis do software, da governança de dados e da propriedade intelectual.

Por isso, a adoção de IA no agronegócio precisa ser tratada como estratégia corporativa, política pública e decisão empresarial de longo prazo. Investir em inteligência própria, ecossistemas de inovação, interoperabilidade e capacitação de pessoas é investir em autonomia, competitividade e poder econômico sustentável.

A provocação final é inevitável: no agro do futuro, eficiência sem inteligência própria será apenas uma nova forma de dependência. Quem dominar a Inteligência Artificial no campo não apenas produzirá alimentos — definirá preços, influenciará mercados e exercerá poder real em escala global.

No século XXI, não haverá soberania alimentar sem soberania digital. E o agro que não entender isso a tempo ficará fora do centro das decisões que moldarão o futuro do planeta.

O agro não para.

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