A consorciação de gramíneas e leguminosas forrageiras é uma das estratégias mais eficazes para aumentar a produtividade animal nos trópicos, visando minimizar a estacionalidade e a baixa qualidade nutricional das pastagens ao longo do ano. Esta prática fundamenta-se na complementaridade entre as espécies, onde as leguminosas oferecem alto conteúdo proteico, melhor digestibilidade e maior resistência à seca em comparação às gramíneas. Além do ganho nutricional direto, as leguminosas possuem a capacidade de fixar nitrogênio (N) atmosférico através de simbiose com bactérias do gênero Rhizobium, estimando-se que entre 30% e 50% desse nitrogênio possa ser transferido para a gramínea associada.
1. Introdução
Na Amazônia, a pecuária baseia-se predominantemente em pastagens monoespecíficas de gramíneas, que frequentemente apresentam deficiência de nitrogênio e rápido declínio de valor nutritivo. A introdução de leguminosas atua como um fertilizante biológico, melhorando a fertilidade do solo e elevando o teor de proteína bruta da dieta animal. O sucesso deste sistema depende da escolha de espécies compatíveis e da adoção de práticas de manejo que assegurem a persistência de ambos os componentes no pasto.
2. Consorciações Recomendadas
A seleção das espécies deve considerar o hábito de crescimento e a agressividade da gramínea para evitar a supressão da leguminosa:
- Andropogon gayanus cv. Planaltina: Por possuir crescimento ereto em touceiras, forma consorciações equilibradas com Pueraria phaseoloides (puerária), Centrosema macrocarpum, C. acutifolium, Desmodium ovalifolium (desmódio) e diversas cultivares de estilosantes.
- Brachiaria brizantha (cultivares Marandu e Xaraés): Apresentam hábito semi-ereto e combinam-se bem com puerária, desmódio, amendoim forrageiro (Arachis pintoi) e Stylosanthes guianensis.
- Panicum maximum (Tanzânia, Mombaça, Massai): São espécies exigentes que consorciam-se com puerária, amendoim forrageiro, desmódio e centrosema.
- Brachiaria humidicola (Quicuio-da-Amazônia): Devido à sua alta agressividade e hábito estolonífero, recomenda-se o plantio da leguminosa em faixas alternadas de 2,0 a 2,5 metros de largura para garantir a sobrevivência de espécies como a puerária ou o desmódio.
3. Produtividade de Forragem e Composição Química
A inclusão de leguminosas geralmente resulta em rendimentos de forragem superiores aos observados em cultivos puros de gramíneas sem adubação nitrogenada:
- Ganho de Biomassa: Em Porto Velho, a consorciação de A. gayanus com S. guianensis proporcionou acréscimos de 40% na produção de matéria seca (MS).
- Melhoria Proteica: A presença da leguminosa eleva o teor de proteína bruta (PB) da gramínea vizinha; no capim-andropogon, a PB subiu de 6,4% para 9,8% quando consorciado com puerária.
- Fixação de Nitrogênio: As quantidades de N fixadas podem variar de 63 a 217 kg/ha/ano, dependendo da associação. Por exemplo, a consorciação de P. maximum cv. Tobiatã com C. acutifolium resultou na transferência de 67 kg de N/ha/ano para a gramínea.
- Valor Nutritivo: Enquanto as gramíneas tropicais apresentam média de 9% de PB, as leguminosas mantêm cerca de 17% de PB, com a vantagem de que seu valor nutritivo declina mais lentamente com a maturidade.
- Melhor Metabolismo: A dieta melhorada pelo consórcio leva a um maior consumo de energia e proteína, resultando em maior síntese de proteína microbiana no rúmen e melhora na eficiência de uso do nitrogênio ingerido. Essa melhoria nutricional permite explorar de forma mais racional o potencial de crescimento dos animais.
- Ganho de Peso: A melhoria na dieta e no metabolismo se traduz em maior ganho médio diário (GMD) de peso vivo e aumento na produtividade de peso vivo. Em pasto consorciado de braquiarão com amendoim forrageiro, foi observado um aumento de 12% no GMD (611 g/animal/dia vs. 544 g/animal/dia) e 35% na produtividade de peso vivo (429 kg/ha/ano vs. 318 kg/ha/ano) em relação ao pasto puro não adubado com Nitrogênio
4. Considerações Finais
Para a sustentabilidade das pastagens consorciadas, é fundamental manter um equilíbrio botânico onde a leguminosa, preferencialmente, represente entre 20% e 40% da disponibilidade total de forragem. O manejo da carga animal é o fator mais crítico: pressões de pastejo excessivas podem eliminar as leguminosas mais palatáveis, enquanto pressões muito baixas podem permitir que a gramínea abafe a leguminosa pelo sombreamento. Quando bem manejada, a consorciação reduz a necessidade de fertilizantes sintéticos, evita a degradação e promove uma pecuária economicamente competitiva e ecologicamente sustentável.
Newton de Lucena Costa (Embrapa Roraima), João Avelar Magalhães (Embrapa Meio Norte)