
O crédito é uma arma de dois gumes. O seu bom uso pode alavancar o desenvolvimento de um país, um estado, um município, uma empresa ou uma pessoa física, multiplicando riquezas, empregos e renda. Utilizado de forma desregrada, sem a preocupação de lastreá-lo com a indispensável base de poupança, pode produzir desastres lamentáveis.
Com finalidade de facilitar o consumo, esse crédito deve ser utilizado de maneira sábia e consciente. Ao mesmo tempo que facilita a vida de muita gente, destrói outras. Caso não seja utilizado de acordo com os ganhos, o crédito certamente acarretará inúmeros problemas com dívidas, e por conseqüência, juros exorbitantes.
Esse princípio vale para todo mundo – governos, empresas e pessoas físicas – e que, somente se entendendo o crédito dessa maneira consciente, ele será, de fato, aquilo que se espera que ele seja: um instrumento viabilizador do desenvolvimento econômico e social, uma alavanca do progresso pessoal e organizacional. Somente usado dessa forma, ele se torna uma alternativa da qual vale a pena lançar mão para crescer – do contrário, quem o fizer, no lugar de se expandir, vai acabar encolhendo.
O crescimento Brasil tem sido muito pequeno, diante da necessidade de consumo da sua população. E essa necessidade vem se acumulando, com grandes contingentes de excluídos, pessoas que ainda não foram inseridas na economia, vivendo à margem do consumo. A demanda reprimida é muito grande. Para que o crédito não constitua uma ameaça para as pessoas, é preciso ampliar a inserção desses contingentes na economia, via mais empregos e melhoria da renda. Apenas dessa forma, o poder de compra vai crescer de maneira real, e não fictícia, e o recurso ao crédito será saudável.
É necessário que o PIB cresça, mas que seja mais bem distribuído per capita. Além disso, é essencial que o brasileiro aprenda a utilizar melhor seus ganhos, gastando de forma mais inteligente, deixando de procurar empréstimos para resolver seus problemas financeiros, o que está longe de ser solução, pois os problemas acabam se agravando, com crédito mal feito. Com essa consciência, as pessoas passarão a viver melhor e contribuirá não apenas para a sua própria prosperidade, mas também para que o país se desenvolva. Em tese, isso é perfeito e bonito. Na prática, porém, para que se alcance esse patamar de equilíbrio, há pedras, não pequenas, que precisam ser retiradas do meio do caminho. Melhorar a distribuição de renda e não permitir que o governo achate o poder aquisitivo do brasileiro com altas tributações. O governo também precisa aprender a gastar o dinheiro do contribuinte, poupando mais, para que essa poupança reverta em investimentos produtivos, aqueles que amplificam e perenizam o desenvolvimento econômico e social.
O empurrão no governo na promoção da inserção bancária foi fundamental para amplificar essa busca, tanto entre pessoas públicas como jurídicas. Para ter uma idéia, a procura por empréstimos é tamanha que até empresas de eletrodomésticos estão se iniciando nas atividades financeiras, com vistas a atender, diretamente, seus clientes e comunidade em geral. Até mesmo pela internet, há elevada oferta de créditos. O crescimento dessa busca por crédito indica não apenas o quanto a nossa população está carente de recursos. Por trás disso, há outra carência muito importante: a educação para o bom uso desse instrumento financeiro e das finanças em geral.
Estimular o recurso ao crédito é um serviço ao desenvolvimento das pessoas, empresas e do país. No entanto, usado de maneira errônea, esse mesmo crédito faz com que o progresso estacione nos pagamentos de altos juros, conseqüência da inadimplência. O crédito não deve ser utilizado para compras supérfluas ou para investimentos desnecessários, que não trarão retorno para o investidor e não proporcionará o progresso brasileiro.
O crédito deve, sim, ser usado para investimentos rentáveis e que tragam geração de novos empregos e renda para a população. Certamente, uma população mais provida de recursos fará com que a economia se aqueça e prospere, levando o Brasil a um dos primeiros lugares na economia mundial.
A poupança é uma garantia para um futuro financeiro tranqüilo, sem preocupações com dinheiro, restando apenas os cuidados que devem ser tomados na sua administração. Para que haja a poupança é necessário que tanto os ganhos do Estado quanto os da população sejam maiores que suas despesas, possibilitando um capital excedente a ser guardado. A poupança é, em todos os sentidos, um bem de importância exponencial. Não podemos trocar a poupança pela poupança, mas pelo que ela pode oferecer. O detentor de poupança, tem maior poder de barganha nas mãos, na luta por melhor produto e melhor preço.
Ao valorizarmos a poupança, não estamos diminuindo a importância do crédito, que tem um notável papel no financiamento do progresso do país e do seu povo, mas entendemos que, se ele é buscado de forma excessivamente frenética, isso indica um aspecto que não pode passar despercebido: o de que não há dinheiro para financiar o giro quanto mais o investimento. Tanto o crédito quanto a poupança, podem, e devem, ser utilizados em sintonia, de forma complementar, sem que um comprometa o outro. Esse controle é indispensável para comprar e investir com inteligência. Temos que defender um consumo consciente e conseqüente, mediante o qual todos só têm a ganhar, seja quem vende, seja quem compra. Dessa forma, os investimentos serão mais duradouros, sem os erros que levam à inadimplência, diante da qual todos perdem.
O Brasil possui um bom índice de PIB, mas o poder aquisitivo per capita da população é insuficiente para a busca de novos créditos, com vistas a uma relação saudável. É compreensível que, quando alguém não tem como caminhar financeiramente sozinho, saia à procura de ajuda. O recurso ao crédito é legítimo, mas ele tem que ser pago; não é a perder de vista. Se não houver essa capacidade, o remédio mata o doente. De que adianta dar empréstimos a pessoas que não poderão honrar a dívida contraída? O crédito é uma demonstração de confiança de bancos e empresas em seus clientes. Se há um crédito, e este é usado, isso gerará uma dívida. Haverá casos em que o crédito será usado, sem necessariamente, gerar dívida. Exemplo disso são os cartões de crédito, caso se pague a fatura dentro do prazo estipulado; do contrário, pode virar uma bola de neve.
O crédito deve sempre ser procurado como última fonte, depois de esgotado todos os recursos próprios. Para solicitá-lo, primeiro é preciso fazer uma auto-análise, verificar se os rendimentos suportam os compromissos do débito, sem comprometer as necessidades básicas. Somente em caso positivo, deve-se optar por essa saída. O consumidor também precisa ficar atento a todas as taxas incluídas no contrato e ao fato de que, quanto maior os parcelamentos, mais crescem as chances de inadimplência. Tendo o uso planejado do crédito, quando ele se mostra, de fato, um fator de fomento do crescimento do país e das pessoas.
Não temos dúvidas que o crédito sem lastro, em vez de fomentar riqueza, aumenta a pobreza. Dos R$ 5,1 bilhões injetados, vias crédito, na economia, recentemente, cerca de 40% foram para beneficiários do INSS, que recebem até um salário mínimo (R$ 260,00). Pessoas de baixo poder aquisitivo e sem educação financeira, mal sobrevivem com esse pouco recurso, que representa 70% do seu benefício (cerca de R$ 182,00).
Essa quadro é muito preocupante e pode agravar o compromisso do governo com programas sociais e, até mesmo, com a saúde, pois uma pessoa endividada fica ainda mais fragilizada, suscetível de contrair doenças. A intenção pode ser boa, e achamos que seja, mas os riscos são grandes, tanto para as pessoas atraídas pelo canto da sereia quanto para o compromisso do país com um padrão de desenvolvimento sustentado, ou seja, com riquezas e bem-estar social duráveis.
A população esta cada vez mais carente, e cerca de 142 milhões de endividados gostariam de resolver seus problemas financeiros. O melhor caminho para isso não é uma política de crédito, mas de investimentos e um bom programa da mais efetiva fonte de renda: empregos.
E empregos precisam de planejamento governamental, algo consistente que motive empresários a investir. Esse movimento é de cima para baixo. Parte do cume da montanha, ou seja, do governo. Somente num tal contexto, as pessoas físicas e jurídicas podem melhor discernir sobre como e onde consumir e investir. Não bastam leis e programas. O governo também tem que dar o exemplo, praticando, ele mesmo, uma boa conjugação de poupança, crédito e débito. Se isso ocorre, instala-se uma nova cultura, na qual os juros e a inadimplência se mostrarão bem mais baixos. A estabilidade se fortaleceria e os riscos baixariam de patamar. Seria um contexto altamente favorável, por exemplo, ao crescimento do mercado de ações, poderoso instrumento de promoção do desenvolvimento.
Nós brasileiros não perdemos a perspectiva de poupar. Vivemos na esperança do amanhã; não tem o que poupar, no fim do mês. Discurso não é recurso. Para que a poupança volte a “estar na moda”, a população também precisa voltar a ter recursos, ganhos com o trabalho, e isso tudo demonstra que precisamos da retomada dos empregos.
Existe, hoje, uma espécie de oferta enganosa de crédito. Na primeira hora, isso engorda as instituições financeiras, mas elas acabam fragilizadas pela inadimplência que virá, logo depois, e a população, além de continuar pobre, acrescentará a esse problema um outro: a dívida.
O crédito deve ser estimulado, mas conscientemente, pelo Estado e pelas instituições financeiras. Ele precisa ser produtivo; do contrário, cai no vazio. O governo tem que estar atento, exercendo o seu papel de regulador. Não há um projeto de país, embora dificuldades ocorram, o que prevalece é a perspectiva de desenvolvimento e, com isso, ganham as finanças, a educação, a cultura e a saúde. Dentro dessa ótica, o planejamento financeiro fica muito mais fácil, seja para o Estado ou para as famílias.
Planejamento de longo prazo e a estabilidade financeira são ingredientes fundamentais para o equilíbrio do Estado e do seu povo. Quando isso existe, a relação entre poupança, crédito e dívida fica muito mais equilibrada, muito mais saudável, e cada um cumpre o papel que lhe cabe na sustentação desse equilíbrio, que não representa paralisia, estacionamento.
O equilíbrio está na base do crescimento, porque, quando ele ocorre, tudo o que se investir concorrerá para ampliar e consolidar a sustentabilidade. É nesse contexto que o país e seus habitantes caminharão com as próprias pernas, sempre na mesma direção: a de um crescente bem-estar social.
Até lá, há muito que fazer. Além de ajudar a multiplicar riquezas, via investimentos em infra-estrutura e em empresas realmente produtivas, fomentando o lado bom do capitalismo. Por outro lado, sempre haverá lugar para um trabalho efetivo de educação financeira da população, ajudando-a a prevenir contra as desvantagens, o lado selvagem desse sistema, porque ele existe.
O Estado tem que trabalhar para todos – capitalistas e assalariados, pois eles é que são as fontes de riqueza de uma nação –, mas é evidente que lhe cabe um papel especial, na proteção dos mais fracos, especialmente os que estão à margem e que precisam ser inseridos na economia ativa com segurança e equilíbrio.

Escrito originalmente por Cláudio Boriola – Consultor Financeiro, Palestrante e Autor do livro Paz, Saúde e Crédito - O livro que vai mudar a sua vida, batizado por Paulo Henrique Amorim como a "bíblia dos endividados", especializado em Administração Financeira, Economia Doméstica e Direitos do Consumidor.