"Ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato"
Professor da Unesp discute importantes aspectos do uso do agroquímico
A descoberta do glifosato, em 1970, por John Franz, um jovem cientista da Monsanto, foi um marco para a agricultura mundial. Diversos estudos científicos comprovam que a molécula, usada no controle de plantas daninhas, é extremamente segura para a saúde humana e animal, além de permitir a adoção de sistemas de produção conservacionistas.
Em entrevista ao Monsanto em Campo, Edivaldo Domingues Velini, professor-doutor da Faculdade de Ciências Agrárias da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Botucatu (SP), fala sobre a importância da molécula para a agricultura nos dias atuais.
Especialista em Produção Vegetal, Velini presidirá o "3º Simpósio Internacional sobre Glyphosate", que acontece de 30 de maio a 2 de junho em Botucatu. O tema central do evento neste ano é o uso sustentável do glifosato.
Já existe alguma molécula cujos benefícios sejam superiores aos do glifosato para o controle de plantas daninhas? O que faz essa molécula ser tão especial?
Não, ainda não há um herbicida que possa ser comparado ao glifosato em termos de segurança de uso e benefícios para o agricultor. A maior demonstração disso é o volume de glifosato produzido e comercializado, que deve alcançar 1 bilhão de quilos em 2011 em todo o mundo. A quantidade é suficiente para tratar 1 bilhão de hectares de lavouras. Não há o que contestar sobre uma tecnologia que alcança este nível de aceitação em escala mundial.
Dentre muitas características deste herbicida, as principais, que o tornam único mesmo nos dias atuais, são: amplo espectro de controle, controla plantas daninhas de um vasto conjunto de famílias e gêneros, incluindo várias espécies de difícil controle como Cyperaceas (tiriricas) e gramíneas perenes; capacidade de translocação nas plantas, permitindo o controle de estruturas reprodutivas inacessíveis no momento da aplicação e a obtenção de bons níveis de proteção mesmo quando uma aplicação completamente uniforme não é possível; elevado nível de segurança para o aplicador e o consumidor; seguro para o ambiente por não ser volátil, ser fortemente fixado aos colóides do solo (não sofre lixiviação) e rapidamente degradado; e custo baixo, em muitos ambientes a operação de aplicação pode ser mais cara do que o próprio herbicida, como florestamentos, aplicações localizadas ou em áreas não agrícolas.
Talvez, o fator de maior importância seja sua popularização entre os usuários. Agricultores e outros aplicadores já conhecem as principais características, vantagens e limitações do glifosato. Também sabem os bons resultados que vão obter se utilizarem esse herbicida adequadamente.
Como o glifosato colabora para a agricultura sustentável?
O glifosato é a base de vários sistemas de produção conservacionistas, como plantio direto de culturas anuais, cultivo mínimo em florestamentos e os sistemas de integração lavoura-pecuária. Em todos esses sistemas, aplicações periódicas do herbicida são demandadas como uma alternativa ao preparo mecânico do solo.
Vale lembrar que, em países tropicais, uma das principais funções do preparo do solo, se não a principal, é o controle do mato. A partir do momento em que esse procedimento se tornou desnecessário, foram criadas as bases para sistemas de produção sem movimentação ou com menor movimentação do solo.
O que garante a segurança da molécula para a saúde humana e animal?
Conforme já comentei, o glifosato é rapidamente degradado no ambiente, fortemente retido pelos colóides do solo [partículas de argila e húmus], não é volátil, e tem baixa toxicidade. Além disso, é rapidamente eliminado pela urina dos animais. E mais: não tem matabólitos (novos compostos produzidos no processo de degradação de uma substância) de alta toxicidade.
O glifosato tem outros potenciais que ainda não são explorados?
Sim. Descobriu-se recentemente que doses muito baixas da molécula podem estimular o crescimento de plantas e que o composto pode ser utilizado para alterar rotas metabólicas e modificar a composição da biomassa.
Quanto ao seu emprego como herbicida, o glifosato também tem um amplo potencial de uso no controle de plantas daninhas em áreas não agrícolas, com destaque para ferrovias, rodovias, áreas urbanas, rios, reservatórios de água e até mesmo em áreas de preservação ambiental para eliminar espécies exóticas invasoras. Esses mercados deverão crescer muito nos próximos anos, principalmente no Brasil.
Muito se diz sobre o surgimento de plantas daninhas resistentes ao glifosato. Há um manejo correto da molécula? O que pode ser feito para minimizar essa questão?
O surgimento de plantas daninhas resistentes é um problema real em escala mundial, e o Brasil não é exceção. Em função da relevância global do glifosato para a produção agrícola, florestal e pecuária, é fundamental desenvolver todo tipo de iniciativa para que essa importante ferramenta de produção seja preservada. Para isso, é necessário evitar a resistência das plantas daninhas. Devemos fazer o possível para manter a diversidade das comunidades de plantas daninhas e também buscar a diversificação das práticas de controle, incluindo o controle pela cobertura do solo, pela própria cultura e com uso de outros herbicidas em associação ao glifosato.
Na biotecnologia agrícola, as plantas tolerantes ao glifosato conquistaram o agricultor. Agora, trabalha-se no desenvolvimento e comercialização de tecnologias combinadas. Nesse contexto, a tolerância ao glifosato continua sendo uma característica importante?
O controle de plantas daninhas é uma das tarefas mais complexas no meio agrícola. Não é fácil eliminar várias populações presentes em elevadas densidades sem promover qualquer tipo de dano à cultura. Afinal, as plantas daninhas são muito parecidas com as cultivadas. Até o desenvolvimento das sementes geneticamente modificadas resistentes aos herbicidas, o agricultor convivia e aceitava a ocorrência de intoxicações e reduções de porte e produtividade. Portanto, a tecnologia foi fundamental para que os agricultores pudessem dispor de sistemas de controle de plantas daninhas que combinavam elevados níveis de eficácia com alta segurança para a cultura, para o meio ambiente, para o agricultor, para o aplicador e também para o consumidor.
Mesmo com o desenvolvimento e a introdução de novos genes (de resistência a pragas, doenças, estresses ambientais ou outros herbicidas), é fundamental continuar contando com a tolerância ao glifosato, em função das características únicas desse herbicida.