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Adensamento do trigo aumenta risco de mancha da gluma

Alta densidade de plantas pode aumentar o risco de mancha da gluma nas lavouras


Foto: Canva

Por Aline Merladete, com colaboração e revisão de Ubirajara Fontoura, engenheiro agrônomo.

Maior umidade no dossel favorece o avanço da doença e exige atenção ao manejo nas fases de espigamento e enchimento de grãos.

A alta densidade de plantas pode aumentar o risco de mancha da gluma nas lavouras de trigo. Causada principalmente pelo fungo *Stagonospora nodorum*, também denominado *Parastagonospora nodorum*, a doença pode atingir folhas, colmos e espigas, com impactos sobre o rendimento e a qualidade dos grãos.

O problema tende a ganhar força em lavouras mais adensadas porque o fechamento do dossel reduz a circulação de ar e prolonga a presença de umidade sobre folhas e espigas. A combinação de orvalho prolongado, chuvas frequentes e temperaturas amenas cria condições favoráveis para o desenvolvimento do fungo. Nas áreas de clima tropical, irrigadas com o sistema por aspersão (pivot central), onde o dossel fica mais tempo com ambiente úmido e as temperaturas são mais elevadas o problema pode agravar-se. Assim, nas fases de espigamento e enchimento de grãos, deverá acompanhar criteriosamente a umidade do solo para decidir sobre necessidade de irrigar.

Na região sul tritícola, o período entre julho e outubro aparece como uma fase de maior atenção em muitas lavouras, especialmente durante o emborrachamento, espigamento e enchimento de grãos. Nessas condições, podem ocorrer manchas nas folhas superiores, escurecimento e necrose das glumas e formação de grãos menores ou chochos.

A doença pode começar nas folhas inferiores e avançar para o terço médio, folhas superiores e espigas. Nas folhas, os primeiros sinais incluem pequenas lesões amareladas ou cloróticas, que evoluem para manchas alongadas, de coloração castanho-clara a marrom.

Quando a infecção avança, as folhas podem secar antes do período esperado, reduzindo a área verde da planta. Nas espigas, surgem manchas castanho-escuras a violáceas nas glumas. Em situações mais severas, as lesões podem atingir a ráquis e interferir no enchimento normal dos grãos.

O fungo pode sobreviver em sementes infectadas e em restos culturais de trigo e de outros cereais de inverno. A disseminação ocorre principalmente por respingos de chuva e orvalho intenso, que ajudam o inóculo a avançar das partes inferiores da planta para as folhas superiores e as espigas.

A infecção é favorecida quando há água livre sobre os tecidos durante várias horas e temperaturas amenas, geralmente entre cerca de 15 °C e 25 °C. Em lavouras mais fechadas, a sobreposição das folhas e o maior tempo de molhamento ajudam a acelerar esse processo. Para amenizar esse problema, o produtor deverá adequar a população de plantas para cada cultivar, considerando o Poder Germinativo (PG) e Peso de Mil Sementes (PMS), para a correta regulagem da semeadora. 

Os prejuízos variam conforme a suscetibilidade da cultivar, as condições climáticas, a quantidade inicial de inóculo e o manejo adotado. Infecções mais precoces e intensas nas folhas superiores e nas espigas tendem a provocar maiores impactos.

Entre as consequências estão a redução da área foliar verde durante o enchimento dos grãos, menor translocação de fotoassimilados, formação de grãos menores ou mal formados e queda no rendimento. A doença também é associada à redução do peso hectolítrico (PH), do peso de mil sementes (PMS) e da qualidade industrial do trigo.

O manejo deve considerar o risco da área como um todo. Suscetibilidade da cultivar, densidade de plantas, histórico da lavoura, condições climáticas e estádio de desenvolvimento do trigo são fatores que ajudam a orientar as decisões.

O monitoramento deve ganhar intensidade nas fases reprodutivas. A identificação dos primeiros sintomas, combinada com a observação das condições de chuva, orvalho e temperatura, pode ajudar a definir o momento das intervenções.

Entre as estratégias está a escolha de cultivares menos suscetíveis. Em áreas com maior risco, a recomendação é evitar materiais suscetíveis ou reforçar o acompanhamento quando eles forem utilizados.

O ajuste da população de plantas também é importante. Evitar densidades acima do recomendado para cada cultivar pode melhorar a aeração da lavoura e reduzir as condições favoráveis à doença. A distribuição uniforme das plantas também ajuda a evitar faixas excessivamente densas.

Outro ponto de atenção são as sementes. Como *Stagonospora nodorum* pode ser transmitido por esse meio, a orientação é utilizar sementes certificadas ou de origem conhecida, com informações de sanidade quando disponíveis, além do tratamento com fungicidas registrados e recomendados.

 Rotação de culturas também contribui para reduzir o inóculo. A sucessão contínua de cereais de inverno na mesma área deve ser evitada. Entre eles, devemos evitar o centeio (Secale cereale), cevada (Hordeum vulgare) e tricale (Triticosecale), reportados como hospedeiros. Em sistemas de plantio direto, essa estratégia ganha importância porque os restos culturais permanecem sobre o solo e podem manter o fungo entre as safras.

O uso de fungicidas pode fazer parte do manejo, principalmente em áreas adensadas e sob condições climáticas favoráveis à doença. As aplicações devem ser feitas com produtos registrados para trigo e para o complexo de manchas, sempre conforme rótulo, bula e receituário agronômico.

A orientação é priorizar aplicações protetivas ou no início dos sintomas, com atenção especial ao período entre o emborrachamento e o início do enchimento de grãos. Nessa fase, a proteção das folhas superiores e das espigas ganha maior importância.

Em lavouras mais fechadas, a tecnologia de aplicação também precisa ser ajustada. Volume de calda, bicos e calibração devem favorecer a cobertura de todo o dossel, incluindo as espigas. As pulverizações também precisam considerar a previsão de chuva, e condições que permitam a secagem e a fixação do produto.
O manejo inclui ainda nutrição equilibrada, controle de plantas daninhas e atenção à irrigação por aspersão, quando utilizada. O excesso de nitrogênio deve ser evitado porque pode aumentar ainda mais a densidade do dossel e favorecer a permanência de umidade. Com a necessidade de dosagens de nitrogênio, superiores a 90 a 120 kg/ha recomenda-se a aplicação de até 15% no sulco de semeadura e o restante do fertilizante parcelado em duas ou três vezes, sendo a primeira no início do perfilhamento e as parcelas seguintes a cada 15 ou 20 dias

Para o controle da mancha da gluma em áreas de risco, deverão ser aplicadas a combinação de medidas ao longo do ciclo. Tais como, monitoramento, escolha da cultivar resistente ou moderadamente resistente, ajuste da população, uso de sementes sadias, tratamento de sementes com fungicidas recomendados e registrados, rotação de culturas e proteção das folhas superiores e espigas fazem parte de uma estratégia para reduzir o avanço da doença e limitar os impactos sobre produtividade e qualidade dos grãos.

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