Agrônomo do PR destaca avanço dos orgânicos
O setor de alimentos orgânicos cresce 30% ao ano no País
O ser humano é aquilo que come. Com esta filosofia de vida, três décadas depois de se formar na Universidade Federal de Passo Fundo (RS), o agrônomo Jorge Ogassawara, 58 anos, vive um dos períodos mais produtivos da carreira. Dedica-se, na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Paraná, à capacitação, qualificação e certificação de agricultores que trabalham com produtos orgânicos em Maringá. Formado em dezembro de 1975, começou a trabalhar em janeiro de 1976. Atualmente é o único agrônomo da Emater nessa área. O setor de alimentos orgânicos cresce 30% ao ano no País, com um vasto mercado consumidor - da feira-livre ao restaurante. Esses produtos não são tratados com agroquímicos. As pragas são combatidas com defensivos naturais.
Há alguns anos, o consumo de orgânicos era algo visto como "coisa de alternativos, de hippies." O tempo cuidou de mudar a mentalidade das pessoas. "Hoje é saúde garantida", assegura o agrônomo, convicto de ter contribuído para capacitar até agora 27 produtores de banana, morango e, especialmente, alface - o carro-chefe. Alguns ainda hesitam em trilhar o novo caminho e, do total, 12 já receberam o selo.
De que maneira foi estudar no Rio Grande do Sul? "Fui convencido por um irmão, depois de reprovar no vestibular em Curitiba. Ele tinha um amigo em Passo Fundo e me perguntou por que eu não tentava o vestibular naquela cidade. Eu fui e passei." Depois da formatura trabalhou cinco anos em Mandaguaçu, mudando-se para Maringá em 1982.
Jorge viu muitas transformações no campo. "O sistema mudou totalmente", ele diz. "Passamos das grandes lavouras de café para o cultivo da soja e do trigo. Fizemos a conservação do solo e atualmente também vemos prosperar as hortaliças." Contudo, por temer a transformação do campo em monocultura - da cana-de-açúcar por exemplo - alerta para a necessidade da diversificação agrícola. "Nossa região não pode assemelhar-se à de Ribeirão Preto (SP)", apela.
O agrônomo considera bem-vinda a revolução dos biocombustíveis, com a cautela de alertar os produtores de álcool para o desafio ambiental. "A fuga das pombas-amargosas para as cidades em busca de alimentos sinaliza o desequilíbrio causado pela excessiva expansão da monocultura."
Jorge sentiu na própria pele essa situação. Nascido em Assaí (PR), passou a infância com os pais, Toshyuki e Kioto, num sítio em Marialva, onde plantavam café e, após a geada e com a mecanização da lavoura, optaram pelo trigo e pela soja. Impressionou-se ainda mais ao visitar Barreiras (BA) há 15 anos. "Hoje tem soja para todo lado", comenta.
Faz apenas dois anos que o agrônomo iniciou uma nova frente de trabalho no meio de agricultores tradicionais, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, prefeitura, Universidade Estadual de Maringá (UEM) e Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep). "Há seis anos, promovemos reuniões, cursos e excursões para a conquista do aprendizado e troca de experiências na busca de alimentos limpos, sem agroquímicos", relata.
O interesse despertado pela Emater e prefeitura proporcionou a presença constante de palestrantes e pesquisadores em Maringá. Diversos agricultores também tiveram a oportunidade de visitar áreas de orgânicos já certificados em municípios de São Paulo. Com os recursos disponíveis, os órgãos parceiros treinaram a primeira turma durante dois anos e, assim, foi possível a certificação. A próxima inspeção dos técnicos do Instituto Biodinâmico de Botucatu (IBB) está prevista para maio.
A origem e a qualidade dos produtos orgânicos são garantidas por empresas certificadoras - entre as quais o IBB. Elas rastreiam todas as fases do processo e asseguram que os alimentos são produzidos sem produtos químicos.
Nas vésperas da aposentadoria, Jorge a descarta, pois não receberia um pagamento satisfatório. "Enquanto puder, continuo trabalhando com boa vontade todos os dias", promete. O agrônomo sente que a profissão foi muito mais valorizada no passado e lamenta "a existência de leigos ocupando o lugar desse profissional." Mesmo assim, reconhece a importância da classe: "Houve um aumento fabuloso na produção de sementes e cultivares que determinam o rumo da agricultura", diz.
Até há dois anos, Jorge ajudava no treinamento de equipes de beisebol na Associação Cultural e Esportiva de Maringá, onde também jogou. De um ano para cá, os fins de semana são dedicados à pesca e à família - a mulher e três filhos. "Tudo tem seu tempo".