O Amazonas vai produzir sacos de fibras de juta e malva para produtos agrícolas. Em Manacapuru - município distante 84 quilômetros de Manaus -foi inaugurada a primeira fabrica do setor, a Amazontêxtil Fibra, com capacidade para produzir 24 toneladas de sacos de aniagem por dia.
A juta, procedente da Índia, foi introduzida no território amazonense na década de 1930 do século passado, e se tornou a principal atividade econômica das cidades interioranas por mais de 40 anos. Em 1976, por exemplo, o Amazonas colheu cerca de 100 mil toneladas de fibras. Essa quantidade foi bruscamente reduzida a partir da década seguinte, com a entrada da sacaria de polipropileno no mercado. Segundo o diretor-presidente da Amazontêxtil, Orlando Cidade, sua fábrica produzirá sacos, principalmente, para exportadores de produtos agrícolas, como café, arroz e milho. "A embalagem renovável é uma exigência do mercado internacional".
A fábrica movimentará 218 máquinas e contratará cerca de 400 operários no decorrer dos próximos nove meses. A maior parte do investimento, R$ 3 milhões, foi contratada na Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam). O Amazonas vai distribuir 128 toneladas de juta e malva para pequenos agricultores neste ano, para assegurar o plantio de 11 mil hectares. A primeira colheita está estimada em 22 mil toneladas. Empresas privadas também distribuirão sementes, gratuitamente.
Atualmente, o preço médio das fibras de juta e malva se situa em R$ 0,80, o quilo, ligeiramente acima do preço mínimo assegurado pelo governo federal. Outras fábricas de sacas de fibras vegetais devem ser instaladas no interior do estado do Amazonas.
Meio ambiente
O plantio de juta e malva está no rol das atividades econômicas sustentáveis que serão incentivadas pelo governo do Amazonas na chamada zona interiorana, formada por 62 municípios. Técnicos do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas (Idam) estão fazendo um levantamento da vocação de cada micro-região. A juta e a malva serão disseminadas nas várzeas, áreas que ficam submersas por seis meses e se renovam de nutrientes transportados pelas águas. "A atividade não agride a natureza com desmatamento", explica Edmar Vizolli.
A formação de cadeias produtivas no interior amazonense poderá frear os problemas sociais em Manaus que, atualmente, movimenta 98% da economia estadual e emprega cerca de 300 mil pessoas no comércio e na industria. No final da década de 1970 do século passado, parte da população atingida pela brusca redução da produção das fibras de juta e malva migrou para Manaus em busca de emprego nas fábricas da Zona Franca.
As fábricas, por sua vez, desempregaram em massa a partir da década de 1990, com a abertura do mercado brasileiro à economia internacional. Dos cerca de 100 mil postos de trabalho oferecidos no pólo industrial de Manaus até aquela época, restaram em torno de 50 mil.
Retorno ao campo
Com a retomada do plantio da juta e malva, os técnicos do Governo prevêem o retorno de centenas de famílias para a zona rural. "O plantio da juta tem função ecológica: ele ajuda a reduzir as tensões sociais nas cidades com a criação de empregos e diminui a pressão das populações ribeirinhas sobre os recursos florestais e piscosos", argumentou diretor-executivo da Secretaria de Estado da Produção Rural do Amazonas (Sepror), Valdenor Cardoso.
Com uma atividade econômica que gera renda, a população rural deixa de ter a pesca e a extração de madeira com únicas fontes de renda. O pesquisador do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Renan Freiras Pintos diz que "a retomada do plantio de juta no Amazonas é preocupante". Ele pesquisou a juticultura amazonense na década de 1970 e constatou que a atividade beneficiou apenas comerciantes e industriais. "O cultivo da juta foi um flagelo". Renan alerta que o governo estadual terá que tomar cuidado para que a atividade beneficie com qualidade de vida e não se torne um meio de exploração da população ribeirinha.