Anvisa interdita três marcas de leite
A Anvisa determinou a interdição cautelar de três lotes de leite das marcas Leite Leo, Nutrisim (ambos em pó) e do leite integral Elegê, por desvios de qualidade nas amostras
Os laudos da Funed detectaram irregularidades relativas a ensaios de acidez em ácido láctico, proteína, gordura, açúcar e na análise de rotulagem. Além disso, em alguns casos, foi detectada a presença de enterotoxinas estafilocócicas, que podem causar intoxicação alimentar. Não há nesses casos, de acordo com a assessoria de comunicação da Anvisa, nenhuma ligação com a operação Ouro Branco, da Polícia Federal, que revelou fraude econômica do leite, por meio da adição de soro e soda cáustica para aumentar o seu volume.
As informações sobre o lote e o prazo de validade do leite constam do rótulo do produto. Foram interditados os lotes 202310 do Leite Leo e 33F1 do Nutrisim, além do M5 da marca Elegê. Segundo a gerente da Vigilância Sanitária de Alimentos de Minas Gerais, Cláudia Parma Machado, a presença da toxina representa um risco à saúde, mas a pessoa que ingerir o produto pode ou não adoecer. "Os sintomas da intoxicação, como vômito e diarréia, em geral aparecem em curto espaço de tempo, cerca de quatro horas após a ingestão. Nesse caso, o consumidor deve procurar a vigilância sanitária da sua cidade para fazer a denúncia”, orienta.
Com base na interdição da agência, o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), do Ministério da Justiça, enviou comunicado a todo o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC) para que seja verificado se os lotes foram realmente retirados do mercado. A Associação Mineira de Supermercados (Amis) informou que já está orientando todos os seus associados a retirarem os lotes das gôndolas, caso os tenham nas lojas.
Para os consumidores que adquiriram esses produtos, a orientação do DPDC é que procurem as Vigilâncias Sanitárias Estaduais e os Procons de sua localidade para buscar a devida reparação. Procurada pela reportagem, a marca Elegê, que pertence à Perdigão, informou que a Avipal Nordeste S/A, responsável pelo beneficiamento do produto, garante que o leite interditado não apresenta problemas de contaminação microbiológica ou de qualquer outra natureza.
"A medida cautelar de interdição baseou-se exclusivamente em análise preliminar realizada pelo Lacen/MG (Funed). Tão logo foi notificada deste resultado, a Avipal Nordeste apresentou defesa desqualificando tecnicamente a metodologia analítica utilizada pela Funed, uma vez que não há consonância com aquelas preconizadas e exigidas pelo Ministério da Agricultura, e solicitou a realização de contraprova. A análise de contraprova foi realizada no próprio Lacen, com a presença de técnico especialista indicado pela Avipal Nordeste e podemos afirmar que os resultados apresentados, embora ainda não tenham sido publicados pela agência reguladora, atestam que o produto em questão não oferece risco ao consumo”, informou a empresa, em nota. Os porta-vozes das marcas Leite Leo e Nutrisim não foram localizados para comentar o assunto.
Fraude está sendo investigada
Em maio passado, sete meses depois da Operação Ouro Branco, quando foi desmontado o esquema de leite "batizado" com soda cáustica em Minas, parte dos responsáveis pela fraude foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) de Uberlândia. Dezoito pessoas ligadas à Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Copervale), com sede em Uberaba, podem ser condenadas por crime contra a saúde pública e formação de quadrilha. A Copervale é uma das duas envolvidas no esquema. A outra é a Cooperativa Agropecuária do Sudoeste Mineiro (Casmil), sediada em Passos, no Sul do Estado, onde as investigações ainda não terminaram.
Segundo a denúncia, a fraude vinha ocorrendo há aproximadamente dois anos. O leite era coletado junto aos produtores rurais e, durante o beneficiamento, recebia adição de uma solução química, composta por soda cáustica, ácido cítrico, citrato de sódio, sal, açúcar e água. A mistura servia para aumentar o volume e o prazo de validade. Ainda de acordo com o documento, a fórmula química era adicionada ao leite cru na proporção de 8% a 10% e permitia, além do aumento da validade, diminuir a acidez e manter a densidade e ponto de congelamento, testados pelos órgãos de fiscalização. Segundo os depoimentos prestados no curso do inquérito, a cooperativa beneficiava por dia 120 mil litros de leite, mas a fraude era realizada somente no leite longa vida integral.
Na semana passada, o Ministério da Justiça, em parceria com o Ministério da Agricultura e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), lançou o Centro Integrado de Monitoramento e Qualidade do Leite (www.cquali.gov.br). No site, o cidadão poderá encontrar os resultados das ações de fiscalização conjuntas entre o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), do Ministério da Justiça, Ministério da Agricultura e Anvisa, esclarecimentos acerca da importância do leite, direitos do consumidor e outras informações relevantes para a sociedade.