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Ataque de pulgões pode comprometer a qualidade do trigo

Clima influencia o avanço das infestações


Foto: Canva

Conforme cita o Engenheiro Agrônomo Ubirajara Fontoura, os pulgões ou afídeos são insetos sugadores, causadores de danos aos cereais de inverno. Algumas espécies atacam os trigais, reduzindo a produtividade  e a qualidade para panificação e mesmo para a produção de sementes.

Neste contexto, o pulgão-da-espiga-do-trigo (Sitobion avenae), torna-se importante quando a infestação ocorre durante o espigamento, o florescimento e o início do enchimento de grãos. A praga se alimenta da seiva das plantas e, em condições climáticas favoráveis, pode apresentar rápida multiplicação, exigindo atenção dos produtores durante a fase reprodutiva da cultura.

 O pulgão-da-espiga pertence à família Aphididae e também pode ocorrer em outras gramíneas, como cevada, aveia, centeio e triticale, espécies importantes na prática de rotação de culturas, atendendo a uma premissa básica para a condução do Sistema Plantio Direto (SPD). No trigo, sua presença se torna mais frequente a partir do emborrachamento, fase anterior à emergência das espigas. Os insetos se concentram principalmente nas espigas, nos pedúnculos e na folha bandeira, localizada na parte superior da planta.

O risco de perdas está relacionado à quantidade de insetos presentes nas espigas, ao estágio de desenvolvimento do trigo e ao tempo de permanência da infestação. Ataques mais intensos durante o enchimento de grãos podem resultar na formação de grãos mais leves ou chochos, além de reduzir o peso hectolítro (PH), indicador utilizado na avaliação da qualidade comercial do cereal. Os prejuízos iniciais, poderão ocorrer por ocasião da colheita, onde os grãos menores e mais leves serão perdidos na lavoura pelo sistema de ar e peneira da colheitadeira. Além disso, há redução na qualidade de panificação.

Ao sugar a seiva, os pulgões retiram substâncias produzidas pela planta que seriam utilizadas no desenvolvimento e enchimento dos grãos. Além do dano direto, a praga libera uma substância açucarada que favorece o desenvolvimento da fumagina, escurecimento causado por fungos que pode prejudicar a atividade fotossintética.

Diferentes espécies de pulgões também podem transmitir viroses em cereais. O impacto dessa transmissão depende da presença dos vírus e do momento em que ocorre a infecção.

Clima influencia o avanço das infestações

As condições meteorológicas têm influência direta sobre o crescimento das populações do pulgão-da-espiga. Temperaturas amenas, geralmente entre 15 °C e 25 °C, favorecem a reprodução e o desenvolvimento dos insetos. Já temperaturas superiores a aproximadamente 30 °C tendem a reduzir a fecundidade e aumentar a mortalidade.

A ocorrência de chuvas intensas pode diminuir temporariamente a população ao derrubar os insetos das plantas. Por outro lado, períodos secos, acompanhados de temperaturas amenas, favorecem a formação e o crescimento das colônias.

O vento também interfere na dispersão da praga. Correntes moderadas podem transportar pulgões alados entre lavouras e plantas hospedeiras, enquanto ventos muito fortes podem dificultar a instalação de novas colônias.

Diante dessa relação com o clima, o acompanhamento das condições meteorológicas, associado às inspeções na lavoura, ajuda a identificar situações de maior risco e a definir a frequência de monitoramento.

Em períodos menos favoráveis à multiplicação dos pulgões, com temperaturas mais baixas e chuvas frequentes, as inspeções podem ser realizadas semanalmente. Quando predominam temperaturas amenas e tempo seco, a frequência pode aumentar para duas avaliações por semana, especialmente entre o espigamento e o enchimento dos grãos.

O Engenheiro Agrônomo Ubirajara Fontoura destaca que, o monitoramento da praga e aplicação de estratégias de controle deverão ser com base nas diretrizes preconizadas pelo Manejo Integrado de Pragas (MIP), combinando diferentes técnicas para manter a população abaixo do nível de dano econômico, em que o custo de controle é menor que o prejuízo causado pelo inseto. 

O monitoramento deve contemplar diferentes pontos do talhão, incluindo bordaduras e áreas internas. A avaliação precisa observar espigas, pedúnculos e folhas superiores, registrando a quantidade de pulgões e a evolução da infestação ao longo dos dias.

Também é importante identificar a presença de inimigos naturais, como joaninhas, crisopídeos, sirfídeos e parasitoides, que contribuem para a redução das populações da praga.

A simples presença de pulgões, entretanto, não determina automaticamente a necessidade de aplicação de inseticidas. A decisão deve considerar a densidade dos insetos, a tendência de crescimento da população, o estágio da cultura, as condições climáticas e o potencial produtivo da lavoura. 

Durante o espigamento e o início do enchimento, infestações elevadas exigem maior atenção devido à sensibilidade das plantas nesse período. Em estágios mais avançados de maturação, quando boa parte dos grãos já completou seu desenvolvimento, o potencial de dano adicional tende a diminuir.

Visando ajustar recomendações para melhor manejo da praga, em 2023, por ocasião da Reunião da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale, os pesquisadores e técnicos da Assistência Técnica (ATER), recomendaram o controle da praga, entre os estádios  da emergência até o emborrachamento, quando 10% das plantas estiverem infestadas e do espigamento até grão em massa, quando forem encontrados 10 pulgões por espiga.

Quando necessário, o controle com agroquímicos ou com biológicos, deve ser realizado com produtos registrados para a cultura do trigo e para a praga, respeitando as recomendações de rótulo, bula e receituário agronômico.

A eficiência da aplicação também depende das condições de pulverização. O ajuste do volume de calda, dos bicos, da pressão e do tamanho das gotas deve favorecer a cobertura das espigas e dos pedúnculos, locais onde os pulgões costumam se concentrar.

Aplicações em condições de vento forte pode aumentar a deriva, assim como e elevada evaporação podem comprometer a deposição do produto. Outro cuidado é a alternância de ingredientes ativos de diferentes grupos, quando tecnicamente indicada, para reduzir a pressão de seleção de populações resistentes.

O uso indiscriminado de inseticidas poderá afetar as práticas do MIP, exterminando organismos benéficos, responsáveis pelo controle natural dos pulgões. Por isso, a presença desses inimigos naturais deve integrar a avaliação antes de qualquer intervenção.

Além do monitoramento e do controle químico e/ou biológico, outras práticas agrícolas influenciam a ocorrência da praga. O manejo de plantas voluntárias de trigo, outros cereais e restos culturais na entressafra reduzem a disponibilidade de hospedeiros. A escolha da época de semeadura e o manejo equilibrado da fertilidade e da água também fazem parte da estratégia de prevenção.

A integração dessas medidas permite acompanhar a evolução das infestações e direcionar as intervenções aos momentos de maior risco para a cultura.
No manejo do pulgão-da-espiga, a combinação entre observação da lavoura, condições climáticas e critérios técnicos de controle é fundamental para reduzir perdas, evitar aplicações desnecessárias e preservar o potencial produtivo do trigo.

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