Ramas, folhas, casca e raiz, tudo da batata-doce pode ser aproveitado, em casa e na indústria, na forma de chips, purê, xarope, massas e até etanol. Em função da versatilidade, está sendo chamada de hortaliça "flex", com boa saída na gôndola do supermercado e retorno financeiro para o agricultor. Com o objetivo de divulgar as inúmeras potencialidades da hortaliça foi realizado nesta quarta-feira (31/05), em Ijuí, no Noroeste gaúcho, o dia de campo Cultivo e Aproveitamento da Batata-doce. Por causa da chuva, o evento, dirigido a agricultores familiares e estudantes universitários, foi transferido para o campus da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí).
Três variedades reinaram absolutas durante o dia de campo: Rubissol, da cor vermelha do rubi, Cuia, branca por fora e por dentro e a doce Amélia, rica em vitamina A, a preferida dos consumidores e insetos. Andrea Becker, analista da Embrapa Clima Temperado, explica que essas cultivares, que hoje podem ser encontradas no supermercado, foram resgatadas há mais de 20 anos, pelo pesquisador da Embrapa Luis Antônio Suita de Castro. Em laboratório, Castro fez a limpeza, retirando os vírus das raízes, e, pacientemente, aproximou em grupos as variedades com características semelhantes.
Atualmente, existem dois viveiros credenciados pela Embrapa no Rio Grande do Sul, o Agroflorestal, localizado em Rio Pardo, e o Frutplan, em Pelotas.
Semelhante ao que ocorre com algumas pessoas, a batata-doce não suporta o frio. "Devemos plantar sempre depois da última geada, mais ou menos no começo da primavera", explicou Andrea. O ciclo de cultivo se estende pelo período de 120 a 140 dias. A produtividade varia entre 32 toneladas (Amélia), 40 toneladas (Rubissol) e 60 toneladas (Cuia).
Mercado
Na cotação do dia, o quilo da batata-doce chega a custar R$ 3,68 em certos supermercados do Noroeste gaúcho. Contudo, o extensionista da Emater/RS-Ascar, Abel Toquetto, tomou um preço mais modesto, abaixo de mercado, para demonstrar a rentabilidade financeira. Se um hectare produzir 13.300 Kg, comercializados ao preço de R$ 1,95 o quilo, o agricultor irá receber pela safra R$ 25.935,00. "Vá plantar batatas!", brincou Toquetto.
É exatamente isso o que pretende fazer o agricultor Cristiano Ceretta, feirante da associação Aprofeira, de Ijuí, e um dos convidados do dia de campo. "Vou aumentar minha produção", disse ele. Na Aprofeira são comercializados 200 quilos de batata-doce por semana. Também em Ijuí, a representante da cooperativa Natuagro, Sandra da Rosa, disse comercializarem por semana 70 quilos da hortaliça.
"É mais um desafio pra gente encaixar a batata-doce no mercado", disse o sociólogo da Unidade de Cooperativismo (UCP) da Emater/RS-Ascar, com sede em Ijuí, Érico Soares.
A certificação agroecológica pode abrir portas. De acordo com o coordenador do Núcleo Missões da Rede Ecovida, Ademir Amaral, existem quatro mil famílias certificadas pela Rede nos três Estados do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. "A adesão é voluntária, mas depois que começa a fazer parte da Rede, paga uma mensalidade", explicou Amaral.
Desperdício
No mundo são produzidas aproximadamente 150 milhões de toneladas de batata-doce. Mais da metade, 53%, é usada na alimentação de animais e 40% vão para o consumo humano. Lamentavelmente, mostrou o professor da Unijuí, Raul Vicenzi, "sete por cento da produção mundial são desperdiçadas" e o Brasil perde muito das 500 mil toneladas anuais que produz. Se houver cortes, os fungos e bactérias irão se alojar no alimento. A temperatura ideal para preservar a batata-doce, explicou Vicenzi, varia entre 10º e 15º. No Brasil, a produção anual é de aproximadamente 500 mil toneladas.
Agenda social
Entre tantos benefícios, a batata-doce tem o poder de combater a desnutrição infantil. "É sabido que a segunda maior causa de mortalidade infantil é a carência de pró-vitamina A", disse o pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Alberi Noronha. Segundo ele, existe uma agenda para a batata-doce no combate à fome na América Latina, África e Ásia e no combate à fome oculta, que é aquela provocada pela falta de nutrientes. No mundo, aproximadamente um bilhão de pessoas sofrem com a fome oculta, de acordo com o pesquisador da Embrapa.
O amido da batata-doce é aproveitado aos pouquinhos pelo organismo, diferentemente do que ocorre com o amido consumido de outros alimentos, que é rapidamente absorvido e vai direto para a corrente sanguínea, alterando os níveis de glicose.
"O broto e as folhas caem bem para os caldos no inverno", sugeriu durante encontro a professora do curso de Nutrição da Unijuí, Maristela Busnello. Ela e suas alunas testaram, juntamente com extensionistas da Emater/RS-Ascar, seis receitas, degustadas rapidamente durante o evento: nhoque, suco, beijinho, rapadurinha, pãozinho e patê, esse último feito somente com a casca. "Queremos mostrar que há várias formas de degustar a batata-doce", disse a extensionista da Emater/RS-Ascar, Isabel Robaert de Souza.
Ao final do dia de campo, agricultores, como Rosalina e Cleomir Diefenthaler, de Condor, e Noemi Copetti, de Boa Vista do Cadeado, levaram mudas para casa. O estudante do quarto semestre do curso de Agronomia, André Ghellar, vai plantar e multiplicar as mudas na propriedade onde mora, em São Miguel das Missões.
"Eles levaram informações e mudas, provavelmente vai aumentar a produção de batata-doce na região", projetou o gerente adjunto da Emater/RS-Ascar da região administrativa de Ijuí, Vito Cembranel.
O dia de campo sobre batata-doce foi promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Associação Regional de Educação, Desenvolvimento e Pesquisa (AREDE), Unijuí, Emater/RS-Ascar e Embrapa.