Brasil é o terceiro maior país com cultivo de soja transgênica
No Brasil, já na primeira safra autorizada de soja transgênica, a área cultivada chegou a 32% da área
Em 1996, os produtores rurais estadunidenses começaram a plantar soja transgênica. Não pararam de expandir a área cultivada com sementes geneticamente modificada, incorporando outras culturas como milho e algodão. O mesmo ocorreu com muitos outros países, da Argentina, na América Latina, à Índia e China, na Ásia, passando pela Espanha, na Europa. Atualmente, a despeito das objeções de grupos ecologistas, é dado como certo que os produtos transgênicos vão dominar a agricultura.
No Brasil, já na primeira safra autorizada de soja transgênica, ano passado, a área cultivada chegou a 32% da área total da cultura. Foram quase 7 milhões de hectares, segundo levantamento da Kleffmann Amis, empresa de consultoria que trabalha para a Monsanto, a maior multinacional de biotecnologia que desenvolve sementes. No Rio Grande do Sul, Estado que em 2000 introduziu a soja transgênica no País antes mesmo da autorização legal, 99% da área cultivada é transgênica. Em Goiás, foram 21% da área na safra passada, porcentual que deve dobrar na próxima safra, de acordo com as previsões da Associação Goiana dos Produtores de Sementes e Mudas (Agrosem).
Nas estimativas da Monsanto, até 2010 cerca de 95% da área de soja no Brasil será cultivada com sementes geneticamente modificadas. “Hoje temos a soja RR (Roundup Ready), resistente ao glifosato. Outras tecnologias, como a soja Bt (Bacillus thuringiensis), resistente a pragas e insetos, vão ser incorporadas, atraindo mais produtores”, afirma o gerente de pesquisa da Monsanto, regional do Paraná, Antônio Ferreira Neto.
Os números brasileiros mostram a expansão do cultivo da soja geneticamente modificada porque é a única cultura que teve um plantio comercial legal. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou o ano passado o cultivo do algodão Bollgard (Bt), resistente a três tipos de lagarta, mas não havia sementes certificadas para o plantio. Portanto, não entraram nos levantamentos. Mesmo assim, muitos cotonicultores plantaram sementes transgênicas não-certificadas e agora enfrentam problemas legais para comercializar a produção.
Já com o milho está ocorrendo o mesmo que ocorreu com a soja anos atrás. Sem ter sementes transgênicas liberadas para o plantio, produtores (principalmente do Rio Grande do Sul) estão buscando sementes na Argentina e plantando. A variedade encontrada é o milho Bollgard (Bt), resistente a alguns insetos e que está aguardando liberação da CTNBio para o plantio comercial no Brasil. No caso da soja, o governo foi obrigado a liberar a comercialização dos grãos transgênicos, em 2004, porque constatou-se que eles representavam cerca de 20% da safra nacional. Para o milho e também para o algodão plantados ilegalmente ainda não há definição.
Gerações
Nos Estados Unidos, na China, na Índia, na Argentina e em países europeus os transgênicos estão sendo amplamente pesquisados e cultivados. Na Espanha, país da União Européia, por exemplo, os produtores contam com 45 tipos de híbridos de milho Bt. Segundo a secretária-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), Alda Lerayer, a aplicação da biotecnologia na agricultura é um caminho sem volta. Agrônoma PhD em genética, ela afirma que o problema no Brasil não diz respeito à tecnologia, mas à morosidade da CTNBio em liberar os eventos (cada produto é considerado um evento).
“Ainda estamos aguardando a liberação de produtos da primeira geração, que são os resistentes ao glifosato e aos insetos e pragas. Nos outros países, já se trabalha com produtos da segunda geração, aqueles com enriquecimento nutricional ou com melhoramento de suas propriedades”, afirma. Também informa que as pesquisas avançam para os produtos de terceira geração, aqueles resistentes a estresse abiótico (calor ou seca) e aqueles com capacidade para produção de fármacos.
Alda Lerayer afirma que a avaliação brasileira para a liberação de produtos transgênicos é a mais rigorosa do mundo. Segundo ela, exige-se mais do que o estabelecido em protocolos internacionais e isso está prejudicando as pesquisas no País e a produção alimentar. O CIB é uma organização não-governamental pró-transgênicos que divulga informações sobre biotecnologia e biossegurança.
Mas concorda com Alda o agrônomo Eleusio Curvêlo Freire, doutor em genética e melhoramento de plantas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e pesquisador aposentado da Embrapa Algodão, de que o mundo avalia os transgênicos sob dois critérios: o da equivalência nutricional e o da segurança alimentar e ambiental. “No Brasil, inventamos um terceiro: o princípio da precaução, que diz que nada pode ser aprovado antes de se comprovar, a longo prazo, os seus efeitos”, reclama.