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Brasil pode liderar mercado internacional de bioenergia

A expectativa das indústrias é que estejam em atividade 412 unidades até 2013


Em entrevista exclusiva à Agência CNA, a economista e consultora da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), Elisabete Serodio, fala da tendência de o etanol se tornar uma commodity e das perspectivas para o Brasil no mercado mundial. Para a especialista em negociações internacionais, há um potencial grande de abertura de novos mercados para o etanol no mundo e o Brasil tem condições de ser um dos líderes, por ter capacidade produtiva muito elevada, a custos baixos. Para a safra 2012/13, a expectativa das indústrias é que estejam em atividade 412 unidades produtoras para moer 728 milhões de toneladas de cana.

Para Elisabete Serodio, o efeito mais imediato das negociações bilaterais entre Estados Unidos e Brasil é a visibilidade que a bioenergia ganha na agenda de discussões no mundo, já que na opinião da especialista a redução de tarifas não está apenas nas mãos do presidente norte-americano, George W. Bush. “Apesar de o Brasil produzir biocombustível há muitos anos, a presença de Bush no país, sua apresentação de metas, e a colocação do assunto em destaque na agenda mundial contribuem para uma maior exposição do produto”.

Existe a expectativa de que países como Estados Unidos e Japão estimulem o consumo de álcool. Quais as perspectivas traçadas para esse mercado mundial e o lugar do Brasil nesse cenário?

No exterior, a expectativa de que o mercado cresça a ponto de ficar expressivo vem dos Estados Unidos, pois o governo Bush aumentou bastante a meta do uso de biocombustíveis para 2017. A União Européia e o Japão já vêm fazendo tentativas há algum tempo, com algumas desconfianças. Esses são os mercados que podem crescer em um período mais curto. O próprio mercado brasileiro vai demandar muito mais álcool no futuro, por causa das vendas de carros flexíveis (flex). Também acreditamos que outros países comecem a investir nesses veículos, como têm anunciado seus governantes. Alguns devem produzir para reduzir a dependência externa de suprimento de energia e importar quando for conveniente. Com a meta do presidente Bush, em um curto prazo os EUA devem importar álcool, diretamente ou via acordos preferenciais com países do Caribe.

Isso é suficiente para compor um mercado mundial?

É suficiente na medida em que vai se criando um mercado que não é pequeno. O potencial de mercado dos Estados Unidos e do Japão é muito grande. Embora o Japão seja um país pequeno, tem um consumo de combustíveis para transporte muito elevado. Claro que não é consolidado como o mercado de açúcar. É um mercado que está sendo criado e esperamos que se consolide. É interessante que a iniciativa de produzir biocombustíveis esteja ocorrendo em outros países, pois enquanto o Brasil era o único grande produtor ficava difícil a consolidação desse mercado em nível mundial. Não há como o mercado de energia se basear em um único supridor, pois é muito arriscado.

O Brasil, em razão desses investimentos mais elevados no início, tem condições de ser um líder no mercado de biocombustíveis?

Sim, o Brasil tem condições de ser um dos líderes, porque tem um potencial produtivo muito elevado e os custos de produção são baixos, pois se faz etanol a partir da cana. Além disso, com toda a experiência e todo o passado, o país já tem ganhos de produção e tecnologia que fazem com que o programa não precise mais de apoio do governo. O álcool é absolutamente competitivo com a gasolina. Então, o Brasil tem condições de exercer um papel de relevância no mercado, mas não com a pretensão de ser o único. Isso seria um erro estratégico. O esforço do Brasil é exatamente para fazer acordos de cooperação e trocar tecnologia. Temos, inclusive, missões do governo brasileiro em vários países. É uma situação, desse ponto de vista, mais confortável para o Brasil. Essa é uma tecnologia que o país já domina. O Brasil usa álcool como combustível desde a década de 20.

O Brasil tem condições de aumentar a produção para atender o crescimento esperado no mercado interno e para exportar?

É possível aumentar a produção de acordo com as possibilidades de demanda. O mercado brasileiro está em expansão, há novas unidades entrando em operação e há previsão de outras para o futuro. Na safra 2006/2007, tínhamos 325 unidades produtoras operando para moer 425 milhões de toneladas de cana. Para a safra 2012/2013, a expectativa é de 412 unidades produtoras para moer 728 milhões de toneladas. Mais 17 novas unidades vão começar a operar em 2007/2008 e 31 novos projetos estão previstos com início em 2009/2010. Existem mais 61 projetos já previstos, vários com grande potencial de implantação, mas não estamos nem contando com eles, e sim com os 87 que devem entrar agora para 2012.

Na sua visão, quais são os resultados práticos das conversas entre Lula e Bush?

Quem esperava que as tarifas fossem tratadas, teve uma posição ingênua. O presidente dos Estados Unidos, seja lá qual for, não decide sobre tarifa de importação de coisa alguma. Essa decisão político-comercial passa pelo Congresso norte-americano, ao contrário de países do Mercosul, por exemplo, em que a decisão é do Poder Executivo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos fez uma proposta de nova lei agrícola, para que o Congresso examine. Das propostas feitas pelo Poder Executivo para a Farm Bill de 2002, nenhuma foi acatada pelo Congresso. O presidente Bush pode ter boa vontade e capacidade de influenciar, mas não decide. Até porque ele não poderia fazer isso somente com o Brasil, pois somos todos membros da Organização Mundial do Comércio, e não se pode tomar uma decisão para apenas um país. O que está sendo tratado entre os dois presidentes é um memorando de entendimentos sobre cooperação em biocombustíveis. O mais importante da negociação Brasil-EUA é a visibilidade que o tema passou a ter. Apesar de o Brasil produzir biocombustível há muitos anos, a presença de Bush no país, sua apresentação de metas, e a colocação do assunto em destaque na agenda mundial contribuem para uma maior exposição do produto.

Como se pode avaliar a posição de vanguarda tecnológica do Brasil, elogiada pelo presidente Bush?

Tem um efeito psicológico muito interessante e útil, mas em termos de fluxo de comércio não ajuda muito o fato de estar na vanguarda. Nesse sentido, o que vai ajudar mesmo é redução ou eliminação da tarifa, quando tivermos fluxos mais regulares de comércio com um outro grande consumidor do mundo. Mas isso a gente não vai resolver com o Bush indo a canto nenhum, e sim na rodada de Doha, ou em outras rodadas.

A relevância que o mundo está dando para o etanol pode ser um estímulo para destravar as negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC) dos produtos que eles chamam de ambientais?

No aspecto multilateral não discutimos ainda a inclusão do etanol na lista de commodities ambientais. A intenção da OMC é fazer uma ligação positiva entre comércio e meio ambiente e convidar os países a listarem os bens e serviços que possam ter contribuições positivas para o meio ambiente. Esses produtos que vierem a compor a lista poderão até, dependendo do acordo que seja feito entre os países, vir a gozar de preferências tarifárias e até mesmo tarifa zero, no comércio mundial. Essa é uma discussão muito incipiente ainda, mas o Brasil tem uma proposta de que o etanol seja incluído nessa lista. Imagino que uma exposição do tema, da maneira como está sendo feita recentemente – com o discurso do Bush – pode ajudar o Brasil nesse pleito. Seria uma conquista importante, que os produtores já levaram ao governo e têm conversado a respeito. O Brasil pode ter ganhos importantes com a exposição do produto, da utilização e das vantagens ambientais que ele traz.

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