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Cana já avança sobre os cafezais de São Paulo

A safra de café em Altinópolis (SP) será 75% menor do que em 2006


É a lógica do mercado: o avanço da cana na região já ameaça até o tradicional café de Altinópolis (SP), tido como um dos melhores do país. A safra de café, que começa neste mês de maio, será 75% menor do que a do ano passado, segundo o Sindicato Rural de Altinópolis (Sinral). “Como o café é uma cultura bienal, é normal uma quebra de até 40% no ano fraco. Mas, nesta safra, tivemos problemas climáticos e principalmente o avanço da cana”, explica João Abrão Filho, presidente do Sinral.

Em números redondos fica assim: Altinópolis planta café hoje em menos de nove mil hectares. Antes da cana, eram mais de doze mil hectares. Pelo menos um quarto da área dedicada ao café, portanto, foi tomado pelos canaviais.

É o que acontece na propriedade do próprio João Abrão. “Neste ano, já tenho certeza de que em 25% das minhas terras não vou colocar café. Vou plantar qualquer coisa lá, menos café. E há 90% de chances de eu colocar cana”, diz ele. “Não queria, mas preciso de uma renda paralela”.

Assim como o presidente do Sinral, outros produtores estão arrendando faixas de terra cada vez maiores às usinas. Fazendas inteiras trocaram o cafezal pelo canavial. Isso porque o café é uma cultura mais delicada, sujeita a perdas significativas caso o clima seja desfavorável. Mas não só.

No ano que passou, os cafeicultores enfrentaram o problema de chuvas irregulares que prejudicaram a safra. Porém o grande inimigo do produtor continua sendo o dólar fraco. Quase todo o café de Altinópolis é enviado ao mercado estrangeiro e o real sobrevalorizado prejudica as exportações. Nesta situação, muitos preferem a garantia do arrendamento para a cana.

“As usinas estão liqüidando tudo. Aqui perto, em Patrocínio Paulista, cinco milhões de pés foram arrancados para colocar cana”, conta João Abrão.

Arrendar terra é uma tentação

Segundo o presidente do Sinral, João Abrão, a saca de café na safra deste ano, mesmo com a queda da produção, deve render de R$ 350 a R$ 400 somente, pouco para repor os gastos durante o processo. Na safra do ano passado, com a produção em alta, a saca foi cotada em até R$ 290. Em números absolutos, o Brasil produziu 42,5 milhões de sacas em 2006 contra as 32 milhões de sacas previstas para este ano.

Para conter o avanço de outras culturas, os cafeicultores estão buscando incentivos à produção, como financiamento e perdão de dívidas. A tentação de arrendar as terras, porém, cresce com o sucesso do setor sucroalcooleiro. Nos cálculos de João Abrão, as usinas pagam R$ 2.400 por alqueire/ano ao fazendeiro que quiser arrendar suas terras. E esse é um ganho certo, sem riscos e sem trabalho, já que as usinas vêm e fazem adubação, cultivo e colheita da área.

“A cana só não está entrando mais rápido porque o produtor tem amor ao café. Ele sempre quer esperar o próximo ano, tem esperança que a situação melhore”, diz o presidente do Sinral. “É muito triste arrancar uma lavoura de café, mas às vezes não tem jeito”.

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