Cenário positivo para exportações favorece conta corrente em 2021
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Imagem: Pixabay
EXPORTAÇÃO

Cenário positivo para exportações favorece conta corrente em 2021

Câmbio desvalorizado, commodities e recuperação global impulsionam vendas externas
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A recessão profunda e a forte desvalorização do real geradas pela pandemia devem ter levado a conta corrente brasileira a um déficit bastante baixo em 2020 e, para este ano, o avanço das exportações pode tornar o cenário ainda mais benigno, avaliam algumas instituições.

Embora não seja consenso, há quem veja até chance de superávit nas transações correntes, que mostram o resultado das trocas comerciais, de serviços e de rendas entre residentes e não residentes no país. Desse modo, é um cenário de contas externas extremamente tranquilo.

É o caso do banco Safra, que projeta um saldo positivo de US$ 5,2 bilhões em 2021, equivalente a 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB). O número está distante dos superávits de dois dígitos observados entre 2004 e 2006, mas também ficaria bem acima da última vez em que o país apresentou resultado positivo (US$ 408 milhões em 2007).

A projeção de superávit do Safra está bastante atrelada ao câmbio, explica a economista do banco Priscila Deliberalli. “Estamos com uma visão um pouco mais conservadora para o ano, esperando uma taxa de câmbio próxima de R$ 5, por causa do cenário fiscal e da dificuldade que temos observado de essa questão ser enfrentada.

Priscila reconhece que existe espaço para um câmbio mais apreciado, o que, segundo ela, poderia levar a conta corrente para próximo da estabilidade neste ano. A estimativa é que 2020 tenha encerrado com déficit ao redor de US$ 10 bilhões (0,7% do PIB). “Após a eleição de [Joe] Biden [nos Estados Unidos] houve um ajuste importante, mas o real ainda está muito atrás de outros emergentes”, afirma a economista. O consenso de mercado aponta um déficit de US$ 4,5 bilhões em 2020.

No BTG Pactual, a projeção de um dólar a R$ 5,10 ao fim de 2021 indicava superávit de US$ 5 bilhões na conta corrente, mas, com a revisão para R$ 4,90, a previsão agora é de transações zeradas. Seja entre quem trabalha com a conta corrente no azul, seja para quem tem uma projeção zerada, a aposta é que haverá ganho expressivo na balança comercial de 2021, a partir das exportações. “Diferentemente do que ocorreu em 2020, em que a melhora no saldo comercial foi fruto da queda forte nas importações, em 2021 vai ser por causa do aumento das exportações”, diz Iana Ferrão, economista do BTG.

O déficit em conta corrente diminuiu de quase US$ 51 bilhões em 2019 (2,8% do PIB) para US$ 15 bilhões em 2020, estima Iana, mas US$ 10,2 bilhões seriam apenas efeito contábil da importação de plataformas de petróleo. No cenário do BTG, a balança comercial foi superavitária em US$ 43,2 bilhões no ano passado, indo a US$ 63 bilhões em 2021.

O avanço das vendas ao exterior tem três fundamentos. O primeiro é a recuperação da atividade global, após a forte contração em 2020. O segundo é o aumento nos preços das commodities no mercado internacional, especialmente de algumas importantes para a pauta brasileira, como o minério de ferro. O terceiro fator é, como mencionado, o câmbio, que deve continuar relativamente depreciado. “Embora a gente espere uma apreciação neste ano, ele ainda vai continuar pressionado”, diz Iana, destacando também o efeito defasado do câmbio nas exportações. “Os nossos modelos sugerem que o efeito máximo ocorre depois de seis a oito trimestres, então a depreciação que vimos ao longo de 2020 ainda vai bater em 2021.”

As importações brasileiras também devem se recuperar em 2021, após o tombo do ano passado, mas o movimento será limitado, dizem as economistas. “As importações tiveram forte queda logo no início da pandemia, no primeiro semestre de 2020, e, ao longo do segundo, foram se recuperando. Na margem, alcançaram o nível de 2019 para igual período de novembro e dezembro. Mas não esperamos um crescimento muito expressivo daqui para frente, porque a atividade deve continuar fraca”, afirma Iana.

A combinação de retomada gradual e câmbio ainda depreciado também pode segurar o aumento das despesas com serviços e rendas. “Devemos observar alguma recuperação na parte de serviços, modesta ainda, e nas rendas, com uma remessa um pouco maior de lucros e dividendos, mas a recuperação da balança comercial mais do que compensaria”, diz Priscila, do Safra.

Certa demora para a vacinação de massa em escala global, além de mudanças de hábito mais duradouras, como a realização de reuniões de negócios por videoconferência, também deve seguir contendo gastos com viagens e transportes, duas subcontas relevantes da balança de serviços, destaca Iana. “Outro fator importante é que a redução das taxas de juros externa e doméstica deve contribuir para menores despesas com pagamento de juros, importante subconta da renda primária”, acrescenta.

A leitura de uma conta corrente mais positiva não é hegemônica. O sistema de expectativas de mercado do Banco Central aponta uma mediana de déficit de US$ 15 bilhões em 2021. Em seu Relatório de Inflação de dezembro, o BC disse esperar rombo de US$ 19 bilhões. A 4E prevê déficit de US$ 55,5 bilhões (3,3% do PIB). “Ainda que a gente não veja uma resolução completa da pandemia, as coisas tendem a melhorar, e o principal efeito seria uma recuperação muito forte das importações”, diz Bruno Lavieri, sócio da consultoria. “Só na balança comercial, vemos retração de pelo menos US$ 15 bilhões entre o saldo de 2020 e o esperado para 2021.”

Para Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), é difícil projetar um superávit tão alto da balança comercial, porque a elasticidade-câmbio das exportações brasileiras - ou seja, como as vendas internacionais respondem a uma mudança no patamar de câmbio - diminuiu nos últimos tempos. Ele projeta déficit na conta corrente da ordem de US$ 18 bilhões em 2021. “Não é um cenário em que as coisas voltam para o lugar, mas no decorrer do ano, com o avanço da vacina, há potencial de normalização”, diz.

O ambiente de curto prazo, com o recrudescimento da covid-19 e a nova cepa identificada no Reino Unido, tende a “complicar um pouco as coisas no fechamento de 2020 e na largada de 2021”, pondera Ribeiro. “Mas, pelas informações que temos até o momento, não é algo que faça mudar o cenário projetado.”

Iana, do BTG, diz que uma segunda onda da pandemia, sobretudo na Europa, já está parcialmente incorporada ao cenário do banco. “Caso essa segunda onda dure mais ou as vacinas demorem mais para serem distribuídas, há risco de crescimento menor da economia global, o que coloca um risco para nossas exportações, até porque parte da recuperação é de produtos manufaturados, que têm a Europa como importante destino.”


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