Certificação sócio-ambiental do álcool

Agronegócio

Certificação sócio-ambiental do álcool

Veja o que é preciso fazer para conseguir o certificado
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Uma das lavouras mais mal faladas do Brasil é a da cana-de-açúcar. Vira e mexe, damos notícia de condições precárias de trabalho, falta de segurança nos canaviais, de queimadas. Essa fama já chegou aos outros países, mas, para se contrapor a isso, já existe um programa de certificação sócio-ambiental do álcool combustível.

Os repórteres Priscila Brandão e Francisco Mafezzoli Júnior foram a Bariri, São Paulo, ver o que é preciso fazer para conseguir o certificado.

Canaviais a perder de vista. Em todo o país, são sete milhões de hectares cobertos pela cana-de-açúcar, que este ano devem render quase 700 milhões de toneladas.

O Brasil é o maior produtor mundial de cana e mais da metade da área plantada se concentra em São Paulo. No Estado, é comum encontrar municípios como Bariri, a 300 quilômetros da capital, onde os canaviais encostam na área urbana. Com 30 mil habitantes, Bariri é uma cidade tranquila. Lá está começando uma experiência pioneira.

Para conhecer a novidade, visitamos a propriedade de 67 hectares dos irmãos João e Luiz Ticianelli. Antes de plantar cana, o Sr. João e o Sr. Luiz viviam da criação de gado. Atualmente, eles mantém apenas 30% do rebanho. O pasto ocupava toda essa extensão. Chegava até próximo ao córrego.

Aqui sempre teve fartura de água, mas de uns tempos para cá, a situação mudou. "Ela veio diminuindo. Depois, tem duas nascente aí em cima, duas minas grandes e uma secou. E foi aí que até o vizinho precisou vir buscar água na minha propriedade. Não tinha nem água para os bois dele. Uns falam que a água está acabando por consequência do próprio decorrer do tempo, porque estão secando os poços. Então vieram uns técnicos da Esalq e disseram que se arborizar, futuramente ela volta ao normal. Então foi que levou a gente a se reunir e fechar", explica o agricultor João Ticianelli.

Isso aconteceu há quatro anos. Sr. João e o Sr. Luiz cercaram o riacho e começaram a plantar árvores nativas em volta. Eles mal sabiam, mas estavam dando o primeiro passo rumo a um projeto de certificação sócio-ambiental do canavial, já que essa é uma das normas.

Para conseguir a certificação é preciso seguir um protocolo que prevê uma série de exigências elaboradas pelo órgão credenciado. O selo da cana chegou a Bariri através da OIA - Organização Internacional Agropecuária - uma empresa privada que certifica vários produtos, inclusive orgânicos. Foi contratada pela Associação dos Produtores, a Assobari.

Além dos irmãos Ticiannelli, outros 49 fornecedores da região aderiram ao programa. O auditor Edegar de Oliveira da OIA e agrônomo Reinaldo Schiavon da Associação de Produtores de Bariri, fazem a última visita à fazenda para verificar se os irmãos Ticianelli podem receber o selo.

"Sr. João, aqui na área do senhor tem algum problema de erosão?", pergunta o agrônomo Reinaldo Schiavon. "Não. Está tudo controladinho, conservado as cabeceiras de curva de nível, tudo bem corrigido. Se não tiver uma prática boa de conservação, com certeza vai formar uma erosão", afirma o Sr. João.

Outros cuidados foram tomados com a água. Mesmo com o replantio em volta do córrego, era ali que o gado matava a sede. Com a orientação do agrônomo Reinaldo, Sr. Luiz e Sr. João construíram uma ponte para o gado passar, mas ainda há muito o que fazer.

"No próximo período de chuvas pode voltar essa erosão se não for corrigido com, pelo menos, uma piçarra, umas pedras menores". "Aqui melhorou bastante, mas ainda precisar melhorar aqui e empedrar. Uns quatro caminhões de pedra vai melhor bastante, vai resolver o problema".

A primeira vistoria aconteceu há um ano e por causa do protocolo, a propriedade tem hoje uma reserva legal e uma APP, área de preservação permanente, num total de quatro hectares e meio.

A cana ocupa 45 hectares. O uso correto dos agrotóxicos é outra preocupação. "Eu faço a aplicação. Para fazer isso, eu tive que fazer um curso de tratorista e defensivo. Eles ensinaram muita coisa: como usar o EPI, o manejo, a devolução da embalagem, os cuidados com o meio ambiente ", conta Sr. Luiz.

Como não havia, na fazenda, um depósito adequado para guardar o agrotóxico, foi preciso construir um quartinho. Para entrar nele, Sr. Luiz veste calça, bota, óculos, tudo apropriado. É o EPI, equipamento de proteção individual. "Antes a gente lidava com o agrotóxico sem nenhuma proteção. Só roupa do corpo. A gente guardava o agrotóxico no rancho, junto com equipamento, sem nenhuma segurança. O que mudou é que a gente guarda em um lugar seguro, fechado, então aqui só tem agrotóxico, as embalagens vazias tem o lugar certinho".

A documentação da fazenda também tem que estar em dia. Desde o mapeamento da propriedade, comprovantes das benfeitorias, rastreamento da produção.

O Sr. João e o Sr. Luiz já estão prontos para receber o certificado? "Quase prontos. Eles já cumpriram com 99% do protocolo, já fizeram uma série de mudanças na propriedade conforme foi constatado na auditoria, mas eles ficaram com algumas não conformidades ainda, principalmente documentais e alguns detalhes que eles tem que acertar. Então, como foi feita essa auditoria agora, está sendo deixado para eles um relatório onde consta as não conformidades da propriedade. Com base nisso, eles tem que corrigir para então serem certificados. Eu acredito que eles vão conseguir essa certificação", afirma o agrônomo Edegar de Oliveira.

Saímos da propriedade dos Ticianelli para acompanhar a colheita, em uma área de usina, que também participa do projeto. Já que as mudanças exigidas pela certificação não ficam só no manejo dos canaviais.

O protocolo estabelece 40 normas de relações de trabalho. São itens de segurança, de bem-estar do trabalhador. Olhando a colheita, a gente se pergunta: como essas pessoas fazem para se alimentar, usar o banheiro, ou simplesmente tomar um copo d´água no meio do expediente?

Primeira exigência: é obrigatório ter banheiro a menos de 500 metros do local da colheita, com sabão e papel higiênico. A empresa resolveu o problema instalando banheiros dentro de um ônibus, que acompanha os cortadores em todos os canaviais.

"Antes desse ônibus, a parte do banheiro funcionada na cana mesmo. Era complicado porque tinha sempre que ir de duas, às vezes estava ventando o pano caia. Passava até vontade, às vezes, porque não queria passar por essa situação Porque geralmente não vai sozinha e não vai ficar incomodando a amiga para ir toda hora, toda vez que você tiver vontade. Aí a gente segurava até em casa", explica uma cortadora de cana.

Os cortadores de cana também devem dispor de água potável à vontade e de um refeitório com toldo, mesas e cadeiras. "Eu estou comendo bofe de boi, arroz, abóbora e uns carocinhos de feijão".

Os trabalhadores tem pausas para descanso durante a jornada. "Agora já tem meia hora de almoço. Tem meio-dia, 11h tem dez minutos. Às 15h tem uns minutos também. Então, facilitou muito o trabalho da gente porque o corte da cana é meio forçado, pesado. Agora dá para ir ", conta o trabalhador rural, Manoel Pereira.

"Antes a gente trabalhava mais, hoje não, você tem que vir ao ônibus, almoçar aqui na área da convivência, então tudo isso é muito importante. Você para, descansa. Eu chego menos cansada em casa, com menos problemas no braço, na mão", afirma a trabalhadora rural, Marta dos Santos.

Todos os cortadores têm que ter carteira assinada e a auditoria também passa por aqui. "Wilson, nós estamos fazendo uma auditoria para ver, principalmente, a questão das condições do trabalho. Eu vejo que você esta de óculos escuros, de boné", diz o agrônomo da OIA, Nemedegar de Oliveira. "Isso aqui é o meu equipamento de trabalho. Sem isso aqui não tem segurança nenhuma. O óculos é para proteger contra a cana. Todo o equipamento foi fornecido pela empresa. Eu não tive de pagar, nem foi descontado do meu salário", conta o cortador de cana, Wilson Aparecido.

Para o trabalhador, qual a vantagem de trabalhar em uma empresa que esteja adequada ao protocolo? "A principal vantagem é uma garantia que ele está trabalhando de acordo com a legislação, com condições de trabalho que garantam uma segurança. Então ele está utilizando todos os Epis, vai com uma estrutura de apoio condizente, com o trabalho que ele está fazendo. Tem um técnico de segurança que está presente, uma enfermeira, que tem que estar acompanhando todo o processo para garantir que todo o trabalho esteja sendo bem feito", explica o agrônomo, Reinaldo Schiavon.

Outra exigência é a adesão ao programa de redução da queima da cana. Nas partes mecanizáveis, já no ano que vem, só será permitido queimar 30% da área e até 2014, a eliminação total da queima. Nas partes não mecanizáveis, eliminação total em 2017.

"É a usina que faz a colheita para os fornecedores. Eles não vão ter que investir na compra de máquinas, não tem nenhum investimento. É tudo da usina".

Para conseguir a certificação, a usina também teve que instalar torres de resfriamento de água e conseguiu diminuir em 50% a captação dessa água, que vem do açude.

Passou a utilizar toda a Vinhaça, o resíduo produzido depois da destilação do álcool, como ferti-irrigação. A Vinhaça, que é rica em minerais, é jogada em tanques e bombeada por canos subterrâneos até o canavial. Com isso, evita-se que o líquido contamine os rios e a vida aquática.

O diretor da usina, José Roberto Della Coletta, explica que apesar de tantas mudanças no processo de produção, não há diferença entre o álcool ou o açúcar certificado e o sem certificação. "O produto final não muda. Ele é igual. A diferença do álcool é que nós vamos ter certificação de uma matéria-prima e a partir dela, dentro dos cálculos que eles vão fazer, vão certificar um determinado volume de álcool. Então o consumidor, quando for comprar esse álcool, vai saber, por exemplo, que essa usina fabrica 'X' por cento de álcool certificado, ou a fábrica tudo certificado. Essa é a informação que o consumidor final vai receber".

Nesta safra, a previsão é que a usina produza 93 milhões de litros de álcool, 25 milhões certificados. Mas por enquanto, ninguém vai receber mais por isso. Nem o produtor, nem o trabalhador da colheita, nem a usina. Então, qual a vantagem?

"Muitos países existe até um preconceito do produto brasileiro, achando que está comprando um produto que degrada o meio ambiente quanto não é verdade. Eu entendo que novos mercados poderão surgir e despertar o interesse para esse produto, por saber que é bem diferente daquilo que eles estão pensando e daquilo que o próprio consumidor está imaginando".

A Associação de Bariri tem hoje 280 produtores, 50 aderiram ao protocolo. O Presidente da Associação, Fernando Gregório, está confiante que em breve outros vão participar também. "A parte econômica é uma perspectiva, uma previsão, uma visão de futuro que em pouco tempo essas questões sociais, ambientais e trabalhistas serão quesitos fundamentais para que você possa vender o seu produto nos mercados do exterior. Já existe negociação com mercados europeus, especificamente o mercado inglês, onde os quesitos para o produto são bastante rígidos. Uma diferenciação, que o nosso produto pode ser rastreado desde o campo, quando você planta, até o navio em que ele é embarcado".

Para o Sr. João e Sr. Luiz, assim como é preciso ter paciência para ver a lavoura crescer, é hora de saber esperar os frutos de tanto investimento. "Esse investimento eu acho que a curto prazo ele não vai virar muita coisa em termos de mercado, mas futuramente vai ter o resultado positivo sim. O mercado exterior, eles querem o boi verde, o álcool, o açúcar. Então eles querem a boa prática do agricultor brasileiro que eles cobram muito".

O senhor acha que vai aumentar o mercado? "Vai, com certeza. Porque pelo menos a gente está cumprindo a função, sem agredir o meio ambiente, sem trabalho escravo. Isso vai ter um resultado sim".

A iniciativa pioneira de Bariri é muito mais que uma aposta, revela uma visão do futuro. Quando cuidar do meio ambiente e das relações de trabalho será condição fundamental para qualquer negócio. Tanto no mercado internacional quanto no Brasil.

Este mês, 15 produtores de Bariri conseguiram a certificação. Os irmãos Ticianelli, que nós mostramos na reportagem, estão incluídos na lista.
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