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Conheça os verdadeiros ‘semeadores da discórdia’: a indústria da uva passa

Em 2016, o Brasil importou 27,6 mil toneladas de uvas passas, pagando US$ 42 milhões.


As redes sociais viram campos de batalha; entre ideias polarizadas, os “isentões” não têm vez; o debate é acalorado. Só um detalhe: não estamos falando de “coxinhas” ou “mortadelas”. Aqui o motivo da discórdia não é política, mas comida de verdade. Sim, são as uvas passas.

Quando chega a época de Natal e Ano Novo, elas invadem as mesas, pouco importa se o prato é doce ou salgado, numa tradição que atravessa gerações. Uns amam, outros odeiam. Mas o que poucos parecem saber é de onde vem a uva passa (e o quanto ela movimenta a economia natalina). “Para nós, é só amor, nada de ódio”, brinca Felix Boeing Junior, CEO da La Violetera, indústria de Curitiba (PR) que atua no segmento de frutas desidratadas há mais de cinco décadas. E não é para menos. Todos os anos, a empresa coloca no mercado 3,3 mil toneladas de uvas passas, reforçando o caixa com R$ 26 milhões. “E essa época, de agosto a dezembro, corresponde a 60% do total. Todo o nosso setor de frutas secas fatura R$ 62 milhões, então a uva passa é bem representativa.”
Produção zero

Por uma combinação de clima e mercado – por maior que seja a demanda – a produção comercial de uvas passas é praticamente zero no Brasil, segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, José Fernando Protas. “O Brasil é um grande consumidor, mas importa 100% do que consome”, afirma.

A unidade chegou a desenvolver uma variedade sem sementes, a ‘BRS Clara’, pensando inclusive no mercado de passas, mas hoje, reconhece o pesquisador, o custo inviabiliza a aplicação da tecnologia. “Os grandes players são Estados Unidos, Irã, Turquia, Chile e Argentina. O que nos coloca em desvantagem é o fato de que esses países têm custo zero de secagem”, diz Protas, lembrando que as áreas de cultivo são praticamente desérticas. “A uva fica murchando no pé, em alguns casos eles já colhem a uva seca. Ou, quando está bem madura, colocam no ‘tempo’ para secar. E isso nós não temos em nenhuma região. De dezembro a abril, temos muita chuva.” Aí, o jeito é secar industrialmente.

Na prática, sai mais em conta importar a iguaria e, neste quesito, os argentinos são “muy amigos”. Para além do futebol, os Hermanos são os maiores responsáveis pelos desentendimentos do lado de cá da fronteira. Em 2016, o Brasil – sexto maior importador do mundo, segundo os dados mais recentes da Embrapa - trouxe de fora 27,6 mil toneladas de uvas passas, pagando US$ 42 milhões. Do total, 84,5% tinham origem na Argentina. Em 2017, até novembro, as compras externas chegaram a 23,75 mil toneladas (US$ 40,9 milhões).

“Por causa do Mercosul, eles não pagam impostos. Com isso, a uva passa da Argentina chega pela metade do preço do que se produzíssemos nas nossas condições (com custo de produção e secagem), fora o custo de logística”, explica Protas.

O que é a uva passa?

Simples: uva e nada mais. A diferença é que as frutas que não têm tamanho adequado e outras características de mesa ficam ali, secando no ambiente, seja no pé ou estendidas no chão sobre esteiras. O processo, que dura de duas a três semanas, aumenta o tempo de validade, pois “tira” toda a água da uva, mantendo, porém, as características nutricionais. Países como o Brasil, que tem o verão extremamente chuvoso, levam desvantagem já que a secagem tem que ser feita em equipamentos especiais. De acordo com a Associação Internacional de Uvas e Videiras (OIV), dos 72,6 milhões de toneladas de uva disponíveis no mundo, 9% são destinados às passas, que resultam em 1,5 milhão de toneladas.
 

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